''Há risco de uma política de empobrecer o vizinho''

Dominique Strauss-Kahn: diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional; Para o diretor do FMI, novos pacotes de estímulo à economia trazem medidas protecionistas disfarçadas e perigosas

Entrevista com

, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, diz que há um grande risco do aumento do protecionismo, com os novos pacotes de estímulo à economia. Kahn deu a seguinte entrevista à Global Viewpoint Estamos no centro do furacão ou o pior da crise ainda não chegou? O problema é que os efeitos sobre a economia real, na maior parte, ainda estão por vir. Com certeza, 2009 será um mau ano em termos de crescimento, não só para as economias avançadas, mas também para as emergentes.Mas há sinais de esperança. Grandes pacotes de estímulo foram preparados, especialmente nos EUA. Além disso, muitos governos perceberam que têm que reestruturar o setor financeiro.Com esse enorme número de demissões em todo o mundo, o quão grave é o risco de políticas protecionistas?O risco é realmente grande. Não o protecionismo tradicional - aumento de tarifas e coisas desse tipo. Muitos governos aprenderam com as lições do passado que isso não funciona e pode mesmo deixar as coisas piores do que estão. Mas pode haver um protecionismo entrando pela porta dos fundos, especialmente no setor financeiro. Para dar um exemplo, quando os governos fornecem novos recursos ou fazem uma recapitalização de bancos, podem acrescentar alguns comentários, dizendo que o dinheiro deve permanecer em casa. Ou, em pacotes de estímulo distintos, pode haver alguns comentários ou emendas, estabelecendo que o dinheiro deve ser utilizado para comprar produtos nacionais. Esse tipo de protecionismo pode retornar. Portanto, o risco de uma política de "empobrecer o vizinho" é grande. Numa crise global, de nenhum modo deve haver uma solução nacional ou doméstica. É preciso encontrar uma resposta global.Os governos já fizeram bastante, mas não registraram um avanço decisivo para frear a crise. O que mais devem fazer? Muitos governos, incluindo EUA, Japão, países europeus, e outros, não perceberam, até a reunião do G-20 em novembro, que aquilo que o FMI vinha afirmando há meses era verdade - ou seja, que precisávamos de um pacote de estímulo a nível global e de uma ação abrangente no setor financeiro. Agora, vai levar muito tempo nos diferentes países, dependendo dos processos democráticos nacionais e outras razões, para implementar as mudanças. Assim, a questão não é mais convencer os governos da realidade, mas eles implementarem as políticas que prometeram adotar. Em segundo lugar, a crise agora atingiu duramente os países emergentes, e os financiamentos fornecidos pelo FMI a esses países são muito importantes. E essa pode retornar para os países ricos, se as coisas ficarem ruins nos emergentes, por causa da economia global, é porque estamos numa crise global. Assim, os líderes precisam cuidar não só do que ocorre na sua própria economia, mas também na economia global.Alguns críticos já estão dizendo que o FMI torna as coisas piores ao sugerir que os governos elevem as taxas de juro e cortem gastos. Os programas do FMI hoje são diferentes dos anteriores? Não sei se concordo com a premissa da sua pergunta. Sim, o FMI cometeu erros, às vezes grandes erros. Mas é bom lembrar que estávamos tentando ajudar economias que estavam com problemas. Quando ninguém quer a sua moeda, não há outra escolha a não ser elevar as taxas de juro para torná-la mais atrativa. E quando você está registrando um grande déficit de conta corrente, precisa adotar medidas para reduzi-lo. Tem que encontrar recursos adicionais, - incluindo tomar emprestado do FMI, e equilibrar o déficit com cortes no orçamento.Seria ingênuo acreditar que esses problemas podem ser resolvidos sem sofrimento. Na verdade, sem a ajuda do FMI, a solução será ainda mais nefasta para a população. Dito isso, o mundo mudou, e esta crise difere de crises anteriores. Portanto precisamos adaptar nossas políticas.No passado eram impostas muitas condições que eram boas para o país, mas não ligadas diretamente aos problemas mais urgentes a tratar. Nessa crise, todas as pessoas podem ser atingidas, mas algumas serão mais afetadas do que outras. O FMI tem que cuidar dos mais vulneráveis numa sociedade. É por isso que, mesmo numa crise, criar redes de segurança é muito importante.CAMILLA ANDERSON, DO IMF SURVEY ONLINE e NATHAL GARDELS PARA GLOBAL VIEWPOINTFRASES"Se as coisas ficarem ruins nos emergentes, por causa da economia global, é porque estamos numa crise global""Sim, o FMI cometeu erros, às vezes grandes erros""Nessa crise, todas as pessoas podem ser atingidas, mas algumas serão mais que outras"

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