Ilan de mãos atadas

O BC ficará a reboque do que o Fed fará com os juros e do que acontecerá com o dólar

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2018 | 04h00

A ata da última reunião do Copom, divulgada ontem, soou como um mea-culpa por um tropeço de comunicação e também como uma tentativa de aliviar os temores de investidores e analistas de um eventual cavalo de pau nos juros em relação a uma nova turbulência nos mercados globais levando o dólar a subir com força.

Na ata, o Banco Central tentou se explicar e se eximir das críticas do mercado em relação à entrevista dada pelo presidente da instituição, Ilan Goldfajn, na véspera do início do período de silêncio que antecedeu a reunião do Copom.

Naquela ocasião, Ilan disse, quando indagado sobre o impacto do dólar na inflação, que o BC mirava a inflação e a atividade. Foi grande a surpresa e a frustração dos investidores quando o Copom manteve a taxa Selic inalterada em 6,50% na semana passada, uma vez que aquela derradeira sinalização havia induzido a maioria do mercado a se posicionar para um corte de 0,25 ponto porcentual dos juros, para 6,25%.

“Ao final, prevaleceu o entendimento de que focar na melhor decisão possível dado o conjunto de informações disponíveis no momento resulta, ao longo do tempo, em maior credibilidade para a política monetária”, justificou-se o BC na ata.

A decisão de manter a Selic em 6,50% foi acertada diante da piora no cenário externo, com o dólar disparando frente às principais moedas globais. Mas, a despeito de ter sido correta, a decisão do Copom deixou a credibilidade da atual gestão do BC chamuscada. Houve um erro inequívoco de comunicação.

E é por isso que a mensagem dada na ata sobre o futuro próximo terá pouco peso na calibragem das expectativas do mercado. Na sexta-feira passada, quando triplicou a oferta de swaps cambiais para conter a disparada do dólar, o BC enfatizou que “não há relação mecânica entre o cenário externo e a política monetária”, uma vez que “eventuais impactos de choques externos sobre a política monetária são delimitados por seus efeitos secundários sobre a inflação”.

Se não há relação mecânica entre o cenário externo e a política monetária, por que então o Copom não cortou a Selic para 6,25% como havia sinalizado?

Olhando para o futuro, quem realmente acredita que o BC deixará de elevar a Selic caso o Federal Reserve (Fed) sinalize que vá subir os juros americanos a um ritmo mais veloz, levando o dólar a disparar novamente?

Como qualquer outro país emergente, o Brasil depende do diferencial de juros em relação aos Estados Unidos – base para atrair maior fluxo de capital estrangeiro via as chamadas operações de “carry trade” – e não se pode dar ao luxo de ficar de braços cruzados se essa diferença cair muito e deflagrar uma saída de recursos do País, gerando pressão sobre a cotação do dólar.

E, apesar da ainda elevada ociosidade na economia brasileira, o repasse da alta do dólar sobre os preços não será zero. Tanto assim que a projeção de inflação do BC, no cenário de referência, é de 4,0% em 2018 e em 2019, tendo como premissa uma taxa Selic em 6,50% e um dólar a R$ 3,60. Só que, na semana passada, o dólar chegou a superar R$ 3,77.

Se houver um novo estresse nos mercados globais, ou mesmo no cenário doméstico por conta da incerteza eleitoral, e o dólar subir para R$ 3,90 ou R$ 4,00, como os investidores vão crer piamente na mensagem do BC de separação entre câmbio e política monetária? Como não revisar para cima as projeções de inflação com o dólar mais alto? Como não apostar que o BC começará a subir juros antes do esperado?

Como o Brasil ainda tem fundamentos fiscais sofríveis, apesar da melhora do seu déficit de conta corrente, o BC ficará a reboque do que o Fed fará com os juros americanos e do que acontecerá com o dólar.

O BC perdeu a autonomia de conduzir a política monetária como tinha até há pouco tempo, quando o cenário externo estava benigno. Afinal, não dá para o BC ignorar a paridade dos juros e o risco de uma fuga de capitais se não quiser deixar o câmbio se desvalorizar para níveis desconfortáveis.

É louvável a mensagem da ata de tentar acalmar o mercado, mas, infelizmente, o futuro não depende mais apenas do BC.

O BC ficará a reboque do que o Fed fará com os juros e do que acontecerá com o dólar

*COLUNISTA DO BROADCAST

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.