Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Twitter/Reprodução
Twitter/Reprodução

Homenagem ao ‘Riba’

Ribamar Oliveira era um dos grandes do jornalismo econômico, respeitado por todos

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 04h00

Vou pedir licença hoje ao leitor para fazer uma coluna diferente. Eu já tinha enviado meu arquivo com 4 mil caracteres ao jornal, quando recebi a notícia do falecimento - por covid - do “Riba”, o jornalista Ribamar Oliveira. Senti-me compelido, então, a enviar ao jornal um pedido para trocar o texto anterior - a ser adiado para daqui a duas semanas - por este texto em honra a um velho amigo. 

Ribamar, com 67 anos, era um jornalista que se especializou em temas de finanças públicas. Como eu cheguei à mesma especialização vindo da economia, nossos caminhos se cruzaram. A isso se uniu uma razão afetiva, porque a filha dele era afilhada do padrinho do meu filho, o que nos tornava algo assim como contraparentes. Tendo nos cruzado muitas vezes e conversado muito sobre temas fiscais, tinha com ele uma dessas relações descritas por Vinicius de Moraes com estas palavras deliciosas: “Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. A alguns deles eu quase não vejo: me basta saber que existem, embora, como não os veja com frequência, não possa lhes falar o quanto gosto deles”.

Era um jornalista da velha escola, treinado na apuração minuciosa do fato. Capaz de se dedicar a um assunto durante semanas, para levar ao leitor toda a informação necessária a respeito de algo, envolvendo a identificação clara do problema, a natureza dos conflitos envolvidos na questão, os aspectos legais, os prós e contras das alternativas com as quais se defrontava o policy maker e, last but not least, os números precisos para expor a questão em sua dimensão cabal. Se tivesse que encontrar uma palavra para associar a ele, eu não hesitaria: “Seriedade”. Que, não obstante, era compatível, na vida pessoal, com um perfil de gozador. Um sujeito “de bem com a vida”. Lembro um dia, muitos anos atrás, em que liguei para ele para trocar ideias sobre algo e o encontrei mortificado, porque havia um detalhe (já nem lembro qual) de uma informação que tinha saído na coluna dele e que depois tinha reparado que não era correta. Que atire a primeira pedra quem nunca errou alguma coisa ao escrever uma coluna com frequência! Eu argumentei com um “deixa disso, Riba, esquece, ninguém vai perceber” e ele, irritado com ele e comigo, me disse, peremptório: “Fabio, você não está entendendo: eu não podia ter errado isso”. Esse era o Riba: profissional, rigoroso e honesto ao extremo.

Em 2016, ele escreveu a “orelha” de um livro que organizei com meu amigo Mansueto Almeida. Relendo as suas palavras, sob o choque da notícia da sua partida, a atualidade daquelas frases impressiona. Compartilhando mensagens, nas horas seguintes à notícia, com amigos em comum, o sentimento de perda era similar para todos. Era um dos grandes do jornalismo econômico, respeitado por todos. Fará falta ao debate. 

Ele deu azar, claro. Sua morte foi uma infelicidade, que poderia ter acontecido com qualquer um. E todos sabemos que o País está perto de ter meio milhão de mortos por covid e que todas as mortes contam. Porém, quando ela passa tão perto da gente, quando o sentimento de uma tristeza enorme se confunde com uma profunda irritação por esta tragédia incomensurável que se abateu sobre o País, quando há um contraste tão brutal entre o drama do dia a dia e o escárnio com o qual a morte é tratada por aqueles que mais deveriam brigar pela vida, eu, com minhas raízes hispânicas, não pude não lembrar de uma velha canção de Joan Manuel Serrat (Algo personal). É sobre “hombres de paja que usan la colonia y el honor/Para ocultar sus oscuras intenciones/Tienen doble vida, son sicarios del mal/Entre esos tipos y yo, hay algo personal/Rodeados de protocolo, comitiva y seguridad/Viajan de incógnito em autos blindados/A sembrar calumnias, a mentir com naturalidad/A colgar en las escuelas su retrato”. Não há como pactuar com a morte. Essa é minha modesta homenagem ao “Riba” cidadão: convidar o leitor a procurar o vídeo do Serrat no YouTube

*ECONOMISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.