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Herdeiro polêmico resiste à InBev

Presidente da Anheuser já disse que não pretende vender empresa

Andrew Ross Sorkin, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

Quando criança, ele era um menino indisciplinado. Adolescente, foi um agitador rebelde, travesso, que não respeitava os horários para estar em casa. Na faculdade, suas transgressões foram bem além das imprudências juvenis: uma mulher com quem vivia, uma garçonete, morreu quando o Corvette dele bateu, às 6h30 de uma manhã. Ele fugiu do local e, oito horas depois, foi encontrado com sangue na roupa. A família, muito unida, protegeu-o, contratando poderosos advogados, e a polícia abandonou a investigação alegando que as provas eram inadequadas.Dois anos depois, ele se envolveu num episódio de perseguição pela polícia e foi acusado de tentar atropelar um oficial com sua Mercedes. De novo, os advogados da família intervieram e ele foi absolvido.Formado, foi trabalhar na empresa da família . Hoje é o seu diretor executivo. O nome da empresa? Anheuser-Busch. "O Quarto (em inglês, "The Fourth"), como é chamado, é August Anheuser Busch IV, descendente de Adolphus Busch, fundador da Anheuser-Busch. Acabou de completar 44 anos.Ele dirige a empresa há cerca de 19 meses. Por causa da sua história de filhinho de papai e, no caso, porque pode mais ter herdado do que merecido essa posição, não surpreende o fato de a empresa estar hoje passando por dificuldades, como aconteceu há quase uma década.Por outro lado, seus concorrentes mais agressivos estão crescendo rapidamente e se tornando cada vez mais globais.Assim, "O Quarto" recebeu uma proposta de compra de US$ 46,4 bilhões da InBev, empresa belgo-brasileira fabricante das cervejas Stella Artois, Beck?s e Bass, dirigida por Carlos Brito, um executivo duro como pedra.A oferta de Brito, de US$ 65 por ação, em dinheiro, representa um ágio de 23% sobre o preço médio alcançado durante 30 dias pela ação da Anheuser-Busch. Mais ainda: essa oferta representa um ágio de 18% sobre o preço mais alto já obtido pela empresa, valor que os acionistas da empresa não viram em seis anos. Qual acionista - um deles é Warren E. Buffet - não gostaria de receber US$ 65 por ação? Mas eles não vão aproveitar a oportunidade se "O Quarto" tiver alguma coisa a ver com isso.O conselho de administração da empresa informou que "vai avaliar a proposta cuidadosamente" e decidirá no "tempo oportuno" a posição da empresa. Eles sempre dizem isso.Mas voltando ao mundo real, "O Quarto", seu pai, August A. Busch III, e a diretoria da empresa já estão se preparando para rejeitar a oferta, disseram algumas pessoas que participam das deliberações.Outras pessoas tentaram me convencer que estão todos trabalhando em "boa fé". Quanto a "O Quarto", ele disse em uma reunião de distribuidores de cerveja em Chicago, em abril, quando começaram a correr rumores sobre a capacidade da Anheuser-Busch permanecer independente, que nenhuma venda ocorreria sob a guarda dele. O Conselho da Anheuser-Busch está tão cansado dos membros da família que alguns dos seus diretores independentes - entre eles Edward Whitacre Jr, ex-presidente da AT&T - particularmente exploraram a possibilidade de contratar seus próprios advogados para obter um parecer legal independente, além do fornecido pela Skadden, Arps, Slate, Meagher & Flom, que está representando a empresa.E qual a quantidade de ações que a família Busch detém? Poderia se pensar em cerca de 4% - até menos do que a participação de Jerry Yang no Yahoo. Naturalmente, algumas das razões que os membros da família têm para querer manter a empresa não têm nada a ver com recompensas aos acionistas, mas têm tudo a ver com manter uma companhia que está no centro da identidade da família.Os membros da família e alguns da administração já andam ocupadíssimos, fazendo campanha nos bastidores em St. Louis, sede da empresa, tentando evitar que a Anheuser-Busch seja vendida. Estão tentando transformar o negócio numa questão política. Localmente, esse é o assunto do dia. Mas, antes de "O Quarto" e sua família irem longe demais, precisam analisar se o seu enfoque não pode sair pela culatra. Yang, fundador do Yahoo, aprendeu da maneira mais difícil até onde dizer "não" pode levar você. Yang pode perder o emprego por causa da demora em frustrar o ataque da Microsoft. Os Bancrofts, que sob pressão venderam a Dow Jones para a News Corp., de Rupert Murdoch, também aprenderam o que dizer "não" pode significar; eles não conseguiram um dólar a mais do que a oferta original e se atrapalharam no processo.O que não significa que "O Quarto" não deva insistir numa oferta mais alta . (A companhia provavelmente dirá que sua trajetória de crescimento faz com que ela valha mais e deve questionar o financiamento da InBev). Mas isso significa tentar chegar a um acordo amigável o mais rápido possível. Do contrário, o negócio pode se transformar numa novela de meses, revelando o quão disfuncional a família pode ser. ("O Quarto" e seu pai há muito tempo mantêm uma relação tensa. E outros personagens pitorescos da família podem emergir: há alguns anos, o sobrinho de "O Quarto", Peter, matou acidentalmente um amigo em sua casa com um rifle. Uma pessoa envolvida nas conversações disse: "Nós todos sabemos como a história termina. Saber como chegamos lá é que torna tudo isso interessante."No final, as defesas da Anheuser-Busch são frágeis. Não há um conselho vacilante e os acionistas podem agir por meio de um consentimento por escrito, significando que eles podem derrubar a diretoria a qualquer tempo. Mas esse não é o ponto mais importante. A família Busch realizou um péssimo trabalho na administração da empresa e quem sofreu foram os acionistas. Assim, em vez de apenas dizer não, "O Quarto" deve se sentar com Brito, da InBev. E trazer uma Budweiser.

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