Paulo Pinto/AE
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Hermès inaugura em São Paulo sua primeira loja brasileira

Tradicional grife francesa chega ao País com o objetivo de oferecer o "mundo Hèrmes" aos brasileiros

Mariana Barbosa, de O Estado de S. Paulo,

14 de setembro de 2009 | 15h49

Quando a tradicional grife francesa Hermès resolveu abrir capital, em 1993, seu então presidente Jean-Louis Dumas, tataraneto do fundador e que esteve à frente dos negócios da família durante quarenta anos, foi perguntado por um grupo de potenciais investidores qual era a estratégia financeira da companhia. "Que meus netos possam se orgulhar de mim", foi a resposta. Metade dos investidores se levantou e foi embora. "Os que ficaram, estão conosco até hoje", conta o sucessor de Dumas Patrick Thomas, que em 2006 tornou-se o primeiro presidente da companhia de fora da família.

 

Nos quinze anos desde a abertura de capital até o ano passado, as vendas da companhia se multiplicaram por quatro, atingindo 1,7 bilhão de euros. Os lucros cresceram 10 vezes (para 295 milhões de euros), enquanto as ações se valorizaram 20 vezes. Mas apenas 25% das ações estão no mercado. Os 75% restantes estão divididos entre os cerca de 60 descendentes de Thierry Hermès, em uma estrutura societária que torna a empresa praticamente invendável, apesar da tentativa de diversos grupos.

"Estamos falando de uma empresa cuja cultura está 100% associada aos valores da família. E eles não estão preocupados com lucros no curto prazo e sim com a perenidade", afirma Thomas, 61 anos, que veio ao Brasil para a inauguração da primeira loja brasileira, no shopping Cidade Jardim, em São Paulo, neste final de semana.

 

Segunda grife mais valiosa do mercado de luxo no mundo, com valor de mercado de 10,5 bilhões de euros, atrás apenas da Luis Vuitton, a Hermès nasceu em 1837 fabricando selas de cavalo. Desde então, o cuidado no processo de fabricação se transformou na marca registrada da companhia, que não esconde certo esnobismo em relação ao que se entende por mercado de luxo. "Nada de brilhos e dourados. Fazemos objetos clássicos de maneira artesanal e que vão durar para sempre. O luxo tem um ar de superficialidade", dispara Thomas. "Há diferentes aspirações entre os muito ricos. Uns querem se exibir. Outros realmente apreciam os produtos. São esses que queremos atingir", completa o executivo, exibindo a ponta de sua gravata. "Nossas gravatas têm o dobro de densidade de seda das concorrentes."

 

Para ele, a crise financeira, que atingiu duramente o mercado de consumo de luxo, veio para coroar essa visão. "A era do exibicionismo acabou."

 

A empresa até que tem se saído relativamente bem da crise. No primeiro semestre, as vendas nas lojas próprias cresceram 19%. Mas a queda nas vendas no Japão e nos Estados Unidos e também nas lojas dos aeroportos reduziu o crescimento do faturamento global no semestre para 7,6%.

 

Gravatas (que custam a partir de R$ 630) e os famosos lenços de seda (a partir de R$ 990), junto com perfumes vendidos em free shops em aeroportos do mundo todo, garantem a maior parte do faturamento da companhia. Assim como os lenços, que estão no mercado desde 1937 e se transformaram em ícones de luxo, algumas bolsas Hermès ficaram célebres e conquistaram status de obras de arte. Caso da Kelly Bag, que foi desenhada em 1892 para transportar selas, mas ganhou status de celebridade em 1956 quando foi vista nas mãos de Grace Kelly. Cada bolsa Kelly - cujos preços variam de US$ 6 mil a US$ 18 mil - nos EUA - consome 25 horas de trabalho de um artesão em Paris. O cuidado na fabricação e a limitação decorrente no ritmo da produção costumam provocar filas de espera para alguns produtos, o que os transforma em objetos ainda mais desejáveis.

 

Com 294 lojas e 8 mil funcionários, a Hermès trabalha com uma linha de 50 mil produtos de 14 categorias. Os produtos vão das bolsas e artigos de couro a relógios, joias (de prata), roupas, enxoval de bebê, louças e artigos de decoração. A empresa assina ainda projetos de interiores de jatos executivos, helicópteros, barcos e até de apartamentos.

 

Na loja brasileira, que ocupa um espaço de 169 m2 bem na entrada do shopping, vizinha à Luis Vuitton, haverá uma média de 5 mil itens.

 

Thomas não revela as projeções financeiras para a loja brasileira, nem os planos de expansão. "Nossa meta aqui é nos tornar conhecidos dos brasileiros, permitindo que eles descubram 'o mundo Hermès'. Há muito dinheiro circulando no Brasil."

 

Quanto aos netos de Dumas, um deles veio ao Brasil para a inauguração - acompanhado de Pascale Mussard, diretora internacional da companhia e sobrinha de Dumas, além de outros quatro primos.

 

Justiça atrasa dez anos vinda da Hermès ao Brasil

 

A Hermès é uma das poucas grifes internacionais de luxo que ainda não havia se instalado no País. A demora, explica o presidente Patrick Thomas, se deveu a um litígio pelo uso da marca. A grife francesa planejava vir em 1995, mas foi impedida de usar a marca por uma empresa do Rio de Janeiro, que tem um negócio de venda de produtos populares por catálogo. O Grupo Hermes brasileiro, sem a crase, existe desde 1942 e foi fundado pelo alemão Siegfried Habarer. "Tentamos fazer um acordo amigavelmente, mas não funcionou e tivemos de entrar na Justiça. Infelizmente levou dez anos. Eu posso dizer que as cortes brasileiras são tão lentas quanto nós. Também fazemos as coisas bem devagar."

 

Além da batalha pelo uso da marca, Thomas afirma que faltava ao Brasil um endereço de luxo que não fosse um "bunker" fechado ou uma rua "misturada", com lojas de diferentes padrões. Além de locatária, a JHSF, dona do Shopping Cidade Jardim, é também parceira na loja.

 

Os brasileiros formam um importante grupo de consumidores para a Hermès, sobretudo no endereço 24 Faubourg Saint-Honoré, Paris. "Estimamos que de 3 mil a 4 mil brasileiros comprem habitualmente nas nossas lojas", diz Thomas. "Além de atender a esses clientes, queremos conquistar novos, que não conhecem muito bem a marca ou não viajam com frequência."

 

Para estabelecer um relacionamento com os clientes, a grife planeja realizar eventos e exposições, que poderão ser abrigados no próprio shopping ou em museus, como acontece lá fora. São exposições com temas ligados a sua rica história, seus produtos ou o processo de fabricação. "Neste momento temos uma exposição sobre a seda em Taipei, em Taiwan. Queremos trazer esse tipo de exposição também para o Brasil."

 

O Brasil é também um importante fornecedor para a companhia francesa. Desde o início dos anos 90, 100% da seda adquirida pela companhia vem de plantações no Paraná e no Mato Grosso. "A seda brasileira tem uma qualidade excelente e constante", diz Thomas. A empresa está ainda em negociação com pecuaristas de Goiás para adquirir couro de bezerro.

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