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Historicamente Fitch não dá dois graus de ajuste de nota de crédito, diz diretor

De acordo com Rafael Guedes, diretor-executivo da Fitch para o Brasil, a dinâmica da dívida é 'preocupação número 1 de analistas' da agência para a avaliação da nota soberana do País

Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 17h04

Atualizado às 19h16

SÃO PAULO - A Fitch "historicamente não dá dois graus de ajuste de ratings, a não ser que haja um evento", comentou Rafael Guedes, diretor-executivo da Fitch Rating, quando questionado se isso poderia ocorrer com a nota soberana do Brasil. "Provavelmente isso ocorreu na crise da Comunidade Europeia, que foi um evento", destacou. 

A nota do País na Fitch é BBB, com perspectiva negativa. Para perder o grau de investimento, o Brasil teria que descer dois níveis: ir para BBB- e depois para BB+ (primeiro nível abaixo do grau de investimento).

De acordo com Guedes, a "dinâmica da dívida é preocupação número 1 de analistas" da agência internacional para a avaliação da nota soberana do País. O diretor-executivo da Fitch, no entanto, afirmou que é "viável" para o País atingir um cenário econômico no qual evitará o avanço da dívida pública bruta.

"Essa dívida está em 65% do PIB e está encostando em 70% do Produto Interno Bruto", comentou. "Para estabilizá-la, é preciso um crescimento do País próximo a 2% e superávit primário ao redor de 2,5% do PIB. É bastante factível para que o Brasil atinja essas marcas", destacou. 

"Mas com investimento baixo, a 16% do PIB, o País não consegue crescer 2%", ponderou Guedes. Ele ressaltou que o desequilíbrio da economia pode também ser identificado na elevação expressiva do déficit nominal, que atingiu 6,5% do PIB em 2014 e caminha para 9% do PIB neste ano. 

Guedes também comentou que uma perda "significativa" de reservas é um fator que poderia causar rebaixamento de um país, mas que as reservas no Brasil "estão bem e são robustas". "Esse é o único ponto positivo", disse o diretor. Ele também apontou que outros dois fatores poderiam ser uma piora substancial das dívidas de bancos públicos e uma deterioração do perfil da dívida pública interna, que não está no seu cenário-base, inclusive porque apresentou grande melhora na última década. 

O diretor da agência afirmou ainda que os dois analistas que analisam o Brasil estão reavaliando os indicadores econômicos do País, depois que a Fitch reduziu a perspectiva soberana de estável para negativa em abril. "Havia antes de abril uma avaliação específica sobre a dinâmica da dívida pública até 2018", destacou. Segundo ele, como ocorreram mudanças no quadro econômico no últimos meses, os analistas estão fazendo avaliações.  Ele fez os comentários antes de participar de evento realizado pelo IBRI em São Paulo. 

Ajuste fiscal. Guedes também comentou que as medidas relativas ao ajuste fiscal proposto pelo governo para 2016, com uma meta de  superávit primário de 0,7% do PIB, podem ser aceitas pelo Congresso. "O ajuste não tem medidas difíceis de serem aprovadas, desde que haja consenso da base (do governo)", comentou. "Uma coisa é a vontade da equipe econômica, outra é a capacidade de passar medidas."

 

"Ajuste fiscal com economia em retração é extremamente difícil", comentou Guedes. "O primário de 0,7% do PIB depende de uma série de medidas." Ele ressaltou que no início deste ano o Congresso não ajudou o governo na aprovação de ações corretivas das contas públicas. Ele destacou que a perspectiva negativa do Brasil indica que há risco maior de 50% para que a nota soberana do País seja rebaixada entre 12 e 18 meses.

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