Humor negro com o Brasil...

A ameaça da União Europeia, feita esta semana, de adotar medidas contra o que chama de "protecionismo" comercial brasileiro é puro humor negro em clima de desespero. Ela acusa o Brasil de "frear as importações". (!!!) Humor negro do bloco comercial mais fechado do mundo que - atentem para isso - aumentou em mais de 50% suas exportações para o Brasil este ano. Estão vendendo adoidados, ao lado dos Estados Unidos e perdendo apenas para a China. E não foram de matérias-primas que eles não produzem, mas de produtos industriais que competem com êxito no mercado interno! Humor negro porque a União Europeia é o bloco mais protecionista do mundo. Exporta subsídios generosos que tornam seu produtos competitivos no mundo.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2010 | 00h00

Ela sofre porque errou ao enfrentar a crise e continua sofrendo porque insiste em não aplicar uma política fiscal eficiente para aumentar a demanda interna e reduzir o desemprego de 10%. Política fiscal que o Brasil adotou logos aos primeiros sinais da crise para fortalecer o mercado interno. A Europa parou no tempo e continua parada. O Brasil não cresceu porque "exportou" mais para a Europa ou para os Estados Unidos, mas porque aumentou a demanda e o consumo interno. Consumiu mais.

E consumiu mais porque o governo fez o que a UE se recusa a fazer: reduziu impostos (um crime lá!), deu financiamento aos consumidores e aumentou a renda. O desemprego caiu abaixo de 7% e o deles cresceu para 10%. Está convivendo com uma inflação controlada em torno de 5% (pecado mortal!), enquanto a Europa se assusta com o risco de hiperinflação porque os preços aumentaram 1,5%(!) este ano. Só que recuaram 0,3% nos últimos 12 meses... Estão caindo. Sem inflação, sem produção, sem emprego - caminho para a deflação.

Europa furiosa. O comissário europeu de Comércio, Karel de Gucht, estava furioso ao falar com a imprensa, esta semana. Isso, de o Brasil proteger sua indústria, não pode continuar. A UE tem armas políticas poderosas para lutar contra as restrições aos seus produtos. O Brasil, citado extensamente, está na mira. Vai anunciá-las em novembro. Esperem para ver, dizia ele.

Mas não será preciso esperar novembro porque os principais países europeus já estão dando subsídios milionários às suas empresas há muito tempo. Eles acusam o BNDES de oferecer empréstimos a juros subsidiados mas ainda esta semana - não em novembro... - aprovarão um pacote para dar maior acesso ao financiamento a suas indústrias com juros baixos e prazos elevados. Será uma campanha de "Projetos Industriais Europeus", para competir no exterior. A UE, desunida na crise, quer se "unir" contra o inimigo comercial em torno de uma política industrial de autodefesa. Quem? Ora, de acordo com o sr. Karel de Gucht, nós... o parceiro "desleal que exporta tanto e importa tão pouco", a China, os EUA, o mundo adverso que ameaça a Europa.

Seria para rir se eles não fossem tão fortes e nós tão surdos, mudos, tão fracos na defesa da indústria e do mercado interno. O problema deles não somos nós, não é o mundo, são eles mesmos, que, seguindo a Alemanha, pouco fizeram para enfrentar a crise e agora acusam os países que se saíram bem e estão crescendo de não estarem fazendo nada para ajudá-los... Humor negro, humor negro...

A "ameaça" brasileira. Sabem qual foi o valor das exportações brasileiras de produtos industriais para a União Europeia, até setembro? US$ 11,3 bilhões. Sim, tudo isso. Uma brutalidade para um grupo que importa mais de US$ 1,5 trilhão por ano.

Exportamos para a União Europeia até setembro US$ 30,7 bilhões, quase 63% de produtos básicos, commodities e semimanufaturados, entre os quais açúcar. Somos um anão comercial diante deles, não protegemos como deveríamos nossa indústria e nosso mercado e mesmo assim a UE nos acusa de protecionista...

E o Itamaraty informa que não vai dizer nada.

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