Imigração: Não entra qualquer um nos EUA

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Imigração: Não entra qualquer um nos EUA

Obama volta atrás em promessa de reformar o sistema de imigração nos Estados Unidos

Economist.com

16 de setembro de 2014 | 16h23


Advogados que atuam com imigração latina estão furiosos com Barack Obama. O presidente dos Estados Unidos voltou atrás em sua promessa de tomar medidas em relação à imigração até o fim do verão, relata Dara Lind em Vox. A questão é como fazer os democratas darem atenção às reivindicações para uma reforma no sistema de imigração, se ao tratar do tema poderiam afastar potenciais eleitores brancos com tendência a votar nos republicanos, enquanto os eleitores latinos já são votos garantidos. O modelo mais efetivo que os Estados Unidos já conheceram de como uma minoria eleitora pode influenciar as políticas de um partido é o do Tea Party, que reuniu público em comícios, ganhou a atenção dos meios de comunicação e (principalmente) elegeu candidatos de direita nas eleições primárias para pressionar a tomada de medidas a seu favor. Mas alguns ativistas da causa da imigração estão mirando um modelo diferente: o do movimento lésbico, gay, bissexual e transsexual (LGBT). Frank Sharry, da America's Voice, organização de defesa dos direitos da imigração, afirmou que uma das lições aprendidas com esse grupo foi a de que "precisamos dar um rosto para a nossa causa".

A afirmação pode soar quixotesca, dada a profunda antipatia da direita em relação a imigrantes sem documento. Por outro lado, talvez faça sentido. Na última segunda-feira, o Washington Post publicou uma história escrita por Eli Saslow sobre um garoto de dez anos chamado Alex Ramirez, que no início do ano empreendeu uma viagem de 4 mil quilômetros de El Salvador a Los Angeles para encontrar-se com os pais, que não via há seis anos. A história de Alex fornece pistas de como os advogados da imigração tocam o coração dos estadunidenses: os relatos são comoventes. Quando seu pai, e depois sua mãe, deixaram as plantações de café para trabalhar nos Estados Unidos e enviar dinheiro à família, Alex ficou com a avó na casa de bambu onde a família vivia há gerações. Quando a mãe de Alex, Yessica, finalmente telefonou-lