Fabio Motta/Estadão
BNDES; banco vai entrar no apoio à produção do hidrogênio verde, uma das opções de 'combustível do futuro'.  Fabio Motta/Estadão

Hidrogênio verde: BNDES dará crédito de até R$ 300 milhões para fábricas do combustível

Processo do hidrogênio verde não emite gases do efeito estufa e usa fontes renováveis de energia para gerar a corrente elétrica

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2022 | 10h00

RIO - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai entrar no apoio à produção do hidrogênio verde, uma das opções de “combustível do futuro”, na fronteira tecnológica da transição para a economia de baixo carbono. Uma nova linha de crédito oferecerá empréstimos de até R$ 300 milhões para a construção de fábricas de produção para o mercado doméstico. Além disso, o banco está aberto para financiar grandes usinas para exportação, projetos de bilhões de dólares, com juros tão baixos quanto em mercados desenvolvidos.

Abundante na natureza, o hidrogênio é usado na indústria – como insumo para fertilizantes, produção de aço e refino de combustíveis, por exemplo. Também serve como combustível. Como só é encontrado na combinação com outros elementos – na água e nos hidrocarbonetos, como gás, carvão e petróleo –, para consegui-lo na forma pura, é preciso separá-lo.

Os processos de separação mais comuns são o hidrogênio marrom (obtido pela regaseificação do carvão) e cinza (obtido a partir de combustíveis fósseis, como gás natural), como mostrou o Estadão em novembro do ano passado. O processo do hidrogênio azul (a partir da captura do dióxido de carbono emitido pela indústria) é menos poluente, mas o hidrogênio verde é diferente.

O processo do hidrogênio verde não emite gases do efeito estufa. O elemento é obtido por eletrólise da água (pode ser do mar), que separa o hidrogênio do oxigênio por meio de uma corrente elétrica, método conhecido há 200 anos. O “pulo do gato” da tecnologia está no uso de fontes renováveis de energia para gerar a corrente elétrica, como eólica ou solar. O Brasil tem condições para liderar a revolução energética do hidrogênio verde por causa do enorme potencial de expansão da geração de energia eólica e solar.

Levantamento da consultoria McKinsey citado pelo Estadão em novembro mostra que, até julho de 2021, havia 359 projetos para a produção de hidrogênio verde em grande escala no mundo, somando US$ 150 bilhões em investimentos. No Brasil, a McKinsey calcula que será preciso investir US$ 200 bilhões, ao longo dos anos, para formar uma cadeia de produção.

A nova linha do BNDES começará com foco em projetos de pequeno porte, com investimento total em torno de R$ 400 milhões, disse a diretora de Garantia a Infraestrutura, Solange Vieira. Por isso, o teto de R$ 300 milhões para o valor do empréstimo. Segundo a diretora, é só o início do trabalho. As primeiras operações funcionarão como “projetos-piloto”. Dois pedidos de financiamento já estão em análise pela área técnica do BNDES e deverão ser aprovados nos próximos 12 meses.

O grande diferencial da nova linha do BNDES serão os juros extremamente baixos. “Estamos colocando de pé uma linha de financiamento que será TLP careca ou menos, dependendo do risco da operação”, afirmou Vieira.

A Taxa de Longo Prazo (TLP) – introduzida em março de 2017, na maior mudança na política de crédito do BNDES desde a estabilização da economia, no início dos anos 1990 – é a referência nos empréstimos do banco de fomento, balizada nos juros de mercado, seguindo as cotações dos títulos da dívida pública. Oferecer o empréstimo com a TLP “careca” significa aplicar uma taxa final praticamente igual à de referência. 

