Flavia Davies/Estadão
Mateus Leão, de Alto Paraíso de Goiás, diz que está tudo lotado Flavia Davies/Estadão

Home office muda alta temporada nas praias

Hospedagens e comércio veem movimento incomum para esta época do ano e ampliam oferta com produtos mais sofisticados

Lílian Cunha, especial para o Estadão, Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2021 | 05h00

A movimentação que os novos turistas digitais trouxeram tem feito o comércio de muitas cidades crescer. “Maio, abril e junho sempre foram os piores meses por aqui, independentemente da pandemia”, conta Edson Campos Carvalho Júnior, dono da rede de supermercados Preço Bom, de Trancoso.

“Agora, é só uísque, champanhe, azeite caro e muçarela de búfala. Tivemos até de aumentar o mix de produtos para atender esse novo consumidor, que é mais exigente. E as vendas estão semelhantes às de um período pré-verão”, diz ele, que tem três lojas e abriu uma quarta em Caraíva, na mesma região. “E o movimento nessa nova loja está surpreendendo positivamente.” 

Lugares mais no coração do Brasil também estão mudando de cara com os “migrantes digitais”. Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, por exemplo, era para estar bem pacata e vazia nesta época do ano.

Desde o início da pandemia, porém, o município ganhou um ritmo diferente, com pessoas novas, conforme observa o brasiliense Mateus Leão, de 29 anos, dono da pousada Capim Canoa. “Nessa época do ano, a cidade estava bem mais vazia. Agora está tudo lotado.” Sua pousada tem quatro “flats” e duas casas de aluguel. Todas ocupadas no momento.

Para atrair mais executivos e família em home office, ele decidiu investir na infraestrutura dos alojamentos. Além de aumetnar a capacidade da internet, melhorou a iluminação e equipou os imóveis com mesas e cadeiras de escritório. “Assim, conseguimos aliar uma boa estrutura para trabalho num ambiente que permite o contato com a natureza”, diz ele.

Nos restaurantes, que em outras cidades estão tendo muita dificuldade, o cenário é bem mais animador. “Hoje tem até fila de espera”, diz a geógrafa Mariana Pavezzi, moradora de Alto Paraíso de Goiás desde dezembro de 2018. Ela abriu seu restaurante de comida afetiva, o Benzim, no ano passado, após a quarentena. Não esperava que a receptividade fosse tão boa num período difícil como esse de coronavírus. Mas se surpreendeu.

“Recebemos novos moradores e o turismo está muito forte, o que tem impulsionado novos estabelecimentos no local, como lojas de artesanato e de equipamentos para caminhada”, conta ela, que dava aulas em Brasília e Goiânia. Ela deixou tudo para trás para vender bolo e doces na feira na pequena cidade de 6 mil habitantes. No ano passado, depois do lockdow do primeiro semestre, ela viu a oportunidade que tanto esperava. Com o fechamento de vários estabelecimentos comerciais, conseguiu um imóvel na avenida principal da cidade para montar seu restaurante de comida afetiva.

Escritório na praia

Outro lugar que está movimentado é Trancoso. O movimento de jatinhos no aeroporto local não para. Executivos e empresários transformaram o balneário em uma espécie de “cidade-escritório”.

“Outro dia tinha um professor da Fundação Getúlio Vargas dando entrevista online ao vivo para uma rede de TV nacional, aqui do meu bar, com o mar de cenário”, conta Júnior Fernandes, proprietário do Flyclub Trancoso, uma das barracas de praia mais famosas do destino turístico.

Em anos normais, segundo ele, a barraca estaria fechada nos meses de maio e junho, fase de baixa temporada. “Agora, não tem mais isso. Fico aberto direto. É movimento de fim de semana e de segunda à sexta”, relata o comerciante. 

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Destinos turísticos se reinventam como ‘cidades-escritório’

Prefeituras, empresas de telefonia e até aplicativos de delivery estão investindo para atrair e manter um novo tipo de turista: o dos profissionais digitais, que buscam ao mesmo tempo um lugar para trabalhar e para apreciar a natureza

Lílian Cunha, especial para o Estadão, Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2021 | 05h00

Cidades de praia sempre foram precárias. Ruas de terra, internet fraca. Mas a pandemia tem provocado uma transformação: com o trabalho a distância, muita gente, principalmente os mais ricos, tem passado temporadas no litoral ou em municípios do interior em busca de um lugar para trabalhar e, ao mesmo tempo, apreciar a natureza. Isso tem aquecido a economia dessas cidades. Prefeituras, empresas de telefonia e até aplicativos de delivery estão investindo para atrair um novo tipo de turista: o dos profissionais digitais.

