'HOJE A DEMANDA É MUITO MAIOR DO QUE A PRODUÇÃO'

'HOJE A DEMANDA É MUITO MAIOR DO QUE A PRODUÇÃO'

Vendas seriam ampliadas se mais agricultores produzissem cacau de qualidade, afirma Rosa Vronski, que cultiva 36 mil cacaueiros sem nenhum tipo de produto químico em Medicilândia

Renée Pereira, Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 05h00


Na lavoura de cacau da família Vronski não entra nenhum tipo de produto químico. Os 36 mil cacaueiros plantados nos 35 hectares de terra são cultivados com adubo natural, produzido com uma mistura de resíduos orgânicos. A colheita obedece um critério rígido de seleção dos frutos e a fermentação é feita em grandes caixotes de madeira durante cinco, seis dias. Tanta dedicação garantiu a fama de “padrão Vronski de qualidade”, que conquistou fabricantes de chocolate do Brasil e da Áustria, além de empresas de cosméticos, como a Natura.

Em Medicilândia desde meados da década de 70, os paranaenses Rosa e Darcírio Vronski começaram a produzir cacau orgânico após participarem de uma feira agrícola. “Percebemos que tudo que era orgânico vendia muito mais rápido que os demais produtos”, disse Rosa. Em 2005, depois de uma visita de fabricantes austríacos, os agricultores locais criaram a Cooperativa de Produção Orgânica da Amazônia (Copoam).

Mas não foi uma tarefa fácil arregimentar e convencer os fazendeiros locais da vantagem do cacau orgânico, que exige muito mais trabalho que o produto normal. Foram necessárias mais de 20 reuniões para conseguir formar o grupo, que hoje tem 26 sócios e produz cerca de 600 toneladas por ano. “Hoje a demanda é muito maior que a nossa produção. Se mais agricultores fizerem um cacau de qualidade poderíamos ampliar as vendas”, afirma Rosa, de 55 anos.

Ela conta que começou a produzir cacau depois de comprar a fazenda de um padre italiano que deixou a batina, casou-se com uma moça da região e voltou para sua terra natal. A partir daí, a família ampliou a lavoura e melhorou a produtividade da terra. “Hoje conseguimos tirar entre 500 gramas e 1 quilo de cacau por pé”, garante a paranaense, que já pensa em expandir a plantação nos próximos dois anos.

Segundo ela, embora toda a plantação siga critérios de lavoura orgânica, nem todas as amêndoas são classificadas como tal. Para serem vendidas para produtores exigentes, as amêndoas não podem ser quebradas, têm de ser inteiras. Na hora de retirar a polpa do cacau, apenas o fruto perfeito segue para a classificação. Os demais são vendidos como cacau normal. A produção orgânica, com certificação, vale o dobro do produto normal.

Além de ser uma exímia conhecedora do cacau orgânico, nos últimos tempos Rosa se aventurou no mundo do chocolate. Na pequena casa de madeira, construída às margens da Transamazônica, ela improvisou uma máquina de pão para bater o chocolate. Aprendeu as regras básicas para transformar o cacau em chocolate num curso da Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (Ceplac).

“Com as noções básicas na cabeça fui aperfeiçoando e dando o meu toque. Agora meu ex-professor quer saber como eu faço o chocolate”, diz Rosa, orgulhosa de suas barras recheadas de maracujá, cupuaçu e coco. A agricultora já vende seus chocolates, sem produtos químicos, em lojas da região, assim como o cacau em pó e amêndoas de cacau caramelizadas.

Acostumada a receber fabricantes estrangeiros de chocolate, que desembarcam na região para conhecer o cacau orgânico do Pará, ela conta que faz questão de testar o sabor de suas barras com quem entende do assunto - os últimos a provarem do chocolate da Dona Rosa foram os representantes da fábrica austríaca Zotter. “Eles até queriam revender o chocolate”, diz ela, otimista com os rumos do negócio. “Agora estou fazendo uma parceria com o Sebrae para personalizar as embalagens.”

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