Hiperpotência empobrecida

A informação agora é oficial. Publicado o solene desmentido: "Os Estados Unidos não estão em declínio", a notícia foi transmitida pela própria secretária de Estado, Hillary Clinton. "Os Estados Unidos devem liderar e, de fato, liderarão ainda o mundo no século que se inicia", ela garantiu. Hillary nos tranquilizou, estávamos assustados.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

No entanto, o fato de Hillary se preocupar pessoalmente em desmentir o declínio dos EUA, nos deixa com a pulga atrás da orelha. De fato, um vento de derrota sopra sobre as elites americanas, e o tema "declínio" inflama o debate.

O secretário da Defesa, Robert Gates, afirmou em abril à revista Foreign Affairs que, de agora em diante, as ações do seu país "deverão estar impregnadas de fortes doses de modéstia". O respeitado professor Michael Mandelbaum publicou o livro A superpotência frugal, sobre a questão. "Os Estados Unidos conseguirão manter sua liderança global com meios muito mais limitados?" E, em agosto, na mesma revista, Stephen Walt, não foi nada sutil. "Os Estados Unidos correrão o risco de afundar?"

Qual o motivo de afirmações tão sombrias? Em primeiro lugar, por causa da economia. No confronto que opõe China e Estados Unidos, Pequim coleciona sucessos. A China acaba de se tornar a segunda economia mundial, logo depois dos Estados Unidos, superando o Japão. Evidentemente, essa formidável arrancada da China pode ser explicada pela crise econômica, que nasceu nos EUA e atingiu mais cruelmente os EUA do que a China.

Ocorre que, se examinarmos, não a situação atual, mas a longo prazo, é claro que a China não cessa de se fortalecer, enquanto os EUA se enfraquecem. O sucesso da China pode ser explicado por 32 anos de progresso constante, enquanto os EUA só conservavam sua bela aparência afundando nas dívidas (orçamentária, privada e externa). Há pelo menos uma década, a progressão da produção chinesa gira em torno dos 10% ao ano. A dos EUA, em torno dos 4%, e hoje menos ainda. A se manterem esses ritmos inimagináveis, o final do confronto já estará programado. Para daqui a 20 anos? A 30 anos?

Há muito tempo, o crescimento chinês deixava o mundo incrédulo. O país não poderia atingir tamanho desenvolvimento sem superaquecer-se, sem bolhas. De fato, no início do ano, o mundo achou que haveria uma pausa. Mera ilusão. No fórum de Tianju (o Davos chinês), o primeiro-ministro Wen Jinbao declarou: "A China deteve sua desaceleração". É verdade. Os números da retomada provocam vertigens: a produção industrial anual em agosto foi 18,45%.

Pontos fracos. Entretanto, existem zonas de fragilidade. A inflação é forte, a especulação imobiliária é terrível e os créditos bancários explodiram. Mas, mesmo que Pequim tenha escolhido a liberalização econômica, não se trata de um liberalismo democrático, mas de um liberalismo de Estado, que proporciona aos dirigentes poderosos instrumentos de controle para restabelecer o rumo certo.

Diante da energia desvairada e racional da China, os EUA apresentam uma paisagem um tanto triste. Com um crescimento de apenas 1% no segundo trimestre e um desemprego que beira 10%, a economia americana declina e corre o risco de arrastar em seu recuo o mundo ocidental, a Europa essencialmente. A recuperação da crise de 2008 será talvez mais sombria do que a própria crise. De fato, os poderes públicos usaram grande parte da munição no ano passado para salvar Wall Street e as instituições financeiras ocidentais. Não é mais possível baixar as taxas de juros que estão praticamente zero. A escolha está entre deixar a inflação subir ou reduzir os gastos e aumentar os impostos. Em outras palavras: abrir comportas que é sempre muito difícil fechar ou frear ainda mais o crescimento.

A questão é saber se, além das atuais dificuldades dos EUA, devemos temer um derretimento de todo o sistema financeiro e econômico do planeta. Enquanto a China evita o triunfalismo, os analistas ocidentais não se fazem de rogados e preveem uma reviravolta da situação geopolítica e econômica.

Os economistas da Opalic (empresa de assessoria em investimentos) citam outras rachaduras, na longa saga do mundo, como a derrocada do Império Romano no século 5, a afirmação do poderio monetário da Espanha e de Portugal no século 16, o predomínio industrial da Europa ocidental no século 19, e a passagem do poderio econômico da Inglaterra e da Europa para os Estados Unidos, nos anos 30.

