Há risco ''teórico'' de IPCA superar 6,5%, diz Meirelles

Presidente do BC observa que instituição não faz projeções para o índice, algo que ''compete ao mercado''

Célia Froufe, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, reconheceu ontem a possibilidade "teórica" de a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) superar neste ano o teto da meta, que é de 6,5%. "Sistematicamente, em qualquer ano, mesmo que a inflação esteja até abaixo do centro, existe sempre uma possibilidade teórica de que possa estourar o teto ou o piso", disse, em entrevista à TV Bloomberg. No entanto, o presidente do BC insistiu em que a autoridade monetária não faz previsões para a inflação. "Não fazemos nossa própria previsão. Isso compete aos mercados." Meirelles avaliou que as ações de política monetária começam a surtir efeito imediatamente, mas são cumulativas e seu auge deve ocorrer na virada do ano. "As elevações de juros começam a fazer efeito imediatamente. É um efeito cumulativo e o pico deve se dar no fim deste ano e no início do ano que vem", explicou.Segundo ele, alguns canais de transmissão da política são mais rápidos, como o de expectativas, do que o canal de atividade. "Existe um início de eficácia sendo mostrado, desde o início, que vai cumulativamente crescendo durante o tempo, para atingir este pico no fim do ano, início do ano que vem, e depois começa a decrescer, numa curva normal", previu. Meirelles chamou a atenção para a importância do aumento dos preços dos alimentos, uma vez que impactam as expectativas de inflação. "Não é meramente a questão do efeito primário", declarou, explicando que o encarecimento dos alimentos provoca pedidos de ajustes salariais. "Não há dúvida de que temos alguns fenômenos acontecendo ao mesmo tempo", avaliou. Ele atribuiu o aumento à combinação de demanda elevada com as secas e problemas climáticos, além da produção de etanol de milho. Ele também destacou o aumento dos preços do petróleo, que impacta o custo das indústrias.O presidente do Banco Central citou uma análise, segundo a qual o ciclo de commodities com preços elevados, principalmente das commodities agrícolas, deve durar cerca de três anos, o qual deve ser seguido por um recuo. "Não estamos falando necessariamente de continuar este ritmo de aumento, mas que teremos preços altos ainda por três anos, o que é um pouco diferente." Com relação ao petróleo, Meirelles avaliou que o produto tem um tipo de resposta diferente e os preços elevados podem se prolongar por mais tempo.A autoridade monetária destacou que a demanda doméstica vem "crescendo a taxas elevadas", assim como a produção, e chamou atenção para o uso alto da capacidade produtiva. Ele alertou que essa situação, em um contexto de alta dos preços do atacado, "envolve um risco de repasse". Meirelles avaliou que o BC reconhece o risco e para ele, essa é a "boa notícia". "Temos um Banco Central atento e preparado para agir", frisou. "O BC está atento, não surpreendido."Meirelles disse que o atual momento econômico "exige atenção e também ação". "O governo tem consciência disso e o Banco Central já vem avisando os diversos agentes econômicos desse risco", afirmou, citando o cenário internacional e o seu impacto no Brasil. O presidente do BC destacou que a projeção mais freqüente para o IPCA de 2008 na pesquisa Focus é de 5,80%, mas que, para o próximo ano, está menor, em 4,63%. "Essa idéia é importante: o mercado acredita que a inflação vai cair. Algumas pessoas diriam assim: não se preocupa, não, fique bem. O mercado já está esperando que a inflação vai cair no próximo ano, pode dormir", disse, em palestra concedida ontem de manhã na sede da Demarest & Almeida Advogados. ALERTASHenrique MeirellesPresidente do BC"Temos um Banco Central atento e preparado para agir. O BC não (foi) surpreendido""As elevações de juros começam a fazer efeito imediatamente. É um efeito cumulativo e o pico deve se dar no fim deste ano e no início do ano que vem""Não há dúvida de que temos alguns fenômenos acontecendo ao mesmo tempo"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.