'Houve um aprofundamento da desaceleração', diz coordenadora do Boletim Macro Ibre

Na avaliação da economista, governo não tem mais cartas na manga para estimular economia

Entrevista com

Silvia Matos

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2014 | 02h04

A economista Silvia Matos vê um aprofundamento da desaceleração econômica no segundo trimestre, mas acredita que o Produto Interno Bruto (PIB) do período a ser divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) será positivo. "O indicador (IBC-Br) mostra uma desaceleração forte, o PIB também vai desacelerar, mas não na mesma magnitude. Isso não quer dizer que a economia vai bem", disse Silvia, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da Fundação Getúlio Vargas. Para o ano, ela prevê um avanço da economia um pouco acima de 1%. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Qual é o diagnóstico da economia brasileira?

O diagnóstico é de desaceleração econômica. Eu acho que a grande discussão agora é quanto estamos desacelerando e se isso é transitório ou permanente.

Por quê?

No segundo trimestre, houve um aprofundamento maior dessa desaceleração econômica. Uma parte é explicada porque estamos fazendo a comparação com um trimestre do ano passado que foi muito fora do padrão (o crescimento no segundo trimestre de 2013 foi positivo e superou as expectativas). Agora, é o reverso da moeda. Eu diria que existem informações negativas em duas frentes: na indústria de transformação como todo e na construção. No caso da indústria, também existem dois componentes adicionais dessa desaceleração. Primeiro é a questão energética, que prejudicou o custo de energia e a incerteza sobre o setor. Segundo, houve mais dificuldade de exportação de bens manufaturados. E, além disso, tivemos um problema estrutural dos dias parados (por causa da Copa do Mundo), que deverá prejudicar o resultado da indústria em junho.

Qual é a expectativa do PIB para segundo trimestre?

Deve ficar próximo de zero, num valor muito baixo, um crescimento de 0,1%, 0,2%. É importante olhar com cuidado o IBC-Br porque historicamente ele amplifica os movimentos de aceleração e desaceleração. O indicador mostra uma desaceleração forte, o PIB também vai desacelerar, mas não na mesma magnitude. Isso não quer dizer que a economia vai bem. Estamos vivendo mais uma estagnação do que uma recessão.

O que esperar do desempenho econômico até o fim do ano?

Espero alguma melhora dos indicadores no segundo semestre porque a base de comparação com o ano passado não é tão boa. Isso não quer dizer que a economia brasileira esteja bem, porque estamos vendo uma desaceleração no ano como um todo mais rápida do que a que ocorreu em 2013. E agora não tem muito mais como fazer o que foi feito em 2012, quando o PIB cresceu só 1%, e o governou estimulou a economia com políticas setoriais. Não temos muito mais cartas na manga no conjunto de medidas para a indústria. Então, qualquer medida que o governo faça é para tentar amenizar um pouquinho esse número negativo da indústria.

Apesar da desaceleração, a inflação continua elevada?

Essa é grande frustração com a desaceleração da economia. É uma desaceleração econômica sem benefícios, no sentido de controle inflacionário. No fim de 2011 e início de 2012, quando a economia foi desacelerando, a inflação deu uma acomodada. É um certa frustração que estamos vivendo: uma economia muito fraca, com inflação muito forte. É um desequilíbrio grande.

Por que estamos enfrentando esse problema com a inflação?

O nosso diagnóstico é que uma parte importante dessa situação de alta inflação é por causa da política fiscal expansionista nos últimos dois anos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.