Hesitação pública de Temer reduz chance de aprovação de adiamento dos reajustes

A proposta de adiamento do reajuste de servidores de 2019 para 2020 já nasce fadada ao fracasso

Idiana Tomazelli, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 21h51

A proposta de adiamento do reajuste de servidores de 2019 para 2020 retornou aos planos do governo depois do vaivém que marcou as últimas 48 horas de negociação do Orçamento do ano que vem, mas já nasce fadada ao fracasso. A hesitação pública do presidente Michel Temer em comprar a briga com os servidores enfraquece a possibilidade de convencer os parlamentares a assumir esse desgaste junto a categorias que detêm o mais poderoso lobby junto ao Congresso Nacional.

A pressão exercida pelo funcionalismo é grande e já foi capaz de barrar a aprovação da reforma da Previdência, como retratou o Estadão/Broadcast na série "Os Donos do Congresso". A primeira tentativa do governo de adiar os aumentos de 2018 para 2019 também esbarrou nesse lobby, que ganha poder e tem planos de eleger uma bancada ainda maior para os próximos anos.

Enquanto isso, o governo já frágil acaba dando mais munição para que as categorias e os próprios parlamentares virem as costas a uma medida tão importante para evitar o colapso dos investimentos e dos serviços prestados à população.

Coube ao ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, sair em defesa de Temer. No afã de tentar minimizar o desconforto causado pelas idas e vindas, Guardia chegou a negar que o presidente tivesse se comprometido com o aumento. "O presidente não falou que haveria reajuste", afirmou em entrevista coletiva.

Mas o próprio presidente disse em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast que não enviaria a proposta de adiamento e admitiu que o reajuste que será concedido aos membros do Judiciário fragiliza os argumentos do adiamento. E ontem, fez questão de alardear em seu perfil no Twitter que o reajuste dos servidores para o ano que vem estava assegurado.

Bombardeado pelas críticas, Temer preferiu hoje o silêncio enquanto as notícias sobre o recuo - o segundo em menos de dois dias - se espalhavam.

As categorias querem aproveitar a "falta de coerência" do Palácio do Planalto e já se articulam para definir estratégias e ações de mobilização. A esperança do governo é que o próximo presidente da República assuma a defesa da pauta e convença os parlamentares, que já não precisarão mais temer o crivo das urnas, a votar o adiamento.

No Palácio do Planalto, o discurso é que a decisão de retomar a ideia de adiamento dos reajustes pode melhorar o montante disponível para o próximo governo dar continuidade a programas prioritários. A equipe econômica ainda não incluiu os R$ 4,7 bilhões que seriam economizados no Orçamento "por prudência", mas o mais provável é que esse valor fique mesmo só no plano das intenções.

Em meio aos sinais contraditórios dos últimos dias, resta agora saber se o governo terá força para cobrar do Judiciário o cumprimento de sua parte no acordo que garantiu à categoria um reajuste de 16,38% nos salários: o fim do auxílio-moradia.

É REPÓRTER DO BROADCAST

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