Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Home office muda economia dos EUA

Trabalho remoto deve continuar em alta mesmo com o fim da pandemia, o que deve impactar negativamente o setor de serviços do país

Eduardo Porter , The New York Times

08 de setembro de 2021 | 05h00

A Restaurant Associates não é mais a empresa que costumava ser. Há um bom tempo ela administra restaurantes, serve refeições em eventos e jantares corporativos para clientes como Google e o Smithsonian Institution. Mas, atualmente, emprega cerca de metade das 10 mil pessoas que tinha como funcionários antes da pandemia.

À medida que suas áreas de negócios se tornaram escassas, a empresa criou novas. Preparou sopas e acompanhamentos para o serviço de entrega de alimentos FreshDirect. Fez entregas de refeições para traders fora de Wall Street que estavam trabalhando em Connecticut e para convidados que compareceram a “galas virtuais” de casa.

Porém, a Restaurant Associates provavelmente terá que continuar improvisando. Assim que as coisas começaram a melhorar no verão do hemisfério norte - com alguns museus reabrindo, empresas agendando um retorno aos escritórios e o serviço para festas de gala voltando com força total -, a variante Delta do novo coronavírus fez tudo, novamente, parar.

“Estávamos muito esperançosos de que em setembro começaríamos a voltar com força”, disse Dick Cattani, o CEO da empresa. Agora, ele disse, “não sabemos o que está acontecendo ou o que vem depois”.

Essa ansiedade está por todos os lados na economia americana. Como Kevin Thorpe, economista-chefe da empresa de serviços imobiliários comerciais Cushman & Wakefield, observou, “quanto mais o vírus demorar, mais transformador ele será”.

Uma questão crucial é se a economia de serviços urbanos - restaurantes, hotéis, serviços de táxi e locais de entretenimento que empregam milhões de trabalhadores - pode se recuperar das múltiplas ondas de contágio de covid-19 que têm mantido seus clientes afastados.

Depois de meses de distanciamento social e trabalho remoto, isso dependerá de como os empregadores e funcionários vão reajustar sua postura em relação à proximidade e densidade - em relação ao espaço.

Três pesquisadores - José María Barrero, do Instituto Tecnológico Autônomo do México, Nicholas Bloom, da Universidade Stanford, e Steven J. Davis, da Universidade de Chicago - calculam que, de abril a dezembro de 2020, metade das horas de trabalho nos EUA foi realizada de casa.

Depois que a pandemia acabar, segundo eles, a proporção cairá para cerca de 20%. Isso ainda é quatro vezes a quantidade de trabalho realizado de forma remota em 2017 e 2018.

E o trabalho remoto se concentrará entre os trabalhadores mais bem pagos nos locais mais densamente povoados. Por exemplo, mais da metade dos trabalhadores em serviços de alta qualificação e com grande acúmulo de conhecimentos - em finanças e seguros, informação, serviços profissionais e gestão - ainda estava trabalhando de casa em janeiro, de acordo com pesquisadores de Princeton, Georgetown, Columbia e da Universidade da Califórnia, San Diego.

As grandes cidades enfrentam a dupla ameaça de perderem seus trabalhadores mais qualificados e as economias de serviço ao consumidor que eles sustentam, escreveram os pesquisadores. “Como resultado”, acrescentaram os autores, “elas podem encolher de tamanho, a menos que consigam oferecer vantagens que justifiquem os custos da densidade urbana quando as opções de local para viver são liberadas de critérios como a proximidade ao local de trabalho”.

Davis, da Universidade de Chicago, e seus coautores calculam que o crescimento do trabalho remoto reduzirá os gastos nos centros das cidades de 5% a 10%, prejudicando os negócios em restaurantes, bares e outros locais que dependem dos gastos de funcionários de escritório.

A geografia econômica dos EUA parece diferente de como era há dois anos. A participação da cidade de Nova York na taxa de empregos do país caiu de 3,1%, em julho de 2019, para 2,8%, em julho de 2021. Isso significa cerca de 375 mil empregos a menos do que se a cidade pelo menos tivesse acompanhado o ritmo do país como um todo.

Alterações já feitas

A reconfiguração do trabalho já está mudando diversas empresas. A REI, de varejo de equipamentos esportivos, vendeu sua sede em Seattle, destinada a abrigar cerca de 1.800 funcionários, e está montando três escritórios satélites na região, para os trabalhadores frequentarem, se desejarem. 

“Sentimos que há momentos em que estar fisicamente juntos faz a diferença, mas isso não precisa acontecer o tempo todo”, disse Christine Putur, vice-presidente executiva da REI.

O Google, por exemplo, está permitindo que os funcionários trabalhem remotamente. Mas vai ajustar a remuneração dependendo do custo de vida local. Em um blog, o CEO do Google, Sundar Pichai, estimou que cerca de 20% dos trabalhadores escolheriam trabalhar de casa. 

Será que, em algum momento, isso tudo poderia voltar ao modo como as coisas eram antes da pandemia? Enrico Moretti, economista da Universidade da Califórnia, Berkeley, sugere que o trabalho remoto será controlado por empregadores que temem que a produtividade dos trabalhadores seja afetada.

As ofertas de emprego que permitem o trabalho totalmente remoto saltaram de cerca de 2% das vagas para 6% a 7% depois da chegada da pandemia, observou. Mas esse número foi mantido desde então. “Continua sendo um fenômeno de nicho”, diz Moretti. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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