Hora de cortar juros

Forças deflacionárias formam agora o principal vetor da marcha dos preços

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2016 | 05h00

Está prevista para hoje a divulgação pelo Banco Central do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do terceiro trimestre do ano. Há grande expectativa em relação às suas projeções e conteúdo porque ali estarão contidas as mais atualizadas, transparentes e detalhadas indicações de quando terá início o esperado ciclo de cortes nas taxas básicas de juros e, talvez, da intensidade em que esse processo se daria.

Simulações com base em modelo de previsão similar ao usado pelo BC apontam para comunicação no RTI compatível com o início da redução da Selic em outubro. Um corte de 0,25 ponto porcentual, seguido de outro, de 0,5 ponto, em novembro, traria os juros básicos para 13,5% ao ano, no fim de 2016 – 0,25 ponto abaixo da atual projeção de mercado, conforme o Boletim Focus desta segunda-feira, 26. 

É fácil localizar uma crescente ansiedade quanto a esse movimento de redução dos juros. A bancada do PSDB no Senado, por exemplo, considera que a inflação começou a ceder e que, por isso, continuar a manter inalterada a taxa básica em 14,25% ao ano já não se justifica. Analistas de mercado, defensores da redução imediata da taxa básica, “acusam” o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, de ter adotado agora, na questão dos juros, visão mais rígida do que no tempo em que dirigia o departamento de pesquisas econômicas do Banco Itaú.

As razões dessa ansiedade também não são difíceis de entender. Sem cortes nos juros, o ciclo virtuoso imaginado pela equipe econômica do governo Temer, com a aprovação da proposta de teto para os gastos públicos, mesmo alterada, desde que não em aspectos essenciais, perderia muito da sua esperada – e desejada – eficácia. A ideia de que, com a indicação de que os desequilíbrios da economia serão resolvidos, a confiança assim recuperada se transformaria em investimentos e estes em crescimento econômico, levando ao aumento das receitas públicas, ganharia substancial potência com o recuo dos juros. E alimentaria dúvidas, se isso não ocorresse.

Sem o estímulo de uma baixa dos juros, de fato, esses esperados efeitos positivos podem não acontecer. A confiança no reequilíbrio da economia não resultaria em demanda concreta por ocupação, modernização ou ampliação de capacidade instalada, se o custo do financiamento das inversões continuar, como atualmente, acima da taxa de retorno dos investimentos. Ainda mais quando se sabe das dificuldades adicionais derivadas do grande número de empresas que se encontra às voltas com problemas de endividamento tão acentuados que configuram uma crise aguda de solvência.

Se o crescimento é uma variável crítica na equação de reequilíbrio da economia, concorrendo para elevar as receitas públicas e suavizar as necessidades de cortes nas despesas públicas, forçosa é a conclusão de que a taxa de juros, que caminha para mais de 7% em termos reais, não pode permanecer onde está. Só em circunstâncias muito especiais uma economia que convive com juros nessas alturas consegue crescer e mesmo assim por períodos restritos de tempo. Não é esse nem de longe o caso brasileiro, nos dias de hoje. Muito ao contrário, para a retomada do crescimento, além da correção de desajustes fiscais, é preciso acelerar o processo de desalavancagem da economia, que se dá em ritmo ainda lento, exatamente pelo nível elevado dos juros.

Com a dissipação, mostrada pelo IPCA-15 de setembro, dos últimos choques de oferta de alimentos, abriram-se espaços mais nítidos para o início de um ciclo de corte nos juros básicos. Restam, é verdade, incertezas em relação a tarifas futuras de energia e combustíveis e dos rumos da economia global, incluindo as consequências de um aumento dos juros de referência nos Estados Unidos. Mas forças deflacionárias, representadas pela existência de capacidade ociosa, tendo à frente o desemprego de mão de obra, formam agora o principal vetor da marcha dos preços.

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