A paulistana Carla Skaf Abbud, por exemplo, foi para a praia de Guarajuba (em Camaçari, na Bahia) e viu avanços na região. “Aqui não tinha nada. Agora, todo fim de semana tem feirinha ecológica, com vários restaurantes, comida portuguesa, pizza”, conta ela, que fechou o apartamento em São Paulo, onde morava. Hoje, ela e o marido – donos de uma rede de restaurantes – só vão para a capital paulista quando têm algum negócio inadiável. “Mesmo assim, vamos no primeiro voo e voltamos à noite.”

Carla é exemplo de um tipo de turista que começou a chegar no meio do ano passado e foi ficando. E isso fez os olhos das prefeituras locais brilharem. Foi assim em Ilhabela (SP), Campos do Jordão (SP), Porto Seguro (BA), Camaçari (BA), Alto Paraíso de Goiás – municípios com alto potencial turístico e, ao mesmo tempo, próximos a grandes centros.

“A gente só tem o turismo para manter a economia girando. Quando vimos que havia esse potencial, resolvemos investir”, diz Toninho Colucci (PL), prefeito de Ilhabela. Ele procurou várias empresas de telefonia para melhorar o acesso à internet. A Vivo se interessou e investiu R$ 2 milhões para esticar um cabo submarino do continente até a cidade, que antes era servida só com ondas de rádio.

A obra deve ser concluída em junho, mas a prefeitura já decidiu propagandear o feito: aplicou R$ 1 milhão numa campanha, na qual chama as pessoas para irem “trabalhar no paraíso” – com garantia de internet que não cai.

“Quando vimos que o fluxo de dados aumentou muito em lugares como Ilhabela e em outras cidades do Litoral Norte e do interior, resolvemos antecipar o investimento e atender esse novo movimento”, conta Dante Compagno Neto, diretor de marketing da Vivo. Só no primeiro trimestre, a empresa investiu R$ 1,9 bilhão em expansão de rede, 18% a mais que nos primeiros três meses de 2020 – principalmente para atender aos profissionais digitais.

A Oi também tem percebido o aumento na demanda por banda larga de alta velocidade em cidades de veraneio. Em Armação dos Búzios (RJ), por exemplo, a base da empresa cresceu 50% em 12 meses até março. “Em 2020, a demanda foi acima do esperado. Muita gente querendo mais velocidade e qualidade de internet nessas áreas”, diz o diretor de marketing da empresa, Roberto Guenzburger.

No interior, pequenos provedores também passaram a faturar mais com esse movimento migratório, com foco em condomínios de luxo. “Tenho instalado links empresariais, antes restritos a empresas, em residências de condomínios como o Quinta da Baroneza, em Bragança Paulista”, diz Eduardo Garcia, diretor comercial da provedora Net Turbo, presente em 74 cidades paulistas.

“Garantir o acesso a uma internet boa e estável foi o primeiro passo para atrair esse público (que trabalha em home office)”, diz a subsecretária de Turismo de Camaçari, Lúcia Bichara. Para oferecer serviços adicionais, diz ela, foi necessário ir um pouco além. “Criamos um programa para ajudar restaurantes locais a trabalhar com delivery e para explicar para nossos comerciantes como funciona vender pela internet.”

Um reflexo desse movimento também foi o aumento da demanda verificada pelo iFood – aplicativo de delivery. Segundo a empresa, os municípios que mais cresceram no ano foram Pelotas (RS), Petrópolis (RJ), Cabo Frio (RJ), Marília (SP) e São José (SC).

Dono de uma pousada e de uma escola de vela em Ilha Bela, Pedro Rodrigues sempre tocou os negócios de sua casa na capital paulista. Mas o movimento de turistas que antes da pandemia acontecia de sexta a domingo passou a exigir sua presença durante a semana. “Essa mudança, boa para os negócios, exigiu uma mudança da cultura local e os funcionários tiveram de se adequar a isso.”

