Ideologia e investimento

Nos Estados Unidos, disputa entre democratas e republicanos vem travando o aumento nos investimentos públicos em infraestrutura

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2014 | 02h04

Os Estados Unidos eram um país que construía para o futuro. Às vezes o governo empreendia diretamente a construção: projetos públicos, desde o Erie Canal até o Interstate Highway System (rede de rodovias estaduais que se interconectam), foram a espinha dorsal do crescimento econômico.

Em outras ocasiões, o governo oferecia incentivos para o setor privado, como outorga de terras para estimular a construção de ferrovias. De qualquer maneira, havia um amplo apoio no sentido de despesas que tornariam os americanos mais ricos.

Mas hoje não investimos, mesmo quando a necessidade é óbvia e a ocasião não podia ser melhor. E não venham me dizer que o problema é a "disfunção política" ou outra frase enganosa que dilui a culpa.

Nossa incapacidade para investir não é reflexo de alguma coisa errada com relação a Washington; ela reflete a ideologia destrutiva que tomou conta do Partido Republicano.

Alguns antecedentes: mais de sete anos se passaram desde a explosão da bolha imobiliária e desde então os Estados Unidos estão com um excesso de poupança - ou mais precisamente, poupanças desejadas sem saber o que fazer.

A tomada de empréstimos para compra de imóveis registrou uma pequena recuperação, mas continua baixa. As empresas vêm contabilizando lucros enormes, mas relutam em investir diante da demanda fraca do consumidor, de maneira que acumulam dinheiro em caixa, recomprando suas próprias ações. Os bancos detêm quase US$ 2,7 trilhões de reservas em excesso - fundos que eles poderiam emprestar, mas que preferem, pelo contrário, mantê-los inativos.

E essa discordância entre a poupança desejada e a disposição para investir mantém a economia deprimida. Lembre, sua despesa é minha renda e minha despesa é a sua renda, de maneira que, se todo mundo procurar gastar menos ao mesmo tempo, a renda de todos cairá.

Há uma resposta política óbvia para essa situação: investimento público. Temos enormes necessidades de infraestrutura, especialmente de água e transporte, e o governo federal pode tomar emprestado muito barato - na verdade, os juros sobre títulos protegidos contra a inflação estão negativos na maior parte do tempo (atualmente, estão em apenas 0,4%). Assim, tomar emprestado para construir estradas, reparar sistemas de esgoto e outros mais parece algo óbvio. Mas o que tem ocorrido, na verdade, é o contrário. Depois de um breve aumento após a lei de estímulo sancionada por Obama ter entrado em vigor, a construção pública despencou. Por que? Grande parte da queda dos investimentos públicos é reflexo dos problemas fiscais do Estado e governos locais, que respondem pelo volume maior do investimento.

Esses governos devem, por lei, equilibrar seus orçamentos, mas veem suas receitas despencarem e algumas despesas aumentarem na economia deprimida. E, assim, retardam ou cancelam muitos projetos de construção para economizar suas reservas em caixa.

Mas isso não deveria ocorrer. O governo federal poderia facilmente fornecer ajuda para os Estados. Na verdade a lei de estímulo incluiu tal ajuda, e esta foi uma das principais razões pelas quais o investimento público aumentou brevemente. Mas, quando o Partido Republicano passou a controlar a Câmara, as chances de mais dinheiro para projetos de infraestrutura desapareceram.

Uma vez ou outra os republicanos mostram disposição para mais gastos, mas bloquearam todas as iniciativas do governo Obama.

E também tem a ver com ideologia a hostilidade terrível para com qualquer tipo de despesa do governo. Essa hostilidade começou como um ataque aos programas sociais, especialmente os de assistência aos pobres, mas com o tempo ela se ampliou e se transformou em oposição a qualquer tipo de gasto, não importa o quão necessário e tampouco o estado da economia.

Você pode ter uma noção dessa ideologia na prática em alguns documentos produzidos pelos republicanos da Câmara sob a liderança de Paul Ryan, chairman da Comissão de Orçamento. Por exemplo, um manifesto de 2011 intitulado "Spend Less, Owe Less, Grow the Economy" (Gastar menos, Dever Menos, Fazendo a Economia Crescer) pediu drásticos cortes de gastos face ao alto nível de desemprego e descartou como "keynesiana" a noção de que "uma redução das despesas para infraestrutura diminui o investimento do governo". (Acho que se trata apenas de aritmética, mas o que sei eu?).

Ou então, o editorial do Wall Street Journal do mesmo ano intitulado "The Great Misallocators" (aqueles que aplicam de modo errado o dinheiro público), afirmando que qualquer gasto feito pelo governo desvia recursos do setor privado que sempre fará melhor uso de tais recursos.

Não importa que os modelos econômicos que fundamentam tais afirmações tenham fracassado totalmente na prática, que as pessoas que fazem tais afirmações e previam uma inflação desenfreada e taxas de juro em aumento ano após ano estavam erradas; elas não são o tipo de pessoa que reconsidera sua opinião à luz das evidências. Não importa o fato óbvio de que o setor privado não faz e não quer fornecer recursos para muitos tipos de infraestrutura, desde estradas locais até sistemas de esgoto; essas distinções estão perdidas em meio aos slogans de bom setor privado, mau governo.

E a consequência, como disse, é que os Estados Unidos deram as costas à sua própria história. Precisamos de investimentos públicos; num período de taxas de juro muito baixas, podemos facilmente nos permitir a eles.

Mas não queremos construir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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