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Hospitais cancelam cirurgias eletivas e entidades entram na Justiça para garantir medicamentos

Instituições que representam estabelecimentos de saúde apelam para que veículos com cargas médicas sejam liberados dos bloqueios

Ana Paula Niederauer e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 15h25
Atualizado 25 Maio 2018 | 20h26

SÃO PAULO -  Duas entidades que representam hospitais, clínicas e laboratórios do Estado de São Paulo entraram com ação nesta sexta-feira, 25, na Justiça Federal para garantir o abastecimento dos hospitais e serviços de saúde. A ação em nome da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp)e do  Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Sindhosp) pede que o movimento grevista libere a circulação de caminhões, que transportem produtos para estabelecimentos de saúde, em todo território nacional.

Segundo o médico Yussif Ali Mere Jr, presidente da Fehoesp, a situação dos hospitais está no limite. "Caso a greve persista no fim de semana, será o caos. A maioria dos hospitais precisa repor oxigênio entre segunda-feira e terça-feira, pois as reposições ocorrem semanalmente, salvo exceções", alertou o presidente, em nota.

Mere Jr., que também é presidente da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), alertou sobre o risco que pacientes que dependem de hemodiálise estão correndo com o desabastecimento de materiais necessários para o procedimento.

De acordo com o especialista, os doentes que fazem esse tipo de terapia precisam realizá-la três vezes por semana, quatro horas por dia. Mas algumas clínicas já estão reduzindo o procedimento para três horas preocupados com a iminente falta do insumo. "Se esse material, que é o concentrado de diálise, faltar, não conseguimos fazer o procedimento e o paciente pode ter várias complicações", destaca o médico.

A Santa Casa de São Carlos e o Hospital Samaritano de Sorocaba cancelaram as cirurgias que estavam marcadas a partir desta sexta por causa do desabastecimento de insumos hospitalares gerados pela greve de caminhoneiros no País.

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Em média, são realizadas diariamente 30 cirurgias eletivas, que estavam agendadas, mas que não são consideradas de urgência, na Santa Casa. Segundo a instituição, os estoques de insumos hospitalares serão priorizados para os casos de Urgência e Emergência.

Já a Santa Casa de São Paulo informou que cirurgias eletivas marcadas para a próxima segunda-feira foram adiadas por precaução. "Estamos sendo cautelosos porque a situação ainda é imprevisível", disse o superintendente da instituição, Carlos Augusto Meinberg.

No Grupo Policlin, em São José dos Campos, houve o cancelamento de três cirurgias esta semana por causa do atraso de material hospitalar. Em São Paulo, o Hospital Premier, de cuidados paliativos, só tem oxigênio somente até terça-feira.

Nessa quinta-feira, 24, algumas entidades que representam estabelecimentos de saúde emitiram comunicados alertando para o risco da situação e pedindo aos grevistas que liberem da paralisação caminhões que transportam medicamentos e oxigênio.

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 A Confederação Nacional de Saúde (CNS) informou, em nota, que estabelecimentos de saúde já sofrem "falta de gás medicinal, material anestésico, medicamentos, insumos para tratamento de água, entre outros produtos vitais para a manutenção dos serviços, bem como para a segurança dos pacientes". A entidade diz que "não se opõe a nenhuma manifestação", mas apelou aos manifestantes que liberem os veículos que transportam materiais médicos para que a reivindicação da categoria "não coloque em risco a saúde do cidadão".

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 A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), que representa 24 centros de saúde de referência no País, como os hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, solicitou às lideranças do movimento grevista que cargas de gases medicinais, como oxigênio, medicamentos e outros insumos "sejam liberados do embargo estabelecido", uma vez que alguns dos hospitais associados já detectam "queda substancial dos estoques e iminente falta de insumos nas instituições de saúde", situação que pode ameaçar o bem-estar e a vida dos pacientes atendidos.

Hospitais contatados pelo Estado manifestaram preocupação com a possível continuidade da greve nos próximos dias. O Einstein afirmou que o movimento já impede o abastecimento de alimentos, medicamentos materiais e gases medicinais em suas unidades e que o atendimento aos pacientes "poderá ser severamente impactado nos próximos dias" se a situação persistir. Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz e Hospital das Clínicas afirmam que o atendimento ainda não foi impactado. O Grupo Leforte traçou plano de contingência caso a paralisação se estenda.

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) informou que, desde o início da greve, recomendou aos grevistas que permitam a passagem de cargas consideradas essenciais, como remédios, alimentos perecíveis e carga viva. A entidade ressalta, porém, que não é possível controlar todos os pontos de bloqueio espalhados pelo País. Disse ainda que o tráfego pode ser prejudicado por congestionamentos e filas formadas por veículos que aderiram à manifestação.

