''Home office'' faz união de trabalho e vida pessoal

Segundo especialistas, trabalho em casa é forma de atrair profissionais e também uma chance de economia para empresas

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

A gerente de recursos humanos da empresa de tecnologia Ericsson, Cintia Ozzetti, faz parte de uma tendência do mercado brasileiro: é uma profissional de grande corporação que trabalha ao menos parte do tempo em casa. Mãe de trigêmeas de oito anos, todas as terças-feiras ela almoça com a família, leva as crianças para a escola e faz pequenas tarefas domésticas. Com as ferramentas de "home office" - laptop e celular oferecidos pela empresa -, resolve questões corporativas da sala de sua casa, enquanto as filhas fazem a lição de casa.

Para especialistas em recursos humanos, o "home office" ganha espaço à medida que as empresas adotam a gestão por metas - que prioriza o resultado final da companhia, e não o processo para obtê-lo. Grandes companhias hoje já se sentem confortáveis para flexibilizar o horário de trabalho e permitir que ao menos parte das tarefas possa ser feita remotamente. Ao adotar um ambiente de trabalho que foge do velho padrão "das 8h às 18h", as companhias conseguem manter funcionários valiosos e também descobrem vantagens econômicas.

Tome-se o exemplo da Ticket, empresa do setor de benefícios empresariais, que terceirizou 100% da força de vendas, com economia direta de R$ 3,5 milhões. Hoje, os 110 vendedores da empresa trabalham de casa, com autonomia total: agendam visitas, marcam apresentações e definem o próprio fluxo de trabalho, avisando a companhia por telefone ou e-mail.

Economia. O superintendente de vendas da Ticket, Eduardo Távora, diz que a iniciativa permitiu que a empresa fechasse 17 filiais no País, economizando com aluguel, luz e outras taxas. Além da redução de despesas, explica Távora, a operação também ganhou em agilidade: sem a necessidade de ir à empresa todos os dias, os vendedores economizam tempo - e podem se dedicar mais ao cliente. "A aprovação do novo modelo é de mais de 90%. São poucos os funcionários que sentem falta do clima do escritório", afirma o executivo.

Gerente de negócios na Ticket, Michele Moreira trabalha em sistema de home office há três anos, e desenvolveu um modelo próprio de trabalho. Um dia por semana, fica em casa para fazer as "tarefas operacionais" e organizar a agenda: procura marcar compromissos fora do "pico" de trânsito em São Paulo e divide as visitas aos clientes por região, evitando deslocamentos desnecessários. "O resultado comercial é mais eficiente, a gente está na rua o tempo todo."

Atração de talentos. Oferecer a possibilidade de o trabalhador ficar um dia por semana em casa pode ser uma forma barata e eficiente de atrair bons profissionais, segundo Tatiana Balau, consultora do grupo de carreiras DMRH. Ela diz que já é comum o trabalho remoto entrar na negociação de contratos de trabalho: "É um aspecto que atrai profissionais de perfil sênior, os mais disputados no mercado. São pessoas preocupadas em ter tempo para a família."

Para os funcionários antigos, a consultora diz que é fundamental que as empresas comuniquem de forma clara a mudança no sistema de trabalho, mesmo que a adesão ao home office seja opcional. "É preciso que a organização do trabalho seja baseada em metas claras, com projetos baseados na entrega do resultado final, para que as pessoas se sintam confortáveis a trabalhar com mais autonomia."

A gerente de recursos humanos da Ericsson diz que 20% dos funcionários da empresa trabalham em casa pelo menos uma vez na semana: além do RH, as áreas de compras, finanças e de comunicação aderiram parcialmente ao home office. Após uma resistência inicial, em que algumas pessoas interpretaram que o trabalho em casa poderia significar um afastamento progressivo, Cintia Ozzetti diz que a comunicação clara sobre os ganhos de qualidade de vida da iniciativa quebrou a barreira de desconfiança. "Todos os meses, a procura aumenta um pouco."

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