Hollande quer pacote de estímulo à economia

Francês propõe plano de 120 bi como alternativa à receita de austeridade alemã

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h08

O Partido Socialista venceu as eleições legislativas na França ontem e, com força total, o presidente François Hollande agora propõe a implementação imediata de uma virada na estratégia de combate à crise na Europa. O francês quer a aprovação de um pacote de 120 bilhões para relançar a economia europeia e retirar o bloco da recessão.

A proposta será apresentada na cúpula da União Europeia (UE) na próxima semana e representa mudança profunda em relação ao receituário da chanceler Angela Merkel, baseado na austeridade e corte de gastos.

Hollande venceu o pleito na França há um mês com a promessa de voltar a dar crescimento ao país e ao bloco e começa assim a confrontar diretamente Merkel. Ontem, seu partido socialista terminou as eleições legislativas na França com uma clara vitória, o que dá a Hollande uma maioria absoluta no Parlamento capaz de aprovar a nova direção na política econômica.

Segundo dados ainda parciais, o resultado pode criar o melhor cenário já obtido pelos socialistas na história moderna da França, no que analistas apontaram como uma indicação da onda anti-austeridade que toma conta de diversos países que já entram em seu quarto ano consecutivo de crise. Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês, marcou seus últimos anos pela adoção de medidas de austeridade e uma aliança estreita com Merkel.

Com maioria no Parlamento, Hollande poderá aprovar a decisão de enterrar a ideia de elevar a idade mínima de aposentadoria - que havia sido tomada por Sarkozy -, adotar a contratação de 60 mil novos professores e adiar o equilíbrio fiscal e arrochos em gastos até 2017 e não 2014 como era o plano. Pela primeira vez em 30 anos, os socialistas conquistam a maioria na Câmara dos Deputados, 320 das 577 vagas. Além da presidência, os socialistas controlam o Senado.

Costura. Em termos europeus, a meta do primeiro presidente francês socialista eleito em 17 anos é criar mecanismos que permitam uma retomada da atividade econômica, algo não muito diferente do que se estabeleceu em 2009, quando a economia mundial mergulhou em sua pior recessão em 70 anos. Fundos estruturais da Comissão Europeia e dinheiro do Banco Europeu de Investimentos seriam destinados a estimular o Produto Interno Bruto (PIB).

Nos últimos dias, Hollande se dedicou a costurar o plano com outros líderes europeus, entre eles o italiano Mario Monti. A iniciativa irritou Merkel. Ela deixou claro que Berlim não tem recursos ilimitados para continuar ajudando os países em dificuldade na Europa. O governo de Merkel chegou a acusar Paris de estar formando uma aliança com os países em dificuldade para se opor à austeridade.

Hollande já apresentou o projeto informalmente aos demais países do G-20, para Monti e o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy. Na noite de sábado, o francês apresentou o projeto a Merkel, em uma conversa telefônica. O "pacto pelo crescimento", porém, teria sua conta final dosada, justamente para convencer Merkel a aderir.

Empregos. Grande parte do dinheiro virá de fundos que já contariam com os recursos, mas que estão destinados para outros fins. Parte importante do projeto será a criação de empregos para jovens e o projeto já teria todo seu dinheiro desembolsado até o final do ano. O projeto inclui a criação de uma taxa sobre transações financeiras e a arrecadação será destinada a um fundo criado para financiar projetos que incentivem o crescimento.

O Banco de Investimentos da Europa injetará outros 10 bilhões, o que poderá alavancar cerca de 60 bilhões do setor privado para obras, projetos de infraestrutura e o financiamento de tecnologias avançadas. Outros 55 bilhões viriam de fundos para o desenvolvimento regional da Europa, que hoje não encontram projetos em que possam aplicar.

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