O que preocupa é um sintoma recorrente: em todas as nações ricas, a indústria entrou em declínio. Nos EUA, o setor de serviços é a locomotiva, mas a máquina acabou se desgastando, porque o país não fabrica mais de 13% dos produtos que consome. O mesmo ocorre na Inglaterra, que deixou de ser uma nação industrializada. Igualmente na França, onde subsistem apenas poucas grandes indústrias espetaculares, como a Airbus ou a TGV. Na Europa, somente a Alemanha preservou sabiamente seu fabuloso parque industrial composto, principalmente, de médias empresas.

Fadiga. Ao mesmo tempo, investigam-se as razões profundas da fadiga americana. Alguns invocam o dinamismo dos países emergentes, forjado por sua convivência com o sofrimento, sua tenacidade e coragem, sua riqueza demográfica, sua vontade de triunfar sobre a fatalidade. Sua necessidade de vingar-se da História. Impulsionados por um desejo frenético, esses gigantescos reservatórios humanos se aprimoram rapidamente em termos de qualidade, de formação, de riqueza cultural e tecnológica.

O Ocidente pecou pelos motivos contrários: a incapacidade de sofrer, a ganância, o egoísmo, a necessidade de prazer, as injustiças sociais e a ausência de visão profética.

Essas taras se traduzem, no campo econômico, no recurso suicida ao crédito. Segundo os pessimistas, o endividamento monstruoso dos EUA e da Europa, somado à atividade deletéria dos corruptos e dos especuladores em valores mobiliários, prepararia o colapso, dentro de algumas dezenas de anos, das potências econômicas dominantes.

Esses movimentos são movimentos de fundo, semelhantes aos das placas tectônicas que derivaram obscuramente debaixo dos pés da humanidade, silenciosamente, e que, depois de alguns milhões de anos, separaram a África da América ou despedaçaram o continente de Gondwana para formar a Austrália, Madagáscar, etc...

Pouco a pouco, surgem sinais visíveis e discretos dessas lentas e silenciosas metamorfoses. A China joga com esses sinais, e exibe de maneira brilhante sua glória, por exemplo, na recente Exposição de Xangai, que mostrou ao mundo o que economistas pressentiam há anos: a entrada em cena do Império do Meio.

Globalização. Ao mesmo tempo, e de maneira mais humilde, os objetos fabricados na China manifestam dia após dia o triunfo da China, tornando-o visível. Não se pode mais comprar um brinquedo na Argentina, um tecido na França ou um espremedor de batatas no Chile, que não tenha sido fabricado na China. Melhor do que todos os discursos, essa presença obsessiva, alucinante do "made in China", mostra que a força do mundo poderá migrar para a Ásia.

As dificuldades dos EUA têm outra origem também: os EUA assumiram o encargo dos destinos do mundo e essa responsabilidade os esmaga. Intervir de um ponto ao outro do planeta, ganhar a guerra contra as potências do mal em 1945, ajudar a ressurreição de uma Europa moribunda, fazer frente ao desafio soviético na época da Guerra Fria, o fardo era superior às forças de uma única nação.

Essa servidão agravou-se com as escolhas desastrosas do governo americano, particularmente no Oriente Médio e no Afeganistão, "teatro de sombras e malefícios", sobre os quais os EUA não só se arruinaram, mas onde sofreram revezes que humilham sua imagem.

É talvez ali, nas obrigações de sua diplomacia planetária, que está a maior desvantagem dos EUA. O caso é muito conhecido na História. Roma, sublime edifício que durou mil anos, acabou se diluindo na enormidade das obrigações que a vastidão do Império lhe impunha. A Espanha acabou se asfixiando de baixo dos próprios lingotes de ouro americanos. Mais recentemente, o fim da URSS, embora possa ser explicado em grande parte pelo despotismo, injustiça, brutalidade, acelerou-se pelo peso esmagador que uma diplomacia planetária impunha ao Kremlin. A dissolução ideológica, militar, social e política da URSS foi também uma falência econômica.

Os mesmos desafios se impõem hoje aos EUA. "Os EUA não poderão intervir como antes no mundo. O governo global de fato que eles exerciam acabou", escreve Mandelbaum

É complicada a equação que se coloca aos EUA, à sua presença no mundo, à sua economia e à sua diplomacia: "Como é possível ser ao mesmo tempo uma hiperpotência e uma potência empobrecida?" TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.