Hoje, até na renda fixa é preciso ter 'sangue frio'

Em tempos de doses diárias de dólar para segurar o câmbio, juros que sobem e descem em apostas futuras, um vai não fica do programa de afrouxamento monetário do banco central americano - que está bagunçando as mentes e os mercados mundiais -, o investidor pessoa física precisa estar ciente que não são só aplicações em bolsa de valores que requerem "sangue frio".

JOSETTE GOULART, Agencia Estado

26 de agosto de 2013 | 09h23

No investimento em renda fixa, hoje em dia, principalmente em títulos públicos por meio do Tesouro Direto, certas rentabilidades negativas estão tirando o sono de muita gente. Mas é só respirar e fazer absolutamente nada ou aplicar mais nos títulos públicos.

Na sexta-feira, 23, alguns desses títulos, que nada mais são do que uma dívida emitida pelo governo brasileiro em que ele se compromete a devolver os recursos no final de um prazo com uma remuneração determinada, perdiam mais de 20% de seu valor no ano. Não é à toa que o investidor se assusta, já que essa queda é maior até mesmo que a da Bolsa que no ano tem perdas de 14,63%. Os fundos de investimentos que aplicam em títulos prefixados também estão perdendo rentabilidade no ano.

A explicação técnica para esse movimento de queda, que parece pouco natural para um investimento de renda fixa, atende pelo nome de "marcação à mercado". Basicamente, isso significa que os títulos precisam refletir os preços que estão sendo cobrados naquele instante. É como se você verificasse que na tabela de preços dos automóveis de ontem, seu carro valesse R$ 25 mil. Mas você sabe que hoje o mercado não está tão bom e só vai conseguir vender por R$ 22 mil. Logo, você só pode contar com esse valor.

Nos casos dos títulos públicos, quando chegarem ao vencimento, eles valerão exatamente aquilo que foi acertado na compra. Sendo assim, quem aplicou em fundos de renda fixa prefixados ou no Tesouro Direto e não tem alguma emergência, que o dinheiro seja indispensável, deve esperar o título vencer ou os rendimentos voltarem ao normal.

Esse também é um bom momento de investir no Tesouro Direto, de acordo com André Massaro, consultor e educador financeiro. Isso porque os juros oferecidos estão valendo à pena, mais do que a poupança ou CDBs ou fundos de investimentos. Mas é preciso ter visão de longo prazo. São três as opções de rendimento: uma taxa prefixada, outra indexada à inflação e uma terceira pós-fixada. Na primeira, fecha-se uma rentabilidade (que na sexta-feira era de quase 11% ao ano com papel vencendo em 2019) até o vencimento. É possível encontrá-los sob as siglas Letra do Tesouro Nacional (LTN) e as Notas do Tesouro Nacional, série F (NTNFs).

A outra opção está oferecendo ganhos de 5% ao ano acima da inflação, representadas pelas Notas do Tesouro Nacional, série B (NTNBs) e na terceira alternativa, o título acompanha muito próximo a taxa básica de juros, a Selic, dando um desconto de apenas 0,03%. É pós-fixada pois se sabe o rendimento na medida em que se define a Selic. Essas são as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs).

As taxas oferecidas hoje são melhores do que as do ano passado, quando esses títulos, em um movimento contrário do atual, estavam registrando ganhos de 40% ao ano e não a queda de 20% atual. Para que o investidor não se confunda, está-se falando aqui de duas taxas, a que é acertada na hora da compra, que acompanha o título até seu vencimento, e aquela que retrata a "marcação a mercado".

Custo

Outra vantagem do Tesouro Direto, segundo Massaro, é que o investidor paga menos em taxas para os bancos. Isso porque o serviço prestado pelas instituições nestes casos é apenas de corretagem e variam de zero a 0,5% ao ano sobre o investimento, além de uma taxa de 0,30% ao ano cobrada pela Bolsa de Valores, onde esses títulos ficam custodiados. E esses custos são iguais para quem tem R$ 30, que é o mínimo exigido no investimento, ou R$ 1 milhão.

Para se ter uma base de comparação, alguns fundos que permitem aplicação mínima de R$ 50 cobram pelo menos 2,6% ao ano de taxa de administração. Além disso, o risco que o investidor corre é diretamente o do governo brasileiro e não da instituição financeira onde está aplicando o recurso.

Somente pessoas físicas podem aplicar por meio dessa ferramenta, e, segundo informações do Tesouro Direto, o volume investido ao longo dos anos chegou a R$ 10,3 bilhões em julho deste ano, quase 15% mais do que há um ano. Passa de 66% o total investido em títulos indexados à inflação e ao todo são 357.914 investidores operando.

Para investir, basta procurar um banco ou corretora, fazer o cadastro e operar pelo próprio site. Grandes bancos como BB, Itaú e Bradesco cobram 0,5% de corretagem, já a Caixa e o Santander, 0,4%. Algumas corretoras independentes como CGD, Corval, Spinelli, Título e Tullett não cobram taxa de corretagem.

E para aquele investidor que ainda está perdido: na semana passada, o Banco Central anunciou que fará leilões diários de venda da moeda americana para conter a escalada do dólar e conseguiu de fato reduzir a cotação na sexta-feira, 23; os juros futuros estão subindo, em parte acompanhando a própria alta da Selic; e, tanto os juros como o câmbio estão sendo influenciados pela expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), acabe com um programa de compra mensais de US$ 85 bilhões em títulos que teve início depois da crise mundial de 2008 com o objetivo de injetar dólares na economia, o tal do afrouxamento monetário. O fim desse dinheiro fácil, acaba por pressionar as moedas e os mercados internacionais. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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