JF DIORIO/ESTADÃO
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Idoso ajuda filho e engrossa lista de novos inadimplentes

De 2 milhões pessoas que ingressaram na lista de devedores em 12 meses até abril, 900 mil têm mais de 61 anos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2019 | 04h00

Quase a metade dos dois milhões de brasileiros que engrossaram a lista de inadimplentes nos últimos 12 meses até abril é de idosos e essa foi a faixa etária que puxou a inadimplência no período. Enquanto o total de inadimplentes cresceu 3,2% entre abril de 2018 e abril deste ano, a fatia de devedores com mais de 61 anos de idade aumentou 10,5%. Havia 8,6 milhões de idosos inadimplentes em abril de 2018 e esse contingente subiu para 9,5 milhões em abril deste ano, segundo a Serasa Experian, empresa de informações financeiras.

“Os idosos representaram 45% do aumento do total de inadimplentes e são apenas 18% da população adulta”, afirma o economista da Serasa, Luiz Rabi. Um dos fatores que tem contribuído para o aumento do calote dos idosos é o avanço dos preços dos itens mais consumidos pelas pessoas da terceira idade. Em 12 meses até março, a inflação da terceira idade cresceu 5,37%, segundo a Fundação Getulio Vargas. É um resultado que supera o Índice de Preços ao Consumidor(IPC), calculado pela mesma instituição, que subiu 4,88% em igual período.

Outro fator é que os idosos também acabam sendo usados como fonte de renda para socorrer familiares que perderam o emprego, diz o economista. Assim, muitos, após atingirem o limite do crédito consignado da aposentadoria, vão ao mercado buscar outras linhas de financiamento. Eles acabam ficando sem condições de honrar os empréstimos com a aposentadoria que resta após os descontos.

No crédito consignado praticamente não existe inadimplência, só em caso de óbito. A prestação do financiamento, que pode comprometer cerca de 30% da renda, é descontada automaticamente da aposentadoria ou pensão. Só que, quando o idoso busca outras linhas além do consignado, sobram poucos recursos para ele gastar com despesas básicas. Resultado: ele acaba ficando inadimplente.

Esse é o caso do aposentado Nivaldito de Souza, de 62 anos, que já devia para um banco desde meados do ano passado e em janeiro deste ano acumulou pendências com outra instituição financeira. “Já estou sem margem no consignado porque peguei um crédito para reformar a casinha da praia. Não pego empréstimo só para mim, mas para os filhos quando precisam”, conta. Depois do desconto do consignado, sobra um pouco mais de R$1,2 mil. “Só com remédios gasto R$ 500 por mês, não dá pra viver”, reclama.

A pensionista Solange Fernandes Alves da Costa, de 64 anos, é outra idosa que comprometeu o limite do consignado e fez empréstimos por fora para ajudar dois filhos desempregados. Ela ficou inadimplente novamente em março, depois de ter limpado o nome no ano passado. “Vou tentar renegociar a dívida de R$ 4 mil logo, porque é horrível ficar inadimplente.”

Luz. Contas de luz, água e gás, isto é, despesas básicas, puxaram a inadimplência do consumidor em abril deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as dívidas com bancos ficaram estáveis, aponta a Serasa. Dados do Banco Central que mostram que a inadimplência dos empréstimos no sistema financeiro vem desacelerando desde 2017. 

Rabi explica que geralmente os inadimplentes dão prioridade para quitar primeiro as pendências com o sistema financeiro para não ficar bloqueado no cartão de crédito e no cheque especial.

Dos dois milhões de brasileiros que engrossaram a lista de inadimplentes nos últimos 12 meses a maior parte foi pelo fato de ter atrasado o pagamento de contas de serviços de utilidade pública. “Não pagar essas contas de serviços é um claro sinal de gravidade, mas é contornável”, diz Rabi.

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