Prefeitura de Campos de Jordão
Com regras de flexibilização mais rígidas em Campos do Jordão, demanda nos hotéis da cidade está 70% menor que em julho passado. Prefeitura de Campos de Jordão

Hotéis retomam atividades, mas ocupação ainda está distante do pré-pandemia

Associação da indústria hoteleira diz que há 'demanda reprimida' e que a situação hoje está 'ótima dentro do possível'; desde o início da pandemia, turismo já perdeu R$ 122 bilhões de faturamento

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 15h00

Depois do baque dos primeiros meses de quarentena, quando a maioria dos hotéis do País foi fechada, o setor de hotelaria começa a ver uma tímida reação com a retomada das atividades. Mas o desempenho ainda está muito distante do período pré-pandemia e do potencial do setor, o mais afetado pela covid-19 entre os demais segmentos da economia.

De março a junho, o turismo como um todo, incluindo hospedagem, fluxos de passageiros nos aeroportos, já perdeu quase R$ 122 bilhões de faturamento, nos cálculos do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes.

Abril foi o fundo poço para a atividade, que voltou a crescer 6,6% em maio na comparação com o mês anterior, segundo Pesquisa Mensal de Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da pequena reação, atividade turística está 66% abaixo do nível registrado em fevereiro deste ano.

Jorge Arthur Girelli, administrador dos hotéis Vila Inglesa, em Campos do Jordão (SP), e Fazenda Mazzaropi, em Taubaté (SP), vive duas realidades distintas entre os hotéis do grupo reabertos em junho. Em Campos do Jordão, onde as regras da prefeitura são mais rígidas e não permite o uso de áreas comuns do hotel, a demanda neste mês está 70% abaixo de julho do ano passado. “A prefeitura autorizou 60% da ocupação e hoje estou com 12%”, conta o administrador.

No hotel de Taubaté, onde as regras locais são mais flexíveis por causa da situação sanitária local, Girelli diz que foi surpreendido com a procura. “Reabrimos com 30% de ocupação e temos fila de espera para os finais de semana.”

Otimista, Ricardo Roman Jr., presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira do Estado de São Paulo (ABIH-SP), diz que a situação hoje está “ótima dentro do possível”. Ele admite que a pandemia foi horrível para o setor. “Hoje estamos comemorando alguma coisa perto do que estávamos.”

Com a reabertura, segundo Roman Jr, os hotéis do litoral norte de São Paulo já atingem o limite da ocupação permitida, que é de 50%. Movimento semelhante ocorre no interior do Estado. E os hotéis do Guarujá, no litoral sul de São Paulo, começam a ter uma retomada muito boa, diz. “Há uma demanda reprimida muito grande.”

Segundo o presidente da ABIH-SP, os hotéis investiram em protocolos e, na sua avaliação, hoje é mais seguro se hospedar num hotel do que em uma residência alugada. No entanto, o próprio Airbnb, plataforma online de reserva de hospedagem em moradias, criou, no fim de abril, um protocolo de higienização de residências sob orientação de autoridades médicas dos Estados Unidos, que deve ser seguido pelos donos dos imóveis disponíveis no site.

Resiliência e adaptação

Os primeiros sinais de reação sentidos pelos hotéis em destinos próximos da capital paulista  ainda são uma miragem para o empresário Caio Fonseca, sócio do grupo Juma Hotéis, com um  hotel boutique na cidade de Manaus (AM) e outro na selva amazônica. O hotel de selva está há três meses fechado. O da cidade foi reaberto este mês, mas com 5% da ocupação. “A ocupação está baixíssima e o que tem mantido alguma receita é o restaurante do hotel”, conta Fonseca. Quando começou a pandemia, ele tinha acabado de inaugurar o hotel boutique, onde investiu R$ 25 milhões.

Magda Nassar, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav Nacional), diz que o desejo das pessoas de viajar é muito grande, mas ainda não é possível saber quando a recuperação vai começar acontecer. “No começo da pandemia, tivemos uma queda 95% nas vendas e as estimativas agora apontam para algo entre 80% a 85% abaixo do período pré-quarentena.”

Ela diz que o setor de turismo, que responde por 8% do PIB e por 3 milhões de empregos, precisa de crédito e que o momento é de resiliência e adaptação.

