Iglesias troca otimismo por preocupação

Há quase 14 anos na presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o economista uruguaio Enrique Iglesias teve papel central na busca de soluções para as crises econômicas mais recentes da América Latina, como líder de uma instituição que investe mais de US$ 7 bilhões por ano na região e por causa do reconhecido talento de diplomata. Ex-diretor da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina (Cepal), Iglesias foi protagonista de eventos marcantes mesmo antes de chegar ao BID. Como chanceler do Uruguai, desempenhou papel chave no lançamento da Rodada Uruguai do antigo Acordo Geral de Comércio e Tarifas, o Gatt, que resultou, oito anos mais, tarde, na criação da Organização Mundial de Comércio, a OMC. Sua trajetória é marcada por uma grande disposição para trabalhar e uma inclinação natural para o lado positivo das coisas. Mas, nas últimas semanas, o otimismo de Iglesias deu lugar à uma forte apreensão diante do acúmulo de más notícias: a crise na Argentina, o recrudescimento do conflito na Colômbia, a instabilidade na Venezuela e o crescente protecionismo comercial nos países industrializados, que golpeia as exportações da América Latina. Foi com essas várias preocupações em mente que o presidente do BID desembarcou em Fortaleza para presidir a 43.ª Reunião Anual da entidade. Ainda em Washington, ele falou ao correspondente Paulo Sotero sobre os desafios que a região enfrenta, a começar pela "pobreza inaceitável", e antecipou os temas que abordará no discurso de abertura do Encontro dos Presidentes dos Bancos Centrais, na capital cearense Estado - Qual é o significado, para o BID, de realizar a reunião anual no Nordeste do Brasil? Iglesias - Esta reunião marca o retorno do Banco ao Brasil, depois de 22 anos. Será nossa terceira reunião no Brasil, o maior tomador dos nossos empréstimos e um dos nossos principais acionistas. Ela é importante, também, porque ocorre no Nordeste, região muito privilegiada pelo Banco. Recordo-me que, nos tempos em que estive na Cepal (Conselho Econômico das Nações Unidas para a América Latina) , o Nordeste era um paradigma dos projetos de desenvolvimento, por causa dos grandes problemas e dos grandes contrastes econômicos e sociais em relação ao resto do Brasil. O Banco sempre teve grande compromisso com a região, o que faz com que se sinta em ambiente cômodo. Além disso, é bom visitar lugares onde estão os grandes desafios. É bom que a comunidade do BID veja onde estão os problemas do desenvolvimento e o que se vem fazendo. Estado - Da perspectiva de muita gente no Nordeste, as coisas não melhoraram nos últimos 20, 30 anos. Não existiria, aí, uma razão para se questionar a eficiência das políticas de desenvolvimento do BID na região? Iglesias - Não estou de acordo de que as coisas não melhoraram. Recordo minhas primeiras visitas ao Nordeste. Hoje, ele não é o mesmo de 30 anos atrás. Isso não quer dizer que não haja grandes problemas. Mas não se pode dizer que não houve mudanças para melhor. Os índices sociais e o crescimento melhoraram. Agora, um problema que vamos discutir em Fortaleza é que as reformas vinculadas ao processo de globalização estão sendo questionadas. Por isso, incorporamos na reunião dois seminários: um, no qual perguntamos se as reformas funcionaram. E vamos discutir o problema da Argentina, que atravessa um momento difícil. Será um caso a ser analisado como uma reflexão sobre as crises financeiras, um grande problemas nos últimos anos na América Latina. Essas crises golpearam duramente o México, o Brasil, a Argentina. Tivemos crises bancárias em vários países, com altos custos. Creio que precisamos debater esse tema das crises financeiras sem preconceitos, com honestidade intelectual, para aprender, realmente, por que as reformas dão resultados em alguns lugares e em outros, não. Estado - Existe já alguma medida para determinar o que funciona? Iglesias - Já existem alguns trabalhos sobre o assunto. O nosso pessoal de pesquisas está fazendo estudos sobre as condições para que as reformas funcionem. Há dois