''Houve, e ainda há, muito exagero com essa crise''

ara economista, PIB do 2.º trimestre mostra que o Brasil já está preparado para começar a reduzir os estímulos à atividade

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Presidente do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper, antigo Ibmec-São Paulo) e ex-diretor do Banco Central (BC), o economista Claudio Haddad avalia que a crise se mostrou menos violenta do que "as pessoas achavam que ia ser". "Sinceramente, acho que houve - e continua a haver - bastante exagero com essa crise", diz.

O crescimento do PIB ficou dentro das suas expectativas?

Ficou. Já havia sinais claros de que o País estava saindo da recessão. Se seria 1,7% ou 1,9%, faz pouca diferença. Os efeitos da crise ficaram para trás.

Por que essa reação rápida, levando em conta a queda de 3,4% no quarto trimestre do ano passado?

Aquela queda foi bastante concentrada em três áreas: exportação, indústria e investimentos. E isso porque a economia vinha crescendo bastante. O resto da economia - consumo das famílias e serviços, principalmente - foi relativamente pouco afetado. Sinceramente, acho que houve - e continua a haver - bastante exagero com essa crise. Não só no Brasil, mas no mundo como um todo, as quedas de PIB previstas para este ano e a recuperação já projetada para o ano que vem, quando olhadas em perspectiva, do ponto de vista da história econômica, não serão nem de longe parecidas com o que as pessoas achavam que ia ser.

A crise foi superestimada?

Não que não tenha sido grave, especialmente na parte financeira. Depois da quebra do Lehman Brothers, de fato, o sistema financeiro mundial passou por momentos bastante difíceis. Mas, com isso controlado, vemos agora ações de bancos subirem, as instituições voltaram a emprestar, empresas estão comprando empresas, os lucros estão indo bem. O desemprego ainda está relativamente alto e obviamente a economia não voltará tão cedo ao ritmo em que estava até a crise começar. Mas, de qualquer maneira, o panorama é bem menos grave do que parecia.

As políticas anticíclicas ajudaram a evitar uma queda maior do PIB?

As medidas ajudaram um pouco, sem dúvida. Mas já é hora de muitas serem revertidas. Em primeiro lugar, porque o déficit público começa a preocupar. Em segundo, porque uma coisa são medidas emergenciais. Outra é mantê-las por períodos longos, pois isso cria distorções na economia.

Qual o risco de tirá-las?

Se tirarem abruptamente tudo, sim, há esse risco. Mas isso não significa que não se deva tirar nada. No caso do Brasil, já está na hora de tirar os incentivos para automóveis e assim por diante. Já estamos voltando ao normal. Pode-se fazer isso de forma escalonada. O que não se deve é, cada vez que vai voltar ao normal, prorrogar. O problema é que sempre há lobbies, que vão buscar as melhores explicações do mundo para justificar a manutenção.

Quando o investimento será retomado no País?

Com o tempo. É preciso desovar ainda a capacidade ociosa existente. Quando chegar perto da capacidade, o investimento volta. Muitas vezes, a pior coisa não é a crise, mas as medidas para combatê-la. O ciclo é normal. Estávamos bem, o investimento estava crescendo muito. Veio a crise e o investimento caiu. Tudo bem. A economia está retomando e o investimento retornará automaticamente.

O que esse PIB significa em termos de perspectiva para os juros?

No ano passado, com o PIB crescendo a mais de 6%, em termos anualizados, precisávamos de uma taxa de juros real (descontada a inflação) de 8% para equilibrar a economia. Não estou dizendo que, com o crescimento anualizado atual, na faixa de 8%, precisaríamos do mesmo juro. Por ora, há capacidade ociosa. Mas, à medida que a capacidade for eliminada, a questão é saber se poderemos manter as taxas reais como estão. Provavelmente não. Provavelmente terão de subir. Talvez não para 8%, mas algo terá de subir.

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