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Ignorância antidemocrática

ANTÔNIO

Antônio Márcio Buainain, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2015 | 02h04

MÁRCIO

BUAINAIN

Na semana passada, o noticiário reportou duas cenas muito distantes na geografia, no contexto e nas motivações, mas niveladas na barbárie e na abissal ignorância. No Iraque, fanáticos do Estado Islâmico - uma deturpação extrema do islamismo - destruíram irreparáveis manifestações da herança civilizatória da humanidade; e, em São Paulo, o "exército do Stédile", recentemente convocado por Lula, invadiu um centro de pesquisas privado e depredou laboratórios e estufas com mudas de eucalipto transgênico. Já no front do Planalto Central, outra coluna do mesmo exército invadiu o auditório onde se reunia a CTNBio - conselho técnico formado por cientistas, representantes da sociedade civil e do governo - para impedir a discussão sobre a comercialização do mesmo eucalipto. E, enquanto isso, no Senado, onde tramita o Projeto de Lei n.º 7.735/2014, que dispõe sobre a biodiversidade, outro batalhão, denominado Via Campesina, exigia ser reconhecido como membro da comissão responsável pela discussão, dizendo-se "organização da sociedade civil, representante dos camponeses, índios e pobres rurais". Mas o que discutir com uma organização política radicalmente refratária ao diálogo, capaz de ações bárbaras contra a ciência e a sociedade pautadas pela indigência argumentativa e pela ignorância, que, segundo Einstein, não têm limites?

Pelo Brasil afora, a tropa de choque do MST paralisou estradas e invadiu fazendas, fábricas e prédios públicos, com palavras de ordem contra o agronegócio, o capital estrangeiro, o latifúndio, o ministro Joaquim Levy - um infiltrado, segundo o comandante Stédile - e a favor da Petrobrás e da presidente Dilma. A mesma que no domingo (8/3) defendeu o ajuste econômico proposto pelo mesmo ministro quinta coluna.

A movimentação acontece num agudo momento de crise econômica e política, cuja dimensão ainda é indefinida, mas que tem potencial para se transformar num enorme iceberg e se desdobrar numa crise institucional indesejável. O problema é que o exército que supostamente deveria defender o governo faz mais estragos do que os causados pelos seus inimigos reais e imaginários e pela própria oposição - esta ainda desarticulada e quase tão desnorteada quanto o governo.

Senão, vejamos. Há anos este mesmo governo vem fazendo louváveis esforços para estimular os investimentos privados em Pesquisa & Desenvolvimento e para atrair para o País centros de pesquisa das grandes multinacionais que investem em inovação. Pode-se imaginar os danos causados pelo vandalismo obscurantista, como a destruição perpetrada em Itapetininga (SP) pelo MST e pelas pressões intoleráveis sobre a CTNBio. Trata-se, sem dúvida, de um tiro no pé, já que os resultados das inovações são apropriados por toda a sociedade, e não só pela empresa inovadora, como supõe este anticapitalismo primitivo. Ademais, a fronteira da biotecnologia é a única esperança para compatibilizar a segurança alimentar, a oferta de bioenergia e de matérias-primas agrícolas essenciais para a população mundial, com a redução da pressão ambiental e a preservação da natureza. E é justamente contra esta área, uma das poucas na qual a pesquisa científica e aplicada desenvolvida no Brasil ainda tem alguma chance de ser relevante, que se arremetem a ira e a inacreditável ignorância do MST e da Via Campesina - que também se insurgem contra a agricultura empresarial, um dos poucos setores da economia brasileira que se mantêm firmes e competitivos, contribuindo para reduzir a pobreza, distribuir renda, mitigar a crise da indústria e gerar divisas.

O comandante do exército fechou com chave de ouro as ações da semana atacando frontalmente a política econômica do governo e o seu condutor, no qual a própria presidente foi a contragosto forçada a depositar todas as esperanças de consertar os estragos feitos nos últimos quatro anos, responsáveis pela crise que se está propagando como rastilho rumo ao barril de pólvora. Com defensores dessa qualidade, o governo não precisa de adversários.

*Antônio Márcio Buainain é professor de Economia na Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp 

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