Daniel Teixeira/Estadão
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Coluna

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IGP-M pressiona contratos de aluguel

Puxado pelos preços no atacado, índice deve ir a 15% no ano, até cinco vezes mais do que indicador usado para definir reajustes salariais

Fabrício de Castro, Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 04h00
Atualizado 28 de setembro de 2020 | 18h24

BRASÍLIA. Indexador usado para corrigir contratos de aluguel de imóveis, o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) deve fechar o ano com variação até cinco vezes maior do que o índice que geralmente é usado como parâmetro para os reajustes de salários. O IGP-M já acumula alta de 13,02% nos 12 meses encerrados em agosto e a previsão é bater em 15,28% até dezembro, enquanto o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) deve ficar em 2,45%.

Se essas projeções se confirmarem, um contrato de R$ 3 mil e aniversário em janeiro de 2021 poderá chegar a R$ 3.458,40, caso não haja uma renegociação entre locador e locatório. Calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o IGP-M também bate com folga o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 12 meses, o indicador usado para medir a inflação oficial do País está em 2,44%.

A discrepância está ligada à metodologia de cálculo dos índices. “A primeira grande diferença é que o IGP-M não é um índice ‘construído’, mas sim a média ponderada de três outros índices”, diz o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da FGV.

O primeiro componente do IGP-M está ligado aos preços no atacado para produtores, com peso de 60%. Os preços no varejo para os consumidores têm peso de 30% e na construção civil, de 10%. A pressão atual está justamente no atacado – ou na “inflação da porta da fábrica”, como dizem os economistas. 

Com a pandemia, os preços de várias commodities subiram, em meio à demanda maior vinda de outros países. Apenas em agosto, a soja em grão subiu 7%. “A economia global puxa a demanda por commodities para cima e, por consequência, toda a cadeia de derivados”, diz Braz. “A desvalorização cambial (alta do dólar) também tem pesado bastante. Ela foi de 30% nos últimos 12 meses e ganhou mais fôlego durante a pandemia.”

Já o IPCA é calculado com base numa ampla base de preços ao consumidor. Se por um lado o preço do arroz ficou mais alto, por outro há queda de custos em serviços como hotelaria e passagens aéreas, por exemplo. 

Renegociação

O movimento do IGP-M ocorre em meio à retração do emprego, da renda e do consumo no Brasil, na esteira da pandemia. “Não há como repassar este aumento de 13% para o aluguel. Não há explicação plausível para o aluguel ter uma correção tão alta por um índice que está sendo elevado por fatores não ligados ao mercado”, afirma o diretor executivo da Rede Lopes, Matheus de Souza Fabricio.

Segundo ele, inquilinos comerciais e residenciais estão procurando, neste momento, os proprietários dos imóveis para renegociar os valores. “O locador muitas vezes sabe que não pode aumentar o valor da locação agora ou o inquilino sai. E a economia não está tão bem assim. Não é um momento tão bom para se exercer o contrato sob o ponto de vista de correção”, diz.

Nas negociações, diz Fabricio, as correções têm ficado entre 2% e 3% – algo mais próximo do IPCA. Essas renegociações, segundo ele, estão ocorrendo principalmente entre os empresários e os proprietários de pontos comerciais, em um cenário de dúvidas sobre o ritmo de recuperação da economia após o isolamento social.

‘Negociamos um pouquinho o valor do contrato’

Inquilina de um imóvel na Aclimação, em São Paulo, a publicitária Christiane Ng conseguiu negociar um desconto na hora de reajustar o seu aluguel. O contrato venceu no mês passado, quando o IGP-M acumulava 13,02% em 12 meses. “Negociamos um pouquinho o valor. Ela (a locadora) repassou uns 10%”, conta ela, que passou a pagar R$ 2.250. 

Com a chegada da pandemia, a publicitária foi demitida em março, mas conseguiu um novo emprego em maio. “Meu tipo de contrato prevê o pagamento adiantado (caução) de três parcelas”, contou. “Quando estava chegando no terceiro mês, consegui um trabalho e, então, arquei só com o valor do condomínio.” Segundo Christiane, a proprietária não chegou a dar nenhum desconto durante a pandemia. /ERIKA MOTODA

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