ou três elementos importantes. O primeiro é o quadro institucional. As primeiras reformas, de liberalização comercial e abertura de mercados, eram relativamente simples. Numa segunda fase, constatou-se que as instituições eram débeis. Não adiantava apenas aprovar uma boa lei. Era preciso ter boas instituições, um bom banco central, bons órgãos de supervisão de empresas privatizadas, etc. Esse ponto foi muito estudado pelo (economista Joseph) Stiglitz. Outro tema é que as reformas também são condicionadas por fatores externos, em alguns casos positivamente; em outros, negativamente. As reformas começaram num ambiente de otimismo internacional, de crescimento econômico, aumento do comércio, dos fluxos financeiros, dos investimentos privados. Mas isso se interrompeu. Estamos entrando numa etapa em que teremos de olhar muito mais para os recursos internos, para que as reformas estejam assentadas em bases mais firmes. Há alguns pontos específicos das reformas que devem ser destacados. A redução da inflação que propiciaram é um ganho líquido em toda a América Latina, antes uma região de preços muitos inflacionados e hoje, de preços estáveis. Quanto ao crescimento, as reformas deram contribuição menor do que esperávamos, mas produziram expansão do PIB de 1,1%, 1,2% nos anos 80 e 3,2% nos anos 90. O estudo do Banco estimou que 15% do aumento do PIB pode ser atribuído às reformas. Estado - Mas as reformas não diminuíram a pobreza. Iglesias - As reformas demonstraram que, quando houve queda da inflação e aumento simultâneo do produto, a pobreza diminuiu. A pobreza continua a ser muito grande em muitos países. E é complicada pelos desajustes provocados pelo desemprego. As reformas tiveram impacto, mas, evidentemente, não conseguimos dominar a pobreza, que continua inaceitavelmente alta na maioria dos países da região. Estado - Como está o nível de poupança na América Latina? Iglesias - Está aumentando, mas continua baixo, com exceção do Chile. Os dois problemas temos dificuldade para equacionar na região são, por um lado, a baixa poupança, que faz com que sejamos dependentes da poupança externa - e isso não é bom - e, por outro lado, o baixo nível das exportações em relação do PIB e sua composição. Estado - Um dos resultados das reformas foi dar maior competitividade a certos produtos de exportação. Mas os países ricos, grandes pregadores das virtudes das reformas, fecham os mercados para impedir a entrada dos produtos nos quais temos a vantagem comparativa. O que a América Latina deve fazer diante do protecionismo? Iglesias - Esse é um outro exemplo sobre como o ambiente internacional condiciona o êxito das reformas. O protecionismo tende a aumentar, especialmente em certos produtos-chave, que são altamente sensíveis, como a agricultura e o aço. E isso afeta a América Latina, pois, na media, 70% das exportações da região são de produtos primários. Nessa área, não fizemos como outros países, como os asiáticos, que se uniram e incursionaram nas áreas mais dinâmicas do comércio mundial, que são os serviços. Temos uma participação muito baixa nos serviços. Um espaço óbvio é o turismo. Com algumas exceções no México e no Caribe, a oferta de serviços na área do turismo é baixa na América Latina. Tampouco entramos vigorosamente nos temas das tecnologias de informação. Mas é certo também que não aproveitamos as vantagens que temos para entrar em outras áreas. Estado - Sua resposta sugere que o senhor não está nada otimista sobre a nova rodada de negociações na Organização Mundial de Comércio... Iglesias - Em última análise, a carga de protecionismo é hoje tão elevada - e a entrada de novos países na Comunidade Européia é tão onerosa -, que a tendência terá de mudar e o protecionismo diminuirá. Mas, no momento, o protecionismo está muito forte, particularmente nos Estados Unidos. Estado - A reunião do BID ocorrerá num momento de debate sobre uma redução da taxa de juros no Brasil. Como o País deve proceder? Iglesias - A taxa de juros não é algo que se pode decidir por decreto. Ela está vinculada ao comportamento geral da economia, ao