Alan Santos/PR - 30/10/2021
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Laura Karpuska
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Homem sem qualidades

O presidente Jair Bolsonaro é incompetente para ocupar a cadeira que ocupa. E o Brasil paga caro por isso

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2021 | 08h31

Acompanhei a repercussão da participação de Jair Bolsonaro na reunião do G-20 nos últimos dias. O adjetivo mais usado para qualificar o episódio foi isolado. Jair e o Brasil, isolados. 

O presidente não teve conversas significativas com quase nenhum líder. Alberto Fernandez, presidente da Argentina, e Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, foram dois dos poucos que deram alguma atenção a Bolsonaro. Ele também não tirou a foto que marca o encontro dos chefes de Estado. Este ano, o registro foi feito na Fontana di Trevi. Bolsonaro fechou a agenda mais cedo. Foi visitar parentes em Pádua.  

Quando vi as imagens, não vi isolamento. Vi mediocridade. Vi ali um homem que ocupa uma cadeira que está muito acima de suas capacidades. Ele parece não perceber isso, sempre abusando da informalidade mesmo nos rígidos e tradicionais ambientes da diplomacia mundial. Foram piadas constrangedoras sobre ser acusado de genocídio e de fazer turismo em Haia, bate-papos descontraídos em momentos que exigem seriedade e uma imensa falta de decoro. A visita a parentes em meio a uma viagem oficial fica apenas como detalhe. Mas reforça a infantilidade do presidente, que só se sente à vontade em situações privadas e informais.

Ulrich, protagonista do romance de Robert Musil que dá título a esta coluna, buscando entender a vida, percebe que possui valores superficiais, mas se vê metido em grandes planos da sua pátria. Nosso Ulrich, bem diferentemente, parece não perceber suas limitações. Sua trajetória o faz não reconhecer as próprias incapacidades e, paradoxalmente, tenta transformá-las em virtudes. Esta inversão de valores, que transforma o despreparo em método, custa caro ao Brasil.

O isolamento, destaque da repercussão do G-20 na imprensa é, de fato, preocupante. Mesmo, entre líderes globais negacionistas, Jair Bolsonaro é o único que mantém discursos antivacina. Se não fossem décadas de campanhas pró-vacinação, que estrago ainda maior teria feito a ignorância do presidente? Negacionismo é uma forma de isolamento. É o isolar-se da técnica, da ciência e do saber se aconselhar.

Mas o isolamento é também um derivado. O comportamento do presidente causa seu isolamento. Esta mediocridade nos prejudica social, humana e economicamente. A falta de projeto de governo, a dificuldade em gerir a máquina pública, a entrega do Orçamento para que ele seja expropriado por grupos políticos deixarão um país que levará anos para ser reconstruído. 

Jair Bolsonaro é um homem sem qualidades, incompetente para ocupar a cadeira que ocupa. E o Brasil paga caro por isso. 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK 

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