Houve um 'apaguinho', diz governo

Diretor do Operador Nacional do Sistema Elétrico reduz importância da falta de energia ocorrida na noite de quarta-feira em parte do País

FERNANDA NUNES / RIO , ANNE WARTH , EDUARDO RODRIGUES / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2012 | 03h08

A interrupção no abastecimento de energia ocorrida na noite de quarta-feira em parte das Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do País, além dos Estados do Acre e Rondônia, foi um "apaguinho", segundo palavras do diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp.

"Não foi um apagão como o de 2001. O ministro (Edison Lobão, de Minas e Energia) chama de interrupção temporária de energia, porque foi só de meia hora", disse Chipp, em entrevista na sede do ONS, pouco antes de partir para uma reunião de emergência do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE).

Em direção a Brasília, após ser convocado por Lobão, Chipp foi surpreendido por uma cidade quase às escuras. Um incêndio que atingiu a rede de distribuição da concessionária CEB comprometeu o abastecimento de eletricidade na cidade, com exceção do bairro Asa Sul, do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e das cidades-satélites do Gama e de Santa Maria. Além do Plano Piloto, foram prejudicadas as cidades-satélites de Taguatinga e Ceilândia, que concentram a maior parte da população do Distrito Federal.

A posição do ministro Lobão foi de que a sequência de incidentes não passou de mera coincidência. Para Lobão, o fornecimento de eletricidade no País é "firme e forte". Também o ONS minimizou as ocorrências, reiterando, por meio de sua assessoria de comunicação, que a interrupção em Brasília não teve relação com a do dia anterior, o que confirmaria a tese de que não há problemas estruturais no Sistema Interligado Nacional (SIN), de transporte de energia da Região Norte ao Sul do País.

A afirmação é combatida por especialistas do setor, que retomam o episódio ocorrido no dia 22 de setembro em municípios das Regiões Norte e Nordeste para argumentar que o sistema de transmissão está à beira de um colapso.

Proprietária da subestação Foz do Iguaçu, onde um curto-circuito em um equipamento deixou parte do país às escuras na quarta-feira, Furnas garante que o problema não foi provocado por falta de manutenção em sua infraestrutura.

"As causas da ocorrência continuam sendo apuradas, com a análise dos relatórios de proteção e testes nos demais equipamentos. A empresa esclarece ainda que as atividades de manutenção programada estão em dia", informou, em comunicado oficial.

'Tendência é piorar'. Apesar dos argumentos, o diretor da Coordenação dos Programas de Pós-graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), Luiz Pinguelli, reclama da falta de investimento em engenharia nos segmentos de distribuição e transmissão de eletricidade, tanto para a modernização dos procedimentos técnicos quanto para a adoção de tecnologias mais avançadas pelas empresas. E a tendência é piorar, à medida que a geração de caixa das empresas for afetada pelo pacote do governo de redução da tarifa de energia, acredita ele.

"O pacote do governo tem um ótimo objetivo, mas o método utilizado é discutível. No médio prazo, poderá se transformar em uma má notícia, que serão novos apagões", reiterou o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

Pelas suas contas, ocorreram 32 interrupções no sistema elétrico em 2012, considerando cargas superiores a 100 megawatts (MW). Em 2011, foram 61. "Os apagões estão cada vez mais recorrentes", ressalta.

Para o próximo domingo, dia das eleições, o ONS vai reforçar a rede de transporte com a inclusão no sistema de usinas a biomassa, de cerca de 200 MW no total. A oferta de eletricidade já está sendo garantida por meios alternativos, por causa do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas, que estão operando, em média, com 50% da capacidade.

São cerca de 10 mil MW térmicos adicionados ao sistema interligado, a maior parte de usinas da Petrobrás. "Não estamos convivendo com o melhor cenário dos últimos anos, mas também não estamos em um momento crítico", afirmou Chipp, afastando a hipótese de que haja um problema de oferta de energia.

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