problema da poupança e da liquidez externa. Há, por trás, toda a questão da percepção de risco país. Há que manejar isso com cuidado. Mas concordo que, no Brasil e no resto da América Latina, a taxa de juros é elevada. Estado - Como o senhor analisa a crise Argentina e a ausência de contágio no Brasil? Iglesias - Depois de uma década de crise financeira, os mercados financeiros estão aprendendo a fazer distinções, o que é positivo. Eu não faria uma afirmação tão absoluta de que não houve contágio. Há contágios visíveis e invisíveis. Os visíveis, como os que vimos nas crises do México, em 1995, e e na da Ásia, em 1997 e 1998, não ocorreram nesta crise da Argentina, com exceção, talvez, do Uruguai. Mas houve contágio invisível. Evidentemente, a crise argentina tem influência sobre o apetite das correntes financeiras em relação à região. Por isso, não se pode dizer que não há contágio. Acho muito necessário que a Argentina encontre logo a solução para a crise, para que a América Latina continue a atrair capitais e investimentos. Estado - Nas últimas semanas, o senhor insistiu para que a comunidade financeira oficial tivesse uma atitude mais construtiva em relação à Argentina. Qual é sua frustração, nesse particular? Iglesias - Na origem do problema está a perda de credibilidade da Argentina no mercado internacional. Isso, e o fato de a crise ser muito aguda e muito complexa, tornam muito difícil recompor a credibilidade. Isso levará tempo. Mas creio que, neste momento, a comunidade internacional deve esperar que a Argentina elabore um programa sólido. Não há dúvida sobre isso. Não se pode imaginar que a Argentina superará a situação sem um programa consistente. Infelizmente, isso implica custos inevitáveis. Mas o problema se tornará muito mais agudo, se não for resolvido. Mas também acho que a comunidade internacional precisa respaldar uma Argentina com um programa sólido. Isso interessa a todos na região. A Argentina é um país demasiadamente importante para que siga na situação atual. É preciso ajudá-la a construir seu plano. E isso não quer dizer apenas os organismos internacionais, mas também os países da América Latina, que precisam ter um grande interesse na resolução da crise. Estado - Como os países da região podem ajudar a Argentina? Iglesias - No passado, quando se montaram grandes pacotes financeiros, houve contribuições dos países, de alguma forma. Acho que se deve pensar em formas de ajuda bilateral. É uma boa idéia e seria muito bem recebida. Estado - Em momentos do debate sobre a crise da Argentina falou-se em dolarização. A idéia foi descartada, mas vale a pergunta: qual é a sua posição sobre a dolarização das economias da América Latina? Iglesias - Nao concordo com a dolarização. A crise da Argentina teve como uma das causas o tipo de câmbio, a paridade fixa com o dólar. Se os argentinos tivessem feito a dolarização, teria sido ainda pior, porque a situação seria irreversível. Para países como os nossos, que ainda têm problemas para resolver, que têm as vulnerabilidades internacionais derivadas do fato de serem grandes produtores de matérias primas, a dolarização é um instrumento muito rígido e muito perigoso. Não creio que seja uma solução adequada. Isso não significa que não creia em outras alternativas, como, por exemplo, uma moeda sub-regional. A nova coincidência de sistemas cambiais nos países do Cone Sul deveria inspirar um projeto de uma moeda comum na região. É um sonho difícil, mas alcançável. É um objetivo difícil, mas que não deve ser posto de lado. Estado - Sua resposta sugere que o senhor confia na continuidade da estabilidade econômica no Brasil. Iglesias - Certamente. O Brasil mostrou, nos últimos anos, ter uma excelente administração, tem capacidade de gerir sua economia em momentos de turbulências e isso se deve não apenas à qualidade das pessoas, mas à flexibilidade que a economia tem na frente externa, com o câmbio flutuante, que funcionou como uma importante defesa da estabilidade.

Agencia Estado,

09 de março de 2002 | 23h40

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