Ignorando os juros nos EUA

No curto prazo, a inflação brasileira pesará mais no Copom que os juros dos EUA

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 05h00

Acontecimento incomum, as próximas reuniões de política monetária do Banco Central e do Federal Reserve (Fed) ocorrerão exatamente nos mesmos dias, 20 e 21 deste mês, e uma das dúvidas do mercado é se o desfecho esperado para o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) nos Estados Unidos poderá afetar a decisão sobre a taxa básica de juros no Brasil.

No balanço de riscos que guiará a política monetária brasileira, o BC leva em conta os fatores domésticos e também o ambiente externo.

Do lado dos fundamentos domésticos, as últimas surpresas inflacionárias favoráveis e recentes indicadores de atividade piores do que o estimado pelos analistas (como o PIB do quarto trimestre de 2017 e a produção industrial de janeiro deste ano) elevaram as apostas de mais um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, para 6,50%, na reunião do Copom deste mês.

Já no cenário externo, além da esmagadora maioria esperar por uma elevação dos juros americanos neste mês, o principal risco mesmo é de o Fed revisar em março sua projeção para a trajetória do seu aperto monetário das atuais três para quatro altas de juros em 2018 e de duas para três elevações em 2019.

O ambiente externo – no caso, a trajetória de alta de juros pelo Fed – somente será o fator preponderante na decisão do próximo Copom se afetar de forma significativa a cotação do dólar frente o real, o que, por tabela, teria influência sobre a inflação e as expectativas inflacionárias no Brasil.

Até agora, o estresse com a reprecificação pelo mercado do número de altas de juros nos EUA não foi suficiente para tirar o BC brasileiro da zona de conforto e enterrar de vez a probabilidade de mais um corte da Selic em março, calculada em mais de 80% pelas taxas nos contratos futuros de juros.

Durante meses, os investidores internacionais relutaram em acreditar que o Fed elevaria os juros em 2018 como projetado atualmente.

Isso mudou com o relatório do mercado de trabalho nos Estados Unidos de janeiro, quando a criação de 200 mil vagas ficou bem acima do estimado (177 mil) e o salário médio por hora teve um crescimento anualizado de 2,9%, maior aumento desde maio de 2009.

Esse relatório, divulgado no dia 2 de fevereiro, deflagrou o temor de que a inflação americana finalmente ganhará fôlego em direção à meta de 2% e que o Fed cumprirá com o que projetou em termos de alta de juros neste ano. Resultado: os juros dos títulos do Tesouro americano dispararam e as bolsas mundiais sofreram forte correção.

No Brasil, o dólar, que havia fechado a R$ 3,1697 na véspera da divulgação do relatório do emprego americano, chegou a superar R$ 3,25 na sessão de negócios seguinte.

O temor com a volta da inflação americana levou os investidores a migrar a precificação de duas e meia para três altas de juros em 2018. Aliás, não fazia muito tempo que essa aposta era apenas de duas elevações.

Desde então, os indicadores mais fortes de atividade econômica nos Estados Unidos e as declarações do novo presidente do Fed, Jerome Powell, na semana passada, deixando aberta a possibilidade de revisão da projeção no Fomc deste mês de três para quatro elevações em 2018, fizeram as apostas dos investidores também pender para essa trajetória.

Mas o trauma nos preços dos ativos, em particular no valor do dólar frente ao real, parece ter sido mesmo quando os investidores largaram mão de desafiar o Fed e migraram de duas para três altas de juros. Agora, se o Fomc de março, de fato, revisar para cima sua projeção do aperto monetário neste ano, essa mudança, para quatro elevações, não parece que causará maior choque nos mercados globais.

Tanto assim que, após a fala de Powell à Câmara dos Deputados na terça-feira passada, considerada mais dura em relação ao aperto monetário neste ano, o dólar fechou a R$ 3,2492. E na manhã de ontem, a moeda americana estava abaixo de R$ 3,23.

Ou seja, no curto prazo, o comportamento mais benigno da inflação brasileira poderá ser mais decisivo para o próximo Copom do que a perspectiva de uma trajetória mais agressiva de alta de juros pelo Fed.

* COLUNISTA DO BROADCAST

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