Outros Estados 

Em Governador Valadares (MG), as clínicas de diálise, que fazem o tratamento de terapia renal substitutiva (TRS) já estão em alerta, pois os insumos estão chegando ao fim e um caminhão carregado com capilares está parado em um dos bloqueios.

 Em Nova Friburgo (RJ), as clínicas já foram obrigadas a reduzir de quatro para três o número de horas da sessão de hemodiálise. As secretarias de saúde estadual, municipal e o ministério público já foram notificados.

A Associação Brasileira dos Centros de diálise e Transplante (ABCDT) faz um apelo à organizadora da paralisação, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCAM), que considerem a fragilidade desse setor e o tratem de maneira especial, permitindo que os caminhões que transportam cargas com insumos e medicamentos passem pelas barreiras e cheguem até as clínicas.  O setor está em alerta máximo, devido a peculiaridade do serviço de diálise, sua continuidade e fragilidade do paciente. 

As cirurgias agendadas, atendimentos ambulatoriais e nas Unidades Básicas de Saúde serão suspensos no Distrito Federal entre sábado e segunda. A decisão foi tomada há pouco pela Secretaria de Saúde do GDF como mais um reflexo da greve de caminhoneiros do País, que hoje completa cinco dias. "Por enquanto não enfrentamos problemas no abastecimento de remédios ou materiais usados em procedimentos médicos. O problema maior é a dificuldade de profissionais de saúde chegarem aos postos de trabalho", afirmou o secretário de Saúde do GDF, Humberto Lucena.

Na segunda, uma nova reunião deverá ser realizada para estudar novas medidas a serem adotadas. Funcionam no GDF 16 hospitais, 6 Unidades de Pronto Atendimento e 166 Unidades Básicas de Saúde. Atualmente, 32 mil pessoas trabalham no sistema público de saúde do GDF.

Na manhã desta sexta, o governo conseguiu liberar um caminhão carregando equipamentos usados em hemodiálise. O veículo não conseguia chegar à Brasília em virtude de bloqueio nas estradas, na região próxima da cidade goiana de Alexânia. Também graças à negociação, um caminhão com oxigênio conseguiu ser liberado em Aguas Lindas de Goiás

Lucena afirmou que há combustível suficiente para atender ambulâncias até noite de sábado. "Um acordo foi realizado para que consigamos trazer mais combustível."

Já no do Sul de Minas Gerais, mais de 150 municípios podem ficar sem o serviço de ambulâncias. O consórcio Cissul/Samu informou nesta sexta-feira que o combustível para os veículos está perto do fim em virtude da paralisação dos caminhoneiros.

Em comunicado assinado pelo presidente do Conselho Diretor, Rodrigo Aparecido Lopes, o Cissul informa que "o combustível das ambulâncias está se esgotando, não havendo como realizar o abastecimento caso essa situação não se normalizar". Nesse caso, o serviço de atendimento de urgência e emergência ficará comprometido.

Desabastecimento

Hormônios como insulina  e remédios que não tenham genéricos no mercado são os mais suscetíveis a faltarem nas farmácias, afirma o presidente executivo da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias, Sérgio Mena Barreto em virtude da greve dos caminhoneiros, que nesta sexta completa cinco dias.

Barreto afirmou ao Estado que a maior preocupação do setor é a dificuldade do abastecimento das centrais de distribuição. “Caminhões conseguiram sair dos armazéns, abastecer os postos de venda, sobretudo quando se fala que a carga é medicamento. O problema, no entanto, é o retorno. Esses veículos não conseguem voltar às centrais”, observa. Quando não há carga, os caminhões ficam retidos nos bloqueios e não conseguem novamente ser abastecidos.

Em São Paulo e Rio, parte do abastecimento está sendo realizada por vans. “Nas duas capitais, a falta de medicamento pode demorar um pouco mais a ser sentida, pois cerca de 60% da produção está concentrada ali.” A maior dificuldade são farmácias localizadas em outras regiões. Menna Barreto está preocupado sobretudo com o efeito rebote. “Mesmo que a paralisação termine agora, seria necessário quase cinco dias úteis para a situação ser normalizada.”

Outra preocupação são os medicamentos que necessitam de refrigeração. “Caminhões que transportam esse material têm apenas uma parte refrigerada. Quando o veículo fica muito tempo parado, há risco maior de o produto se deteriorar.”/ Colaboraram Lígia Formenti e Rene Moreira

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