Com essa nova demanda, Ilhabela conseguiu “segurar” empregos. A cidade terminou o ano com um saldo positivo de 62 vagas com carteira, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) referentes a Ilhabela, de 35 mil habitantes. No primeiro trimestre de 2021, o saldo também foi positivo em 120 vagas.

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Alojamento vai de pousadas a mansões

Como resultado da maior procura, cidades têm registrado alta de preços de imóveis desde início da pandemia

Lílian Cunha, especial para o Estadão, Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2021 | 05h00

Muitos dos profissionais digitais que não têm casa na praia ou no campo, geralmente se programam para ficar em pousadas e casas de aluguel. Alguns gostam tanto que resolvem ficar de vez, segundo Celso Pinto, dono da AirConcierge, uma empresa que administra o aluguel de temporada pelo Airbnb de 200 propriedades de alto padrão no interior de São Paulo e litoral. São mansões de luxo, com diárias de mais de R$ 7 mil.

“Antes da pandemia, eu alugava para feriados e finais de semana, para grupos de várias famílias, que dividiam os custos. Agora, são executivos fugindo de grande cidades que ficam vários meses. E o interessante é que tem gente que faz tipo um ‘test drive’: alugam, gostam tanto que depois fazem uma oferta de compra”, afirma ele, que já vendeu pelo menos cinco casas.

Em Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, a busca por imóveis vive um boom. O corretor Ederson Carlos Muniz, que atua há mais de 16 anos no mercado, diz que nunca viu movimento tão forte. Inicialmente, a procura foi mais intensa por imóveis rurais. Depois vieram as chácaras e as casas em condomínios. E, agora, estão buscando apartamentos. O efeito colateral foi que o preço do metro quadrado subiu cerca de 40% na cidade – de R$ 3,5 mil para R$ 5 mil.

Quem ainda não decidiu ficar de vez, recorre à hospedagem. A dona da pousada A Capela, em Arembepe, na Costa de Camaçari (BA), Claudia Giudice, passou quatro meses de 2020 com o estabelecimento fechado. Foi aí, então, que começou a receber ligações de gente interessada em se hospedar “desde que a internet aguentasse o tranco”. “Corri para aumentar meu pacote, investi em mais roteadores para estender o sinal onde ele falhava e deu certo.” Dos 14 apartamentos que ela pode alugar – pelas restrições da pandemia –, todos estão ocupados.

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Dúvida de cidades é se ‘bonança’ do home office continuará após a pandemia

Especialista acredita que movimento vai depender do comportamento das empresas e também da volta às aulas presenciais

Lílian Cunha, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2021 | 05h00

O vice-prefeito de Porto Seguro, Paulo Onishi (PL), diz que a prefeitura tem um plano para fazer do município uma “cidade inteligente”, com internet forte, conexão gratuita, semáforos integrados e câmeras de segurança – assim, espera perpetuar esse movimento de turistas digitais. “Acreditamos que essa mudança que vem com o novo tipo de profissional digital está aí para ficar. Não é só uma moda. Muita gente vai querer vir para cá para trabalhar, mesmo depois da pandemia.”

Entretanto, é difícil prever se esse movimento populacional irá se manter, segundo o demógrafo José Marcos Pinto da Cunha, professor do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Vai depender do comportamento das empresas num pós-pandemia. Muitas sequer adotaram o ‘home office’. Outras caíram de cabeça. E tem ainda as que ficarão num modelo híbrido. Mas a volta às aulas presenciais também conta muito nesse cenário”, afirma.

Para Cunha, esse movimento é uma nova configuração do que foi chamado, nas décadas de 50 e 60, de “metropolitan turn around” (volta metropolitana), nos Estados Unidos. Foi nessa época em que as famílias começaram a se mudar das regiões centrais de grandes cidades para formar os subúrbios, mais afastados. E elas dependiam das “highways”, das estradas, para ir ao trabalho.

“Hoje a ‘highway’, nesse contexto, é a internet. Mas a fuga para um lugar melhor para morar é a mesma”, afirma Cunha. Mesmo que essa migração seja pontual – ou que se perpetue – o fenômeno é capaz de trazer benefícios perenes para as cidades destino desses profissionais.

Como o migrante, desta vez, é um profissional de maior poder aquisitivo, ele tende a demandar novas necessidades para o lugar que escolhe para ficar. “É um fenômeno que se chama ‘ampliação da metropolização’: a pequena cidade de veraneio tende a ganhar mais estrutura para atender esse novo público.”

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