Haverá guerra comercial?

O protecionismo somente reduzirá o déficit se conseguir diminuir a absorção doméstica

Claudio Adilson Gonçalez, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

Desde que o economista britânico David Ricardo apresentou a Teoria das Vantagens Comparativas, em seu livro Princípios da Economia Política e Tributação (1817), o mundo compreendeu melhor os benefícios do comércio internacional. Ricardo mostrou que em um mundo de dois países, ambos podem beneficiar-se do comércio internacional, mesmo na hipótese de um deles ser mais eficiente do que o outro na produção de todos os bens. Para tanto, cada um deveria especializar-se na produção daqueles bens em que é relativamente mais produtivo e complementar suas necessidades de consumo e investimento por meio do comércio com o outro país.

O mundo real é mais complicado do que o utilizado na teoria de Ricardo. Fatores como a dinâmica de longo prazo dos preços relativos, evolução dos custos de transporte, ganhos de escala, indústrias nascentes, questões estratégicas e pressões políticas tornam o comércio internacional um jogo bruto, mais parecido com uma partida da Copa Libertadores da América do que com o fair-play defendido pelo Barão de Coubertin, na Olimpíada de 1896. 

Apesar dessas restrições, há vasta evidência empírica, principalmente para os países desenvolvidos, quanto aos benefícios do comércio internacional para o aumento da produtividade e para o crescimento global. Isso se dá não só pelo canal das vantagens comparativas, mas também pelo avanço e difusão de tecnologias e pelos estímulos aos investimentos e à busca de eficiência nas empresas em razão do ambiente mais competitivo.

A compreensão dessa dinâmica colaborou para que o crescimento do comércio global nas últimas quatro décadas fosse espetacular, apesar de certo arrefecimento após a grande recessão de 2007/2008. No período 1981-2017, o comércio internacional cresceu à taxa média anual de 4,4%, enquanto o PIB global evoluiu a 2,7% ao ano. 

Diante dessas lições, como se explica a ameaça de guerra comercial entre Estados Unidos e China, que tanto abalou o mercado financeiro nas últimas semanas? E, afinal, haverá guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo?

É inegável que a China infringe de forma contumaz as regras de comércio internacional, mediante subsídios, juros abaixo das taxas de mercado, manipulação do câmbio e exigências exageradas de reciprocidade para quem quiser entrar no seu mercado. 

No entanto, o caminho que Trump ameaça trilhar é a pior escolha para lidar com a questão chinesa. O ideal seria a negociação, fortalecida por alianças com os principais parceiros, bem como atuação na OMC. O presidente não aceita, de forma obcecada, o déficit comercial americano, não apenas o valor total de US$ 568 bilhões (2017), mas principalmente o saldo negativo de US$ 375 bilhões das transações de bens com a China.

Trump não consegue entender que o déficit em conta corrente reflete a baixa taxa de poupança dos EUA. Em outras palavras, o déficit externo nada mais é do que o excesso do total de despesas de consumo e investimento em relação à renda nacional. O protecionismo somente reduzirá o déficit se conseguir diminuir a absorção doméstica e isso afetaria negativamente o crescimento, o que Trump não quer.

Apesar de Trump não entender essa inconsistência macroeconômica, não é provável que se instaure uma guerra comercial. O atabalhoado presidente americano continuará provocando muita incerteza e volatilidade no mercado financeiro com suas declarações insensatas, mas tem suas ações limitadas por uma democracia consolidada, baseada em instituições fortes, que possibilitam justas reações e pressões dos amplos segmentos sociais e empresariais que seriam prejudicados pela irracionalidade de suas políticas. Como disse a revista The Economist, seis palavras definem a política comercial de Trump: fazer ameaças, fechar negócios, declarar vitórias. 

ECONOMISTA E DIRETOR-PRESIDENTE DA MCM CONSULTORES. FOI CONSULTOR DO BANCO MUNDIAL, SUBSECRETÁRIO DO TESOURO NACIONAL E CHEFE DA ASSESSORIA ECONÔMICA DO MINISTÉRIO DA FAZENDA

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