Ideias opostas nas equipes da Fazenda e do Planejamento

Enquanto o pensamento liberal predomina na equipe de Joaquim Levy, desenvolvimentismo é maioria entre os técnicos de Barbosa

JOÃO VILLAVERDE, RICARDO DELLA COLETTA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h04

O segundo mandato de Dilma Rousseff começa com dois opostos do pensamento econômico dispostos em "bunkers" na Esplanada dos Ministérios. De um lado, o Ministério da Fazenda, com economistas formados em escolas liberais e neoliberais do Rio de Janeiro e dos Estados Unidos. De outro, o Ministério do Planejamento, com técnicos oriundos de academias desenvolvimentistas da mesma cidade, o Rio, e também dos EUA.

Na Fazenda, a nova equipe formada por Joaquim Levy vem principalmente da PUC-Rio e da FGV-RJ, e no caso do próprio Levy e de seu secretário de Política Econômica, Afonso Arinos, o doutorado veio do símbolo neoliberal mundial - a Universidade de Chicago.

Até o nome "fora da curva", o novo secretário do Tesouro Nacional, Marcelo Saintive, justifica o posto. Ele tem mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde o curso de economia é conhecido nacionalmente como polo desenvolvimentista. Mas era conhecido como "o liberal da UFRJ", segundo amigos economistas que estudaram na mesma época.

Justamente da UFRJ é que saíram os principais nomes do outro "bunker", liderado pelo ministro Nelson Barbosa, ele próprio graduado e mestre pela Federal do Rio. A nomeação de um "núcleo duro" heterodoxo faz parte da estratégia de Barbosa de dar ao Planejamento mais protagonismo na elaboração de políticas econômicas. Apesar disso, pessoas próximas consideram que não deve haver conflito com Levy, já que a necessidade de ajuste fiscal foi reconhecida pela própria presidente.

"A conjuntura atual não permite grandes disputas sobre visão, sobre doutrina econômica", resume uma fonte. Na Fazenda, o discurso é semelhante: "Tudo o que queremos é proximidade com o Planejamento", disse uma fonte ligada a Levy.

Tal qual Levy, Barbosa montou no Planejamento uma equipe à sua imagem e semelhança. Colocou Esther Dweck, doutora pela UFRJ, na Secretaria de Orçamento Federal (SOF). Em sua tese, Esther, que comandou a Secretaria de Assuntos Econômicos na gestão de Miriam Belchior, defendeu um "arcabouço teórico não ortodoxo" e "alternativo ao neoclássico, mais adequado à discussão de questões específicas da dinâmica econômica e, consequentemente, do desenvolvimento."

Para a Secretaria de Assuntos Internacionais, Barbosa deve nomear o deputado federal Cláudio Puty (PT-PA), que obteve seu doutorado em economia na New School for Social Research, em Nova York. Foi lá que Puty conheceu Barbosa, que à época também fazia seu doutorado.

Para Puty, o núcleo desenvolvimentista no Planejamento não deve causar conflitos com os secretários da Fazenda. "Um bom governo não é feito de ideias monolíticas. A pluralidade é importante e eventualmente essa dialética interna ajuda."

Nível. Para o professor da FGV-Rio Aloisio Araújo, um dos principais nomes do pensamento liberal brasileiro, a nova equipe da Fazenda é de "altíssimo nível". Araújo foi orientador do mestrado de Levy e do novo secretário de Política Econômica, Afonso Arinos, nos anos 1980.

"Dei aulas na Universidade de Chicago e em Berkeley. Quando voltei dos EUA orientei os dois (Levy e Arinos) no mestrado e os encaminhei a Chicago. Os dois são economistas de primeira ordem, muito preparados", diz. "Levy atuou no fim do governo FHC e no primeiro mandato do Lula e fez o que quase ninguém conseguia, um ajuste fiscal firme. Depois foi para o Rio, que estava em situação de calamidade nas contas públicas e arrumou tudo em três anos. Agora está de volta a Brasília."

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