Tiago Queiroz/ Estadão
A despeito da melhora no mercado de trabalho, pesou a redução do alcance e valor do Auxílio Emergencial pago pelo governo aos mais vulneráveis Tiago Queiroz/ Estadão

Mesmo com Auxílio Emergencial, 2 anos de pandemia tiraram R$ 30,6 bi das famílias

Massa de rendimento mensal real domiciliar per capita em 2021 caiu 6,2% na comparação anual, para R$ 287,7 bi

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 10h00

RIO – A pandemia de covid-19 retirou das famílias brasileiras R$ 30,56 bilhões em dois anos de crise sanitária, a despeito do reforço proveniente de medidas emergenciais de socorro financeiro à população, mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2021 - Rendimento de todas as fontes, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira, 10.

A massa de rendimento mensal real domiciliar per capita – soma de toda a remuneração das famílias, do trabalho, de fontes formais e informais, incluindo apoios pagos pelo governo, como bolsas e aposentadoria – totalizou R$ 287,703 bilhões em 2021, R$ 19,150 bilhões a menos que os R$ 306,853 bilhões registrados em 2020, queda de 6,2%.

A despeito da melhora no mercado de trabalho, pesou a redução do alcance e valor do Auxílio Emergencial pago pelo governo aos mais vulneráveis. O porcentual de domicílios com alguém recebendo “Outros programas sociais”, categoria que inclui o auxílio emergencial, caiu de 23,7% em 2020 para 15,4% em 2021, enquanto a proporção de domicílios com beneficiários do Bolsa Família aumentou de 7,2% para 8,6%.

Na passagem de 2020 para 2021, todas as regiões viram encolher a massa de rendimento domiciliar per capita mensal, com destaque para o tombo de 12% registrado no Nordeste.

No total da população, os 10% com os menores rendimentos detinham apenas 0,7% da massa de renda em circulação na economia, enquanto que o grupo dos 10% mais ricos concentravam 42,7% do bolo.

“Além disso, cabe destacar que este último grupo possuía uma parcela da massa de rendimento maior que a dos 80% da população com os menores rendimentos (41,4%)”, apontou o IBGE.

O grupo dos 10% com maiores rendimentos abocanhou um pedaço maior da massa de rendimento domiciliar per capita na passagem de 2020 para 2021, 1,1 ponto porcentual a mais, enquanto que a fatia dos 10% mais pobres encolheu 0,2 ponto porcentual.

Em 2021, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita do 1% mais rico da população era 38,4 vezes maior que o rendimento médio dos 50% que ganham menos.

Além disso, o número de pessoas sem nenhum tipo de renda cresceu no País no ano passado. A proporção de brasileiros com rendimento caiu de 61% em 2020 para 59,8% em 2021, o mesmo percentual de 2012 e o mais baixo da série. Ou seja, no ano passado, 85,6 milhões de brasileiros não recebiam nenhum tipo de rendimento, nem salário, nem aposentadoria, pensão, programas de governo, aluguel nem doação – aí incluídos as crianças e os idosos que dependem da família.

“A população de pessoas com algum tipo de rendimento se reduziu em todo o País. Isso aconteceu em todas as regiões”, explicou Alessandra Brito, analista do IBGE. “Isso é muito explicado pelos outros rendimentos, que é onde está o auxílio emergencial”, completou.

A renda média mensal real de todas as fontes de quem possuía algum tipo de rendimento foi estimada em R$ 2.265 no ano passado, resultado mais baixo da série histórica, após quedas de 3,4% em 2020 e de 5,1% em 2021.

O rendimento médio mensal habitualmente recebido de todos os trabalhos foi de R$ 2.476 em 2021, queda de 6,1% ante 2020, "como possível resultado da expansão da informalidade na ocupação", apontou o IBGE.

Quanto ao rendimento proveniente de outras fontes, a aposentadoria e pensão foi de R$ 1.959 em 2021, uma retração recorde de 5,3%, enquanto a pensão alimentícia, doação e mesada de não morador totalizavam, em média, R$ 667 mensais, valor 4,2% abaixo do estimado no ano anterior.  Segundo o IBGE, houve influência da inflação nas perdas dessas duas modalidades.

Na categoria de “outros rendimentos”, que inclui o Auxílio Emergencial e demais programas de transferência de renda do governo, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga um salário mínimo para os idosos mais pobres, o valor recebido mensalmente era de R$ 512, em média, um tombo recorde de 30,1%, “o que pode ter relação com as mudanças ocorridas no benefício do auxílio emergencial no segundo ano da pandemia de covid-19", apontou o IBGE.

Os rendimentos provenientes de aluguel e arrendamento tiveram valor médio de R$ 1.814, aumento de 3,7%.

Se considerado apenas o rendimento obtido do trabalho, apesar do aumento da população ocupada em 2,8 milhões de pessoas a mais trabalhando, a massa do rendimento mensal real de todos os trabalhos caiu 3,1%, passando de R$ 223,6 bilhões em 2020 para R$ 216,7 bilhões, em 2021.

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Mais de 10 milhões sobreviviam com R$ 1,30 por dia em 2021, diz IBGE

Pnad aponta que 106,35 milhões viveram com R$ 13,83 por dia no ano passdo

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 10h00

RIO - O segundo ano da pandemia foi marcado por um empobrecimento recorde dos brasileiros, após as políticas de transferência de renda para mitigar a crise causada pela covid-19 darem um alívio em 2020. Com o enxugamento do Auxílio Emergencial e uma recuperação do mercado de trabalho marcada pela geração de empregos precários, a metade mais pobre da população sobreviveu com apenas R$ 415 mensais por pessoa em 2021, pior resultado histórico, uma queda de 15,1% em relação aos R$ 489 recebidos em 2020, em valores já atualizados pela inflação.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2021 - Rendimento de todas as fontes, divulgada nesta sexta-feira, 10, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com o rendimento médio de R$ 415 por mês para a metade mais pobre, são 106,35 milhões subsistindo com apenas R$ 13,83 por dia por pessoa. O empobrecimento é histórico mesmo quando se compara com quase dez anos atrás: em 2012, a metade mais pobre da população ganhava R$ 448 por mês por pessoa. O valor de 2021 é 7,4% menor do que o registrado em 2012.

Com a diminuição do Auxílio Emergencial – tanto no valor quanto no número de pessoas beneficiadas –, as perdas foram mais dramáticas nas regiões Norte e Nordeste, onde a transferência de renda desempenha um papel fundamental para a subsistência de grande parte da população na pandemia.

Os 50% mais pobres do Nordeste sobreviviam com R$ 251 mensais, ou R$ 8,37 diários por pessoa da família no ano passado, um recuo de 23% ante 2020. No Norte, a renda média da metade mais vulnerável foi de R$ 281 mensais em 2021, R$ 9,37 diários, 19,9% a menos que no ano anterior.

O quadro é ainda mais drástico entre os mais pobres de todos. Em 2021, o País tinha 10,635 milhões de pessoas sobrevivendo com apenas R$ 39 mensais por pessoa, ou seja, os 5% mais miseráveis da população tinham, em média, somente R$ 1,30 por pessoa por dia, considerando todas as fontes de renda disponíveis. A renda desses miseráveis despencou 33,9% em relação a 2020. Na comparação com 2012, o tombo no poder aquisitivo desses brasileiros foi de 48%.

“Teve menos gente ganhando (o Auxílio Emergencial), e quem ganhava teve menos parcelas, com valor menor”, lembrou Alessandra Brito, analista do IBGE. “O auxílio foi um colchão para a renda não cair tanto em 2020. Com a melhora da pandemia e o retorno do mercado de trabalho, as regras do auxílio foram alteradas.”

O tombo na renda dos mais pobres em 2021 aumentou a desigualdade, embora todas as faixas tenham registrado perdas. Entre o 1% mais rico da população, a renda média mensal per capita foi de R$ 15.940, queda de 6,4% ante 2020. Em relação ao primeiro ano da série, 2012, a perda foi de 6,9%.

“Todo mundo perdeu (renda). Não é só o auxílio, porque não afetou só os mais pobres”, apontou a analista do IBGE.

Como o rendimento dos mais pobres caiu em ritmo mais acelerado, o índice de Gini do rendimento médio domiciliar per capita – indicador que mede a desigualdade de renda, numa escala de 0 a 1, em que, quanto mais perto de 1 o resultado, maior é a concentração – aumentou de 0,524 em 2020 para 0,544 em 2021. Na passagem de 2020 para 2021, o índice de Gini cresceu em todas as regiões brasileiras, o que mostra um aumento na desigualdade disseminado pelo País.

Considerando a renda auferida por toda a população, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita foi de R$ 1.353 em 2021. Assim como no caso da metade mais pobre da população, é o valor mais baixo já visto na pesquisa iniciada em 2012, 6,9% menor que os R$ 1.454 estimados em 2020. Houve redução em todas as regiões, sendo os valores mais baixos os auferidos no Norte (R$ 871) e Nordeste (R$ 843). A Região Sul registrou o maior rendimento domiciliar per capita médio, R$ 1.656.

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