MARCOS D'PAULA/ESTADÃO
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'Hoje o risco é de recessão global e isso vai nos afetar', diz economista

Segundo Carlos Kawall, não dava para prever que a crise chegaria a esse ponto; a previsão inicial era de um efeito limitado na economia mundial

Entrevista com

Carlos Kawall, diretor do Diretor do ASA Bank e ex-secretário do Tesouro Nacional

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 16h12

O economista Carlos Kawall, diretor do ASA Bank e ex-secretário do Tesouro Nacional, afirma que a revisão das expectativas apontam para o risco de uma recessão global, com pelo menos um trimestre de queda no Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos. Nesse cenário, o Brasil seria contaminado, apesar de ter uma economia um pouco mais fechada.  

Segundo ele, o País tem espaço para amenizar os efeitos da crise no campo da política monetária, mexendo nos compulsórios e no mercado de câmbio (venda de swaps/reservas). "Mas não temos espaço na política fiscal, a não ser que avancemos nas reformas, em especial na PEC emergencial, que abriria algum espaço para o aumento do investimento público."

Kawall diz que o ASA Bank reduziu a projeção para o crescimento do PIB do Brasil em 2020, de 1,5% para 1,2%. O banco também aumentou sua estimativa para a taxa de câmbio no fim do ano, de R$ 4,30 para R$ 4,50, e cortou a expectativa para a taxa Selic, de 3,50% para 3,00%. A seguir trechos da entrevista:

 

Como o sr. avalia o comportamento do mercado nesta segunda-feira?

Desde a semana do carnaval temos visto uma piora muito grande nas expectativas. Não dava para prever que chegaria nessa dimensão. Havia uma expectativa de que o vírus pudesse ser contido, com efeitos mais limitados na economia global, com um primeiro trimestre ruim, mas voltando no segundo e no terceiro sem prejudicar o crescimento global. Mas o fato de o vírus estar crescendo rapidamente chama atenção - particularmente na Europa - e a expectativa de que vá ter número crescente de casos em outros lugares, que ainda estão com política de teste ainda inconsistente. Chama atenção inclusive os Estados Unidos

A impacto na economia global será mais severo?

Inicialmente havia uma visão mais branda, de que o impacto seria mais limitado. Nesse cenário, olhava se muito o impacto sobre oferta, sobre as cadeias produtivas, de componentes e peças, que seriam afetadas. Portanto, seria um choque mais concentrado na oferta. Mas hoje, com os problemas de mobilidade das pessoas, vemos que pode ter um efeito maior. O setor de serviços ligado ao turismo de negócios e eventos de maneira geral já estão sendo prejudicados. Também vemos efeitos que podem surgir via confiança do consumidor, da queda de lucro das empresas e até da queda de renda. Isso indica que podemos ter efeitos importantes na demanda. E, sim, o crescimento vai ser muito mais afetado do que as previsões feitas antes.

Diante desse cenário, o mercado deve continuar tendo desempenho ruim nos próximos dias?

É incerto dizer isso agora. No fim de janeiro, quando começaram os primeiros dados, a previsão de impacto na economia global era de 0,1% e 0,2%. Num primeiro momento, pareceu uma coisa restrita a China, que estava sendo contida. Depois essa verdade não se confirmou. E está sendo pior todo dia. A gente está tendo um circuit break que não é comum. Da mesma forma que vimos semana passada o Fed (Federal Reserve, banco central americano) fazer um corte de emergência. Essas são decisões relativamente raras e negativas para a economia global. Apesar de não ter certeza do que vai ocorrer, há elementos que estão indo na direção mais negativa.

Que elementos?

O índice de condições financeiras, que são indicadores que agregam variáveis que podem apontar condições estimulativas ou contracionistas, está direcionado para um terreno claramente contracionista. Esse índice inclui bolsa, volatilidade da Bolsa, taxa de juros e spreed de crédito, que começam a mostrar aversão a risco. Esse agregado de indicadores está sinalizando lá fora uma contração. O Fed, por exemplo, afirmou semana passada que não pode conter o vírus e resolver problemas de cadeias de suprimento, mas pode atuar sobre as condições financeiras. Mas desde então as coisas pioraram ainda mais. A resposta de uma política econômica adequada é fazer a introdução de estímulos. Nos Estados Unidos, a curva de juros já precifica a queda da fed funds (títulos americanos) para zero. 

E qual o efeito da decisão da Opep de aumentar a produção de petróleo?

Só hoje o preço do petróleo está caindo 20% e no ano, 45%. Para nós, isso tem um efeito desinflacionário. Ou seja, a queda pode compensar a alta do dólar na  inflação deste ano. Hoje estamos com inflação de 2,9% e provavelmente vamos acabar num número menor que esse. Mas também nos coloca com viés de baixa no PIB, de 1,5%. Nesse sentido, temos um contexto mais negativo do ponto de vista da atividade econômica. Frente a isso, imaginamos que a orientação da política monetária tenha de mudar e achamos que, portanto, deveremos ter um corte de 0,5% na próxima reunião. 

Que outros efeitos essa queda no preço do petróleo pode ter no Brasil?

Quando você tem o petróleo caindo muito, isso ocasiona queda no preço da gasolina para o consumidor e eleva a renda disponível. Isso é um fator estimulativo da atividade econômica. Então não faria sentido você ter hoje preço do petróleo caindo 20% e a Bolsa caindo 10%. Isso mostra que o petróleo é uma consequência desse movimento de revisão das expectativas de crescimento global e não o elemento em si que está levando a bolsa para baixo. Não faz sentido ações de outros setores estarem caindo conjuntamente. Isso não tem nada a ver com o efeito do preço do petróleo. É o efeito de precificação dessa crise do coronavírus sob a atividade econômica como um todo. O petróleo está dramatizando tudo isso por causa da decisão da Opep de não fazer o acordo e gerar uma guerra de preço. Isso acaba multiplicando esse movimento.

Há risco de recessão?

Sim. Há economia global pode entrar novamente em uma recessão, com pelo menos um trimestre de queda nos Estados Unidos e isso vai nos afetar.

Ou seja, não tem como não se contaminar?

Não. É claro que nossa economia depende mais do mercado doméstico; não somos exportadores relevantes de petróleo do ponto de vista líquido; não somos uma economia movida a petróleo; e não temos tanta exposição ao comércio internacional. Mas temos conta de que a cada 0,5 ponto porcentual a menos de crescimento na China, o PIB do Brasil cresce 0,2 ponto a menos. Se a China crescer um ponto porcentual a menos, nosso crescimento já vai para baixo. Isso já havia nos levado a cortar o PIB para 1,5% e hoje podemos falar que pode ser menos do que isso.

Cenário doméstico também não é muito bom?

O PIB do quarto trimestre já mostrou desaceleração do crescimento. No primeiro trimestre, o consumo não foi tão bom e os indicadores não estão tão fortes. Há questões mais de curto prazo que já tinham gerado um viés de PIB mais fraco. Mas era algo que estava circunscrito no curto prazo e a expectativa era de que pudesse acelerar ao longo do ano. Mas com esse tipo de impacto na economia global, a probabilidade de a gente conseguir acelerar muito ao longo do ano diminuiu muito.

O País tem instrumentos suficientes para conter os efeitos dessa crise?

Temos espaço na política monetária, nos compulsórios e no mercado de câmbio (venda de swaps/reservas). Não temos espaço na política fiscal, a não ser que avancemos nas reformas, em especial a PEC emergencial, que abriria algum espaço para o aumento do investimento público.

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