REUTERS/Benoit Tessier/File Photo
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Hollywood entra na trama de Carlos Ghosn

Ex-presidente da aliança Renault-Nissan procurou produtor de cinema para melhorar imagem, diz jornal; Interpol busca executivo

Ben Dooley, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 08h09

TOQUIO - Carlos Ghosn, o patrão da aliança automotiva Renault-Nissan, não tinha muito conhecimento de produção de filmes, mas pretendia aprender.

Sentado em sua casa alugada localizada num bairro de luxo de Tóquio, ele recebeu, num certo dia de dezembro, a visita de John Lesher, produtor de Hollywood que conquistou um Oscar em 2014 pelo seu filme Birdman, estrelado por Michael Keaton. O encontro foi para discutir o roteiro da sua própria história, descrevendo o que considera uma prisão injusta decidida pelas autoridades japonesas e sua luta para provar sua inocência.

O tema da história era redenção. E o vilão era o sistema judiciário japonês.

As conversas preliminares não foram muito longe, disseram pessoas familiarizadas com o assunto. De qualquer modo, Ghosn estava se preparando para uma reviravolta surpreendente naquele roteiro.

Ghosn, com julgamento marcado para 2020, fugiu do Japão para o Líbano esta semana se evadindo das acusações de fraude financeira. Todos os elementos de um thriller no estilo de Hollywood se conjugaram: um avião particular transportando um fugitivo, vários passaportes, rumores de que forças ocultas operaram no caso e pessoas poderosas negando saber alguma coisa a respeito.

A conversa de Ghosn com Lesher daria um vislumbre do que ele estava pensando naqueles dias antes da fuga de um país que o mantinha sob vigorosa vigilância há meses.

Os promotores acusaram Ghosn de informar ao fisco ganhos menores do que realmente recebeu e temporariamente transferir seus prejuízos financeiros pessoais para as contas da Nissan. Um tribunal permitiu sua prisão domiciliar mediante o pagamento de uma fiança de US$ 13,8 milhões.

Como o processo se arrastava, Ghosn estudou casos de criminosos famosos que fugiram do complicado sistema judiciário japonês e ficou convencido de que jamais teria um julgamento justo no Japão, considerando a porcentagem de 99% de condenações decididas pela justiça do país.

Não está exatamente claro quando ele começou a planejar sua fuga. Mas seu encontro com Lesher foi um dos vários que ele manteve durante seus últimos meses em Tóquio enquanto contemplava o fim da sua luta contra o sistema judiciário japonês. Nas discussões ele se perguntava se um filme o tornaria uma figura mais simpática.

Ele queria saber também como outras pessoas lutaram, mesmo tendo sido vencidas. Em julho Ghosn encontrou-se com Jake Adelstein, jornalista americano que cobre de perto o sistema penal japonês, para discutir as perspectivas do seu julgamento.

Adelstein publicou recentemente um livro sobre Mark Karpelès, ex-diretor da casa de câmbio de criptomoedas MtGox, que passou mais de cinco anos numa disputa contundente com o Judiciário do Japão quando foi acusado de falsificação de dados, peculato e quebra de confiança. Em março Karpelès foi declarado culpado de falsificação de dados e condenado a dois anos e meio de prisão, que foi suspensa depois.

Adelstein disse que Ghosn o interrogou sobre o julgamento em busca de paralelos com seu próprio caso e tentando compreender o enfoque dos promotores.

“Eu lhe disse que eles não estão preocupados com justiça, o que querem é vencer”, disse o jornalista que escreveu sobre Ghosn esta semana no Daily Beast.

Os questionamentos envolvendo a condução do caso de Ghosh surgiram deste o momento em que os promotores japoneses o detiveram, em novembro de 2018.

Ghosn e seus advogados alegaram que a prisão foi um golpe cujo objetivo era impedir que ele prosseguisse com uma fusão entre a Renault - controlada pelo governo francês - e a Nissan, uma das joias da coroa do setor automotivo japonês.

Antes de ser libertado sob fiança, Ghosn passou semanas em prisão solitária onde foi sujeito a interrogatórios sem a presença do seu próprio advogado, o que levou a comparações sobre como executivos presos por crimes financeiros são tratados nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

O principal advogado de Ghosn neste caso, Junichiro Hironaka, passou meses condenando o sistema japonês de “justiça refém”, como parte de uma estratégia de relações pública com o fim de questionar se era possível Ghosn ter um julgamento justo no Japão.

Independente da veracidade das acusações contra Ghosn, ele se viu numa dura posição de desvantagem quando se preparava para o julgamento.

No final ele foi preso e indiciado quatro vezes, detido e constantemente interrogado por mais de 130 dias. Libertado sob fiança, foi proibido de se comunicar com sua mulher e seu filho que, segundo os promotores, poderiam ajudá-lo a subornar testemunhas. Câmeras foram instaladas na porta de sua casa vigiando as entradas e saídas. O uso de telefone foi restringido e ele não tinha permissão para usar a Internet fora do escritório do seu advogado. Nos últimos meses foi autorizado a apenas duas ligações telefônicas para sua mulher, com os advogados na escuta.

Apesar de tudo isto ele continuou determinado a defender sua inocência nos tribunais. Mas esta determinação mudou dramaticamente no dia 25 de dezembro, de acordo com uma pessoa próxima dele. Um tribunal japonês negou pedido feito pela sua defesa para ele passar o Natal com sua mulher. Pelo contrário, teve de comparecer a um tribunal em Tóquio onde seus advogados debateram com os promotores os detalhes do seu julgamento. Durante a sessão Ghosn teve conhecimento de que seu caso seria julgado por etapas e possivelmente o processo se arrastaria por anos.

O que o levou a presumir que os japoneses pretendiam forçá-lo a confessar ou mantê-lo detido por tempo indefinido.

“Quando você examina a situação em que ele foi colocado, parece provável que sua decisão foi motivada por desespero”, afirmou Nobuo Gohara, antigo promotor de justiça que hoje trabalha como advogado de defesa.

De volta ao Líbano, Ghosn talvez espere ter o seu fim hollywoodiano.

Ele e seus advogados pensam em solicitar que ele seja julgado no Líbano e não no Japão, segundo várias pessoas próximas do caso.

O Líbano, pelo menos, será mais receptivo: Salim Jreissati, membro do alto escalão do governo, disse a um jornal local esta semana ter pedido às autoridades japonesas para o caso de Ghosn ser transferido para um tribunal libanês para ele ser julgado com base nas leis internacionais anticorrupção. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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