Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

IGP-M, a inflação do aluguel, volta a subir em março e acumula alta de 31,1% em doze meses

Neste mês, indicador subiu 2,94%, dado superior aos 2,53% registrados em fevereiro; número acumulado em um ano é o maior desde maio de 2003

Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 11h20

O Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), também conhecido como "inflação do aluguel", por ser muito usado no reajuste de contratos, subiu 2,94% em março, após uma alta de 2,53% em fevereiro, informou nesta terça-feira, 30, a Fundação Getulio Vargas (FGV). Com o dado, o indicador já uma acumula alta de 8,26% no ano e de 31,10% em 12 meses. É a maior variação em 12 meses desde maio de 2003. 

Com esses números, a avaliação é de que não haverá mudança de tendência e que os preços no atacado (que têm maior peso no IGP-M) seguirão pressionando a inflação ao consumidor, segundo André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV.

"Isso mostra que boa parte do impacto das commodities de 2020 ainda se faz presente. As commodities acumulam 70,13% (de alta em 12 meses até março) e ainda se espalham pela cadeia produtiva", diz Braz, adiantando que mesmo que o IGP-M desacelere para a faixa de 1%, 2% em abril, por conta do recente recuo nos preços de combustíveis, a taxa acumulada seguirá elevada e o indicador pode até mesmo superar a marca de 23% de 2020, alcançando o nível de 25%. "Pode igualar ou até fechar em torno de 25%."

Já para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação do País, Braz acredita que ficará acima da meta de 3,75% estipulada para este ano, em torno de 5%, ou até mais.

Mesmo com alguns sinais de arrefecimento em alguns preços no atacado no IGP-M de março, caso da soja em grão (de 5,41% para 1,93%) e milho em grão (6,14% para 2,66%), o economista pondera que não há qualquer sinal de desaceleração considerável da inflação como um todo, pois já há repasses para outros preços. Ele cita como exemplo o encarecimento em carnes: suínos (-8,32% para 4,94%) e aves (-0,05% para 4,14%). "Soja e milho subiram com menos força, mas ainda sobem e se espalham ao longo da cadeia produtiva", diz, completando que a tendência é que a alta dos bens intermediários em março (14,13% ante 6,33%) prossiga com repasses importantes nas taxas de inflação, como visto em bens finais nessa leitura (2,50% ante 1,25%).

Tanto em bens intermediários como em finais, Braz explica que a maior pressão veio dos combustíveis, por conta dos aumentos verificados nos últimos meses. Segundo ele, ao retirar a influência de alta dos combustíveis, incluindo etanol e álcool anidro, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) seria em torno de 2,9%, 3%, menor que os 3,56% vistos em março. "Mesmo retirando-os, daria muito pouco (alívio). Mostra uma inflação disseminada entre vários produtos que a indústria usa na fabricação de bens finais", afirma. "Já vemos acúmulo de alta em preços de carne bovina, leite e óleo refinado que vimos em 2020 e que continua."

Além da depreciação cambial, as dúvidas provocadas pela pandemia de coronavírus, que requer cada vez mais medidas para estimular o consumo e ajudar os mais vulneráveis, o economista avalia que o quadro atual no País é delicado. "Câmbio, covid e déficit público são o tripé da incerteza, à medida que o Estado gasta mais, se endivida mais e eleva a dívida, que já está alta. E isso não é bom para o Brasil. Mesmo que a taxa Selic suba, pode ter saída de investimentos por causa do aumento da incerteza, gerando novos ciclos de desvalorização cambial, que, por sua vez, estimulam mais inflação", afirma.

Inflação pressiona a taxa de juros

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton, o resultado do IGP-M reafirma o cenário de alta de um ponto porcentual na taxa Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em maio. Com isso, acrescenta ele em nota, o juro básico irá a 6% no fim deste ano. "Está evidente que a dinâmica inflacionária ganhou 'momento' e se retroalimenta. Isso exigiria uma atitude mais austera do BCB (Banco Central do Brasil)." 

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