Menos do que isso significa um juro abaixo das taxas de mercado. A nova linha de crédito para plantas de hidrogênio verde será a primeira do BNDES a oferecer juros abaixo das taxas de mercado, com exceção dos programas não reembolsáveis, que financiam via apoio direto, e não empréstimos. Isso será possível porque parte do orçamento para a nova linha virá do Fundo Clima. Criado em 2009, o fundo é administrado pelo BNDES, mas está vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Ele financia, de forma não reembolsável, projetos com foco na mitigação das mudanças climáticas

Segundo Vieira, as condições excepcionais, de juros bem baixos, se justificam porque o desenvolvimento tecnológico da nova fonte energética está no início. A velocidade da inovação impõe desafios ao financiador, já que, rapidamente, custos de investimento e receitas podem mudar, impactando as premissas financeiras das operações.

Os desafios tecnológicos são enormes. O processo da eletrólise da água precisa ser melhorado, para consumir menos eletricidade – o que reduziria o montante de investimentos necessários. O armazenamento e o transporte ainda são um desafio. E tudo isso precisa avançar para baixar o custo. Atualmente, o preço do quilo do hidrogênio cinza é US$ 2, enquanto o verde está entre US$ 5 e US$ 8. Nas estimativas da McKinsey, o preço do quilo do hidrogênio verde produzido no Brasil poderia chegar a US$ 1,50 em 2030.

Pensando nisso, a nova linha do BNDES poderá financiar também projetos de pesquisa e desenvolvimento, disse Vieira. Além disso, como as plantas de produção de hidrogênio verde dependem da geração de eletricidade associada, as linhas tradicionais do banco de fomento, que já financiam parques eólicos e solares, poderão ser usadas para essa parte dos investimentos.

Em outra frente, o BNDES foi autorizado a usar seus recursos para o financiamento do comércio exterior para empréstimos para grandes plantas de produção de hidrogênio verde que sejam totalmente voltadas à exportação, que encontram nas áreas portuárias suas localizações ideais.

O Porto de Suape, em Pernambuco, assinou um memorando de entendimento com a francesa Qair Brasil para a construção de uma planta com investimento total de US$ 3,8 bilhões. A companhia francesa também tem acordo com o Porto de Pecém, no Ceará, para projeto que prevê o uso da energia elétrica gerada pelo Complexo Eólico Marítimo Dragão do Mar e de um parque de energia eólica offshore (nas águas do mar), com investimento total de US$ 6,95 bilhões. Em maio, a Shell e o Porto do Açu, no litoral norte do Rio, assinaram um memorando para o desenvolvimento de uma planta-piloto.

Segundo Vieira, os empréstimos aqui podem ser bilionários. O BNDES não trabalha com um teto de orçamento. Assim como no caso da linha para projetos nacionais, o juro baixo será o diferencial. Só que, no caso das plantas para exportação, a ideia é equiparar as condições de crédito com as melhores encontradas mundo afora, incluindo mercados desenvolvidos. São juros entre 1% e 2% ao ano, disse a diretora do BNDES.

“Vai ser uma taxa bem barata, competitiva, a nível internacional, com as linhas dos nossos concorrentes, como bancos de desenvolvimento e organismos multilaterais, dependendo do ‘spread’ de risco do cliente”, afirmou Vieira. “O foco aqui é trabalhar para colocar o Brasil competitivo a nível internacional, com uma pauta geradora de empregos, de divisas, de desenvolvimento para o País, associado à questão do clima”, completou.

Segundo a diretora, a guerra na Ucrânia – e as sanções econômicas dos países ocidentais contra a Rússia, por causa dos ataques ao país vizinho, o que levou a um choque nas cotações do petróleo, já que os russos são grandes produtores da matéria-prima – poderão impulsionar o hidrogênio verde como alternativa na transição energética.

“A demanda ficou mais firme, e os projetos começaram a sair do papel, também com o movimento da guerra na Ucrânia. A Alemanha está organizando um leilão para a compra de hidrogênio daqui a dois anos. Conversamos com alguns investidores olhando para esse leilão e organizando suas plantas produtivas para fornecer hidrogênio a partir daí”, afirmou Vieira. 

