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Horizonte móvel

Em dezembro de 2014, BC dizia que a política monetária conduziria inflação para o centro da meta; agora, é no 'horizonte relevante'

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2015 | 21h00

O Banco Central (BC) é como o matuto que pretendia alcançar a linha do horizonte. Quanto mais caminhava em direção a ela, mais o horizonte se afastava.

Vem dizendo, dia após dia, por meio dos seus documentos de comunicação e por meio das entrevistas dos seus dirigentes, que persegue a inflação na meta (4,5% ao ano) "no horizonte relevante".

Em dezembro, o presidente do BC, Alexandre Tombini, garantia que a política monetária (política de juros) conduziria a inflação para o centro da meta ao longo de 2016. Em meados deste ano, corrigiu a data para "fim de 2016". E, nesta quarta-feira, o comunicado divulgado após a reunião do Copom já não se compromete, como antes, a provocar a convergência da inflação até o fim de 2016. Agora avisa que a manutenção por tempo prolongado é necessária para a convergência da inflação para a meta no "horizonte relevante da política monetária".

Portanto, este é um horizonte que se desloca aleatoriamente com o tempo, as andanças e a decisão de não elevar mais os juros. De certo ponto de vista, esse compromisso não diz nada de substancial, porque a qualquer momento as autoridades da área monetária podem deslocar o tal horizonte relevante e/ou o cumprimento da meta para mais adiante ou para quando der.

O que há de novo é o fato de que a política monetária perdeu eficácia. Já não consegue produzir a convergência da inflação para a meta nas condições pretendidas. Não consegue porque a inflação está sendo puxada para cima pela força exercida pelo rombo fiscal, que produziu renda, demanda e desvalorização cambial que, por sua vez, produziram a alta dos preços e o que a ela se segue.

Alguns economistas vêm advertindo que a perda de eficácia da política monetária nada mais é do que o estado de dominância fiscal, que o BC, de um lado, prefere negar, mas, de outro, parece convalidar, na medida em que mantém os juros no mesmo lugar (14,25% ao ano), porque não obteria melhor resultado se os elevasse.

Outro jeito de avaliar a nova postura do BC, que estica o horizonte da convergência sempre para mais à frente, é a expectativa de que a recessão faça a maior parte do serviço, uma vez que contém a demanda e o emprego. Daí a necessidade de comprar mais tempo para que o serviço seja concluído. O problema nessa estratégia é o alto risco de nova deterioração das contas públicas e da dívida que derrube ainda mais a confiança, empurre o dólar ainda mais para cima e crie ainda mais inflação.

Enfim, o risco é de que o sistema pretendido de ancoragem dos preços seja insuficiente para enfrentar estes tempos malucos. O que se espera agora é que o BC explique o que pretende e com que recursos, na próxima Ata do Copom a ser divulgada dia 29.

Talvez seja demais esperar que tenha melhores informações e maiores certezas do que tanta gente boa que também continua perdida por aí. Quando afirma que “continua vigilante”, o BC pode estar dizendo isso mesmo: que continua na busca de um jeito de lidar com a crise (econômica e política) e com as turbulências que vêm junto com ela.

Estabilidade aparente

Os números de setembro indicam um nível de desemprego estável em relação ao mês anterior e não mais alto, como se esperava. Isso não pode ser tomado como indicação de que o setor produtivo parou de desempregar, porque as condições da economia continuam em deterioração. Uma ideia melhor da situação do mercado de trabalho poderá ser obtida ainda hoje quando o Ministério do Trabalho divulgar seus dados a respeito do emprego formal (Caged).

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