Divulgação/Bildner Center - 30/3/2017
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'Há sinais de mudança em direção a um Estado mais condutor da economia', diz chileno

Economista-chefe do Banco Central do Chile antes e depois da ditadura, Ffrench-Davis se opõe às privatizações, mas afirma que estatais precisam se desburocratizar

Entrevista com

Ricardo Ffrench-Davis, economista-chefe do Banco Central do Chile entre 1964 e 1970 e entre 1990 e 1992

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 11h00

Apesar de ter se doutorado em Chicago, Ricardo Ffrench-Davis sempre foi contra os princípios do neoliberalismo e, agora, comemora o que vê como “sinais de mudanças em direção a um Estado com um papel mais condutor da economia, regulador dos mercados e promotor de desenvolvimentos produtivos que gerem mais empregos”.

Opositor de privatizações por acreditar que elas não promovem investimento produtivo, o ex-economista-chefe do Banco Central chileno e hoje professor da Universidade do Chile afirma que as estatais precisam se desburocratizar e investir em inovação. “As empresas nas mãos do Estado têm de fazer um grande esforço de inovação e de desburocratização”, diz ele, que assistia as aulas de Milton Friedman em Chicago. “Achava e continuo achando que Friedman acreditava demais no mercado. Era brilhante, um grande expositor, mas tinha essa visão extrema.”

Em todo o mundo, os governos foram mais ativos na economia no ano passado. Essa tendência continuará?

Em meio à incerteza atual, há sinais no mundo de mudanças em direção a um Estado com um papel mais condutor da economia, regulador dos mercados e promotor de desenvolvimentos produtivos que gerem mais empregos. A redução da desigualdade também se alcança com estruturas produtivas inclusivas. Isso foi o que fez a Europa Ocidental no pós-guerra e também Coreia do Sul e Taiwan. Vejo uma consciência crescente em relação à gravidade da volatilidade excessiva dos capitais financeiros, seu papel especulativo e daninho para os investimentos produtivos e para a inovação. Essa volatilidade cria booms, seguidos por recessões intensas, como em 1982, 1995, 1999, 2008, 2012-13. E isso hoje é criticado até mesmo pelo FMI e por prêmios Nobel de Economia. A América Latina deveria observar mais isso e refletir com atenção e criatividade.

Os chilenos aprovaram, no ano passado, a elaboração de uma nova Constituição. É provável que, com essa nova Constituição, o Estado chileno cresça. Como avalia a decisão dos chilenos?

O resultado foi muito promissor e surpreendente. Espero que o Estado recupere as funções essenciais que a ditadura lhe tirou e cuja ausência é a causa da situação crítica que o Chile vive hoje. A Nova Constituição não resolve os problemas, mas pode nos libertar de amarras regressivas e imobilizadoras, apagar os resíduos ditatoriais e a sombra de Pinochet. Pode dar espaço às forças democráticas para convergirem e iniciarem uma nova etapa de desenvolvimento que, entre outras coisas, requer um crescimento vigoroso, inovador e inclusivo, novos direitos e novos deveres. É fácil destruir devido ao mal-estar com o declínio econômico, social e político dos últimos anos. É difícil construir e ser persistente ao longo do tempo. O debate começou. Agora o Chile tem uma nova oportunidade de retomar o caminho de desenvolvimento que escolheu em 1990. 

Como avalia os protestos no Chile que resultaram no plebiscito por uma nova constituição?

Um acúmulo de variáveis culminou neles. O Chile que herdamos da ditadura tinha uma renda per capita inferior à média da América Latina. É um grande erro quando se diz que o Chile da ditadura cresceu e todos estavam contentes. Hoje o país tem a maior renda per capita da região e 50% acima da média da região, mas a grande melhora veio nos primeiros oito ou nove anos da democracia. Depois começamos a perder impulso e entramos em vários ciclos econômicos de recuperação seguidos de queda, e muitos erros em outros âmbitos. Há uns seis anos, muitos começaram a regressar da universidade sem encontrar um bom emprego. Apareceram também escândalos de policiais envolvidos em milícias e de acordos fraudulentos entre empresários, a quem se aplica uma multa muito pequena, em vez de prendê-los. Isso foi se somando nos últimos anos e gerando um grave distanciamento da elite dirigente.

Para o sr. então o fato de Chile ser o país mais rico da América Latina tem a ver com a política econômica dos primeiros anos após a ditadura e não com o programa dos Chicago Boys?