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Nova diretora assumiu área do BNDES para tomar mais risco no financiamento à infraestrutura

Solange Vieira comanda, desde o início do ano, a nova estratégia do banco no financiamento à infraestrutura

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2022 | 10h00

RIO - Em seu novo papel no financiamento aos investimentos em infraestrutura, passando de fonte de crédito barato para coordenador de operações com vários financiadores, o objetivo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é assumir mais riscos, resume a diretora de Garantia a Infraestrutura, Solange Vieira, no cargo desde o início deste ano.

“Quando o (presidente do BNDES, Gustavo) Montezano me convidou para vir aqui para o banco, perguntei para ele: ‘qual o meu mandato, o que você quer de mim?’ Ele falou: ‘quero que você tome mais risco’. Temos avançado muito nessa agenda de estruturar os projetos assumindo os riscos do projeto, estando ali junto com os investidores, em igualdade de estruturação quanto às garantias”, disse Vieira.

A mudança estratégica foi iniciada ainda em 2016, com a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP) – introduzida em março de 2017, foi a maior mudança na política de crédito do BNDES desde a estabilização da economia, no início dos anos 1990. Com a nova taxa de referência, o banco passou a cobrar juros de mercado, balizados pelas cotações dos títulos da dívida pública.

Agora, a próxima tarefa é desenvolver, no Brasil, o formato “puro” do “project finance”, tipo de financiamento em que o tomador é a concessionária criada para operar uma concessão ou parceria público-privada (PPP), oferecendo como garantia as receitas do próprio projeto. O BNDES faz “project finance”, mas sempre exigindo ativos ou fianças dos sócios das concessionárias em garantia – por isso, muitos consideram que o modelo nunca foi usado para valer no Brasil.

Desde a virada do ano, o BNDES experimentou a nova estratégia no financiamento à infraestrutura em três operações. A maior foi o empréstimo de R$ 6,9 bilhões para a operadora da PPP da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo. Em seguida, o empréstimo de R$ 200 milhões para a Via Brasil MT 100, concessionária que opera um trecho de 91,5 quilômetros da MT-100, rodovia estadual de Mato Grosso. A terceira operação foi o empréstimo de R$ 1 bilhão para os investimentos da operadora espanhola Aena nos seis aeroportos do Bloco Nordeste, concedidos em 2020.

Segundo Vieira, os avanços na mudança do BNDES se dão a partir de um “golaço” marcado pela atual diretoria, a consolidação da “fábrica de projetos” – a outra parte do novo papel do BNDES na infraestrutura, que é estruturar concessões ao setor privado. Bons projetos, que passem por leilões competitivos, com taxas de outorga corretamente precificadas, e que tenham os investimentos calculados de forma proporcional à demanda corretamente estimada, são a condição para que diversos financiadores, não só o banco de fomento, topem tomar mais risco nos pacotes de financiamento.

“Para deixarmos um projeto (de financiamento) ‘non-recourse’ (com todas as garantias alocadas nas receitas da concessão) de pé, com segurança para todo mundo, o projeto tem que ser bom, estar bem estruturado, e o lance (no leilão de concessão) tem que ter sido feito de forma adequada. Os projetos que estão chegando agora (nos pedidos de financiamento) contemplam essas duas questões”, afirmou Vieira.

Mesmo assim, em infraestrutura, “nada é rápido”, disse a diretora. Por isso, alguns gargalos ainda atrapalham e levarão algum tempo para serem resolvidos. Um deles é que, com o setor da construção pesada atingido em cheio pelas investigações da Operação Lava Jato, faltam “empresas de construção que garantam a entrega da obra, às vezes, o custo fechado”. Outro gargalo é a necessidade de que os marcos regulatórios sejam mais estáveis. Também falta que as seguradoras passem a atuar no financiamento à infraestrutura, disse Vieira. 

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