Ideologia e fracasso

Em meu primeiro artigo neste espaço, com o título Teoria econômica, ideologia e crescimento (Estado, 10/9/2012), procurei mostrar que, quando a ideologia se sobrepõe à racionalidade e conduz ao excessivo apego por parte dos governantes aos cânones de uma determinada corrente do pensamento econômico, os custos podem ser elevados para a sociedade.

Claudio Adilson Gonçalez*, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2014 | 22h34

Embora haja controvérsias, a maioria dos estudiosos da história do pensamento econômico aceita que a economia como uma ciência social autônoma surgiu com os trabalhos publicados no século 18 por pensadores como Quesnay, Locke, Mandeville e, sobretudo, Adam Smith, este último com sua célebre obra Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, de 1776.

A partir daí, valiosos estudos se sucederam, muitas vezes com visões opostas, mas que em conjunto nos ajudaram a entender como a economia funciona. Por exemplo, a teoria keynesiana, devida ao britânico John Maynard Keynes (1883-1946), nos mostrou a possibilidade do chamado equilíbrio recessivo provocado por insuficiência de demanda. Para rompê-lo é necessária a intervenção de um agente externo: o governo. O gasto público, financiado por endividamento ou emissão de moeda, entra na equação para suprir a escassez de demanda e recolocar a economia numa trajetória virtuosa comandada pelo investimento privado.

Infelizmente, os valiosos ensinamentos de Keynes, que forneceram uma justificativa teórica para a intervenção do governo na economia em situações específicas do ciclo econômico, caíram nas graças dos economistas de esquerda e foram por estes deturpados.

A ideologia levou ao radicalismo. Formou-se uma linha de pensamento econômico que despreza o livre mercado, que não entende ou não quer entender o papel dos preços relativos para a alocação eficiente dos recursos produtivos, que não compreende que os agentes econômicos respondem a incentivos, que gosta de Estado grande, interventor e demoniza as privatizações. Direito de propriedade, garantia de que o retorno do investimento seja determinado pelo mercado e não pelo burocrata de plantão e meritocracia são vistos como armas da classe dominante para explorar os mais pobres, e não como princípios fundamentais para alcançar o crescimento econômico.

Certamente o leitor já percebeu a semelhança entre o que se disse no parágrafo anterior e a política econômica do governo Dilma em seu primeiro mandato. Foram essas crenças que levaram às intervenções arbitrárias do governo na economia, ao desajuste das finanças públicas, atrasaram e dificultaram o desenvolvimento eficiente do programa de concessões em infraestrutura anunciado pomposamente pela presidente em meados de 2012 e retiraram a confiança e os incentivos para o empreendedorismo e para o

investimento privado.

Durante a campanha, a candidata à reeleição defendeu com extrema convicção as linhas centrais de sua política econômica e, mais preocupante, continua a fazer o mesmo discurso mesmo após sua apertada vitória nas urnas. Até o momento em que este artigo foi escrito, os sinais dados pela presidente reeleita de reversão desse quadro foram muito fracos e pouco convincentes. Prometer ajustes na política fiscal e liberar o Banco Central para iniciar um provavelmente tímido aperto monetário antes do esperado pelo mercado são ações insuficientes para reverter o pessimismo e melhorar a confiança dos agentes econômicos.

Como disse o jornalista Celso Ming (Estado, 15/11), o primeiro mandato do governo Dilma termina aos cacos. Estagnação  econômica, inflação rompendo o teto da meta, déficit público nominal de quase 5% do PIB, setor industrial em frangalhos, início do processo de deterioração no mercado de trabalho, isolamento político e o escândalo da corrupção na Petrobrás, cujos desenvolvimentos das investigações ninguém sabe aonde irão nos levar. Para piorar, os desdobramentos recentes da economia internacional também não são favoráveis, com as commodities em queda livre e a perspectiva concreta de início do processo de aumento do juro básico nos EUA, em 2015. 

Apesar de tudo isso, a presidente Dilma ainda pode salvar seu segundo mandato. É certo que para tanto terá de cometer estelionato eleitoral e praticar uma política econômica exatamente oposta àquela que prometeu durante a campanha. Mas isso será um mal menor, diante do desastre que resultaria se adotasse a linha do "mais do mesmo".

Sim, é preciso montar uma equipe ministerial de alta credibilidade, mas isso não basta. Principalmente na área econômica, a bala de prata para resgatar a confiança chama-se delegar. É imprescindível deixar claro aos agentes econômicos que a presidente entregará a função de reorganizar a política econômica a pessoas que entendem do assunto e que não sejam submissas aos ideólogos do PT. A ideologia da esquerda não pode mais comprometer a racionalidade da política econômica.

Indústria.

Para encerrar, volto ao tema que abordei no mês passado, qual seja, a crise industrial. O governo precisa reconhecer que está destruindo o setor, tanto pelo lado macroeconômico como microeconômico. Aqui vou mencionar apenas um aspecto, que pretendo desenvolver melhor em próximos artigos. Refiro-me às cadeias globais de produção.

Nas últimas décadas o comércio internacional passou por profunda alteração. Na geografia industrial, houve uma verdadeira revolução, com a produção manufatureira evoluindo num sistema de divisão internacional do trabalho e de aproveitamento das vantagens comparativas e dos avanços tecnológicos em escala mundial. O Brasil ficou alheio a esse processo. Protecionismo, leis de conteúdo nacional, sistema tributário disfuncional, política de comércio exterior moldada por ideologias e os custos da fábrica para fora são os principais fatores responsáveis pelo isolamento de nossa indústria. Entre os muitos equívocos da política econômica do primeiro mandato da presidente Dilma, este talvez tenha sido um dos mais graves e cuja correção não pode ser postergada.

*Economista, diretor-presidente da MCM Consultores, foi consultor do Banco Mundial, subsecretário do Tesouro Nacional e chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda

 

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