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Na pandemia, hospedagem em casa de campo substitui viagem para a Disney

A plataforma online Airbnb registrou aumento de 150% na procura por acomodação em cidades num raio de até 300 km de grandes centros urbanos; donos de imóveis no interior contam já ter reservas até o Natal, mesmo com diária mais alta

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2020 | 15h00

Se tudo estivesse normal, Camila Amaral, o marido e os três filhos estariam agora de férias em Orlando, nos Estados Unidos, numa rotina intensa entre hotel, visita aos parques da Disney, restaurantes, compras e outros programas típicos de turista. Mas a pandemia mudou os planos da família, que optou por alugar um casa confortável num condomínio em Itatiba, a menos de 100 quilômetros da capital paulista, e lá ficar por dez dias descansando e curtindo a natureza. 

“Fazia pelo menos uns cinco anos que não tirava férias para ficar em casa”, diz Camila. Ela teve receio de ir para um hotel porque a avó, que a acompanha na viagem, faz parte do grupo de risco para covid-19.

A escolha de Camila está sendo seguida por milhares de turistas que decidiram nessas férias escolares não ir tão longe nem se hospedar em hotéis. Em maio, a busca por acomodações em cidades brasileiras num raio de até 300 quilômetros de distância de grandes centros urbanos cresceu 150% em relação a igual período do ano passado, segundo a Airbnb, plataforma online de reserva de hospedagem em moradias.

A 97 quilômetros da capital, Sorocaba foi o grande destaque. As buscas por hospedagem no município triplicaram em maio na comparação com mesmo mês de 2019 e a cidade subiu 44 posições no ranking dos destinos mais procurados para hospedagem. 

No mesmo período, a procura de imóveis para locação de temporada em São José dos Campos (SP) dobrou e cresceu 150% em Campinas. O movimento se repete em outros Estados para as cidades de Uberlândia (MG), Imbituba (SC), Criciúma (SC) e Capão da Canoa (RS).

Com afrouxamento da quarentena, a retomada do turismo era esperada que começasse por cidades pequenas, localizadas perto de grandes centros, onde o viajante pode ir com o próprio carro. Esse movimento já vem sendo observado também nos Estados Unidos.

Surpresa

Quem ganhou com a nova tendência foram os proprietários de casas de campo, que se surpreenderam com a forte procura. “Já tenho locação fechada para o Natal”, conta o engenheiro Marcos Marini, dono de uma casa de 400 metros quadrados e sete dormitórios em Campos do Jordão (SP).

Antes da pandemia, ele fechava, em média, uma ou duas locações do imóvel por mês. Neste ano, julho foi lotado, assim como agosto e setembro. A procura se manteve forte, mesmo ele tendo aumentando em cerca de 15% o valor da diária. O engenheiro diz que segue protocolos de higiene contra a covid-19 na limpeza da casa.

“A minha casa de campo virou um business”, comemora Clarice Alvarez Valenti, que mora nos Estados Unidos e é dona de um imóvel de 400 metros quadrados, com quatro suítes, em Itatiba (SP). A procura tem sido tão intensa que ela já fechou contrato para o fim do ano e tem locações acertadas até meados de setembro. Apesar da correria, ela reforça que mantém intervalos entre as locações para fazer a higienização dos ambientes.

Em sete meses deste ano Clarice já faturou com casa o que ganhou o ano passado inteiro. “Não esperava por esse boom na pandemia.” Tanto é que ela estava decidida a colocar o imóvel à venda.

O motivo para a explosão da procura tem sido tema de conversa entre os donos desses imóveis. A voz corrente nas reuniões mensais do grupo Anfitriões da Mantiqueira, que reúne 200 proprietários de imóveis da região destinados a locação para temporada, do qual Marini faz parte, é que turistas estariam com medo de se hospedar em hotéis e pousadas por causa do maior fluxo de pessoas. “Eles querem casas onde se isolam com suas famílias”, diz Marini.  

Todo o grupo da família de Camila Amaral, além do pai, da mãe , avó e o irmão, por exemplo, fez o teste para covid-19 antes de seguir para as férias na casa em Itatiba.

Repeteco

Pela segunda vez desde o início da pandemia, a aposentada Marina Vieira, de 78 anos, que sempre optou por hotéis nas inúmera viagens que fez pelo Brasil e exterior, decidiu alugar uma casa de campo para descansar com os netos. Ela, que faz parte do grupo de risco para covid-19, conta que ficou com receio de ir para hotel, mesmo sabendo do cuidados tomados. “Nem todas as pessoas respeitam as regras: o problema é o outro”, afirma.

Marina acaba de regressar de uma temporada de oito dias em Campos do Jordão (SP), onde esteve acompanhada da filha, genro, neta e quatro cachorros. Desta vez, em razão da forte procura, acabou alugando uma casa para 16 pessoas, muito maior do que precisava porque não encontrou um  imóvel disponível próximo de São Paulo e na data desejada.

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