Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Há saída para o fracasso de Doha

Os deputados americanos aprovaram projeto que, confirmado no Senado, como indica que será, enterra qualquer acordo sobre a liberalização comercial em discussão há 6 anos. Doha morreu e só nós acreditamos ainda na sua ressurreição. Não há acordo para liberalizar o comércio agrícola e, agora, nem industrial. Está como eles querem.Toda a imprensa falou demais, culpando os parlamentares americanos de manterem os subsídios aos seus agricultores, até mesmo para os milionários. Mas não é culpa deles. No fundo, é isso o que o governo também quer; só está sendo mais sutil. Pois não foi a negociadora comercial, Susan Schwab, que afirmou, ainda em plena negociação multilateral de Doha, estar ''''orgulhosa'''' por Bush ter adotado a sua tese em favor do bilateralismo? ''''É esse o caminho'''', declarou ela.Os parlamentares foram apenas atrás dessa ''''dica''''. Vamos proteger o nosso pobre agricultor milionário, devem ter dito, afastar acordos que nos obrigam a ceder muito, e vamos conversar, um a um, como fizemos com a Coréia do Sul. Afinal, não contam eles com o apoio silencioso do governo Bush?MAS, O QUE PODEMOS FAZER? Nem todos os caminhos levam a Doha, ou estão fechados. Ao contrário, abrem-se outros para o Brasil. O Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) acaba de realizar um levantamento mostrando que os países em desenvolvimento são o maior mercado para a agricultura brasileira. A coluna teve acesso ao documento e ouviu o seu novo diretor geral, André Nassar.''''Nós constatamos que, em 2006, o Brasil destinou 53% de suas vendas agrícolas para esses países, principalmente para a China, Rússia e o Oriente Médio. Essa verdadeira guinada está tendo profundo reflexo nas negociações agrícolas da Rodada de Doha, em que o Brasil tem papel de destaque como líder do G-20, juntamente com a Índia'''', afirma André Nassar.O setor privado agrícola do Mercosul está preocupado com as flexibilidades que os países emergentes do G-33 já conseguiram na Rodada Doha. Além de uma redução tarifária muito menor do que a dos países desenvolvidos, eles ganharam o direito a uma auto-seleção de produtos especiais e a aplicar salvaguardas, o que obedecerá a três critérios: segurança alimentar, dos meios de subsistência e desenvolvimento rural.''''Para o agronegócio do Mercosul, esses critérios não são compatíveis com os princípios de transparência e monitoramento do sistema multilateral de comércio dada a sua complexa aplicação'''', afirma Nassar. E esclarece: ''''Quaisquer movimentos protecionistas nos países em desenvolvimento terão profundas implicações no comércio Sul-Sul. Os países do Mercosul, que estão entre os mais competitivos nas exportações agrícolas, em 2006 destinaram 66% de suas vendas para o mundo em desenvolvimento''''.COMÉRCIO MERCOSUL-ÁSIAEste novo enfoque consta de estudos coordenados pela equipe técnica do Icone no contexto de um projeto com a Fundação Hewlett, que visa à formação de uma rede de pesquisas sobre a agricultura em 9 países: Brasil, Argentina, Chile, China, Índia, Tailândia, Malásia, Filipinas e Indonésia. Trata-se de importantes países sul-americanos exportadores agrícolas e grandes importadores asiáticos. Os resultados, que aqui apresentamos em parte, serão debatidos, pela primeira vez, no Seminário da Asia-Latin America Research Network (Alarn), no dia 29 de agosto, em São Paulo. Será um evento técnico de grande importância para começar a abrir espaço para novas negociações entre os blocos.DÁ PARA CRESCER MUITOEsse grupo de nove países responde por 30% do PIB agrícola mundial, 50% da população do mundo, 34% da área agricultável e 16% das exportações. ''''A importância da integração de pesquisas é que esses países, do ponto de vista da produção, do consumo e comércio têm se destacado cada vez mais em esfera global. Há uma grande complementaridade potencial de crescimento de comércio entre esses dois blocos de países - a América do Sul e o Leste da Ásia'''', diz Fabio Chaddad, especialista em economia agrícola e professor do Ibmec.Chaddad, que fez uma análise cruzada dos nove estudos, afirma que ''''existe um grande potencial de crescimento do agronegócio brasileiro nos próximos anos, baseado principalmente no crescimento de exportações''''. ''''E isso estaria ligado ao crescimento do consumo de alimentos nos países em desenvolvimento, principalmente China e Índia.''''ALIMENTAÇÃO MUDAA mudança do padrão de consumo de países asiáticos é um fato novo registrado pelos pesquisadores do Icone. ''''Veja o caso do leite. Há poucos dias, uma tonelada de leite em pó, que custava US$ 2 mil, chegou a ser vendida a US$ 5 mil. Fala-se numa acomodação desse mercado ao redor de US$ 4 mil. Isso acontece porque há um crescimento do consumo de lácteos ligado à diversificação da dieta nos países emergentes. Abrem-se novas perspectivas para a carne e produtos lácteos do Brasil, Argentina e Uruguai, que passarão a exportar mais para aqueles países asiáticos'''', diz Chaddad.*E-mail: at@attglobal.net

Alberto Tamer*, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

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