Exato. O salto se deu na democracia, principalmente nos anos 90. Na ditadura, houve grandes quedas e grandes recuperações, com um crescimento médio anual do PIB medíocre. No Chile, com a ditadura, a média de investimento foi de 17% do PIB. Na democracia, a taxa de investimento cresceu para 25%, nos anos 90. Isso ocorreu porque não havia um entorno econômico que favorecesse novos investimento. Era muito conveniente comprar empresas existentes. Empresa que o governo vendia a preços de liquidação. Não se criava novas empresas e o mercado de capitais era muito de curto prazo. Na ditadura, houve duas quedas grandes e depois uma recuperação. Quando se recuperou, houve muita publicidade internacional e isso deixou a imagem de que crescemos muito por causa da política neoliberal. Mas cresceu muito depois de uma grande crise. O que interessa é a soma das duas coisas. E o problema é que, quando o PIB caiu, foi mais intenso sobre os mais pobres e o investimento também caiu muito. O resultado foi depressão e regressividade.

O crescimento que veio na democracia não tem relação com as medidas neoliberais adotadas durante a ditadura?

É difícil acreditar que as reformas necessitem tanto anos para mostrar resultados positivos. Nas duas metades da ditadura, a economia cresceu cerca de 3%. Nos nove primeiros anos de democracia, o crescimento superou 7% e houve melhoras na distribuição de renda. O que herdamos (da ditadura) foi o esforço exportador, que foi mantido, mas com maior valor agregado. Mas a grande diferença foi no resto da economia nacional: reforma progressista tributária, restabelecimento de direitos trabalhistas, política econômica contra-cíclica com regulação de fluxo de capital financeiro, controle da taxa de câmbio para evitar grandes oscilações, apoio às pequenas empresas, acordos público-privados, diálogos entre trabalhadores, empresários e governo, além de um ambiente de confiança com um presidente carismático e preocupado com inclusão. Tudo isso representou mudanças significativas. Outras mudanças, para dar sustentabilidade ao crescimento, que logo foi se perdendo, não puderam ser feitas por causa dos amarres impostos pela Constituição herdada de Pinochet. Também foi se perdendo o impulso reformado e inovador público e privado. Nova Constituição e novos impulsos transformadores é o que a maioria dos chilenos deseja hoje para recuperar o crescimento e combater a desigualdade.

Como vê as medidas econômicas dos primeiros anos do governo Bolsonaro?

Elas incluem uma cópia lamentável dos grandes erros da ditadura no Chile. Vocês fizeram uma reforma da Previdência. Nós estamos agora corrigindo a reforma da ditadura (que criou o sistema de capitalização). A ex-presidente Michelle Bachelet já fez uma grande reforma em 2008 (que introduziu um pilar solidário). Entendo que o governo Bolsonaro pretende fazer privatizações. Há algumas empresas estratégicas que acho lamentável privatizar, como de energia elétrica e água. Mas há coisas que penso que o Estado não precisa fazer, como produzir macarrão ou estar em pequenas e médias empresas, porque isso distrai as autoridades das prioridades. O problema é que em vez de os recursos privados serem destinados a novas empresas ou à expansão das atuais, eles acabam indo para comprar o que já existe, através das privatizações. Além disso, não há um mercado de capitais de longo prazo e provavelmente as vendas das empresas vão ser feitas a preços baixos. Tudo isso ocorreu no Chile. Aqui foram vendidos pacotes de ações num capitalismo concentrador. Houve uma liberdade econômica que concentrou renda e criou muito pouca capacidade produtiva nova. Não repitam o mesmo acreditando que isso fez bem ao Chile, porque não fez.

Como foi para o sr. saber, em 2018, que um aluno de Chicago estava assumindo a Economia do País?

Inquietação, porque dava sinais de admiração pelas reformas neoliberais chilenas, incluindo o sistema previdenciário, que hoje passa por uma reforma profunda. Pensei que haveria privatizações e que se criaria poucas novas empresas, apenas compra do que já existe. A mensagem é que não vai haver incentivo ao investimento produtivo. É preciso incentivar a produção, a compra de máquinas e a criação de novas empresas privadas. Além disso, as empresas nas mãos do Estado têm de fazer um grande esforço de inovação e de desburocratização, ao invés de apenas vendê-las massivamente.

O sr. estudou em Chicago mas não concorda com a política liberal difundidas pela instituição. Já tinha essa posição antes de Chicago?

Sim, mas isso foi se aprofundando. Quanto mais aprendia e analisava economias reais, mais me afastava da posição de que o mercado sabe tudo. Claro que o mercado é muito importante. O problema é como os mercados operam: se o administramos ou eles nos administram. Tinha 23 anos quando fui a Chicago, não sabia muito, mas sabia que era a universidade de Friedman e de sua visão. Achava e continuo achando que Friedman acreditava demais no mercado. Era brilhante, um grande expositor, mas tinha essa visão extrema. Mas nem todos em Chicago eram iguais, havia professores pragmáticos e progressistas.

 

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