REUTERS/Ricardo Moraes
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Vale perde R$ 71 bi em valor de mercado e governo fala até em afastar direção da empresa

As ações ordinárias da mineradora terminaram o dia em baixa de 24,52%, a R$ 42,38; analistas acreditam que tragédia humana e reincidência devem pesar sobre os papéis da empresa

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 10h58
Atualizado 29 de janeiro de 2019 | 00h43

No primeiro dia de mercado financeiro aberto após a tragédia de Brumadinho (MG), a Vale foi fortemente castigada na Bolsa. As ações da mineradora caíram 24,5%, e a empresa perdeu nada menos que R$ 71 bilhões em valor de mercado (foi de R$ 289,7 bilhões na quinta-feira para R$ 218,7 bilhões ontem). É a maior perda em um só dia, em volume, já registrada na Bolsa brasileira, segundo a Economática. Mas a pressão em cima da empresa não veio só do mercado financeiro. Cresce cada vez mais o cerco sobre a mineradora, com praticamente toda a sociedade cobrando uma punição exemplar.

O presidente da República em exercício, Hamilton Mourão, afirmou que o gabinete de crise montado pelo governo para lidar com a situação estuda até a possibilidade de afastar a direção da mineradora. “Essa questão da diretoria da Vale está sendo estudada pelo grupo de crise”, afirmou. Mourão defendeu uma punição rigorosa para os culpados, até mesmo criminalmente.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, também pediu uma punição dura. “É preciso responsabilizar severamente, do ponto de vista indenizatório, a empresa que deu causa a esse desastre e promover também a punição penal”, disse.

O governo, porém, não tem poder para destituir diretores na empresa, mesmo tendo uma “golden share” (ação especial que dá direito a, por exemplo, vetar alterações no nome ou mudança de sede da empresa). A decisão teria de ser tomada pelos acionistas Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil), Bradespar (braço de investimentos do Bradesco) e a japonesa Mitsui. Previ e Bradespar não comentaram o assunto.

Justiça bloqueia R$ 12 bi da mineradora

No lado financeiro, a Vale já viu a Justiça bloquear quase R$ 12 bilhões de seu caixa para garantir o pagamento de indenizações com a tragédia causada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de minério, que deixou dezenas de mortos, centenas de desaparecidos e um enorme dano ambiental. 

Para analistas, apesar de o montante soar expressivo, esse nem é o problema mais grave, já que a empresa tem cerca de R$ 23 bilhões no caixa. A maior dificuldade, neste momento, são as dúvidas que ainda devem demorar muito tempo para serem respondidas. “Muitas variáveis são imensuráveis, como indenizações para as vítimas, custo de reconstrução da área atingida e, principalmente, a repercussão negativa na imagem da empresa, reincidente numa catástrofe desse porte”, disse Rafael Panonko, analista-chefe da Toro Investimentos, lembrando que a empresa é sócia da Samarco Mineração, responsável por acidente parecido na cidade de Mariana (MG), em 2015.

O acidente em Mariana trouxe fortes prejuízos, tanto de imagem quanto financeiros, para a Vale. As ações da empresa, à época, chegaram a cair mais de 50%. Mas depois se recuperaram, e chegaram a subir mais de 250% de lá para cá. Agora, os danos caminham para ser ainda maiores.

A avaliação é de que, apesar de a produção na região atingida pelo desastre não ser significativa em tamanho dentro da Vale, os desdobramentos podem ter impacto direto nos investimentos da companhia. Segundo os analistas dos bancos Bradesco BBI e BTG Pactual, a crise pode trazer restrições mais severas às operações de outras minas, elevando os custos e comprometendo potencialmente a produção de minério.

Os impactos também serão diretos para os acionistas. Além do preço das ações ter desabado, a Vale anunciou a suspensão do pagamento de dividendos – além de ter cancelado os bônus a seus executivos. No ano passado, o presidente da mineradora, Fabio Schvartsman, havia afirmado que uma das metas da empresa era pagar dividendos “polpudos” aos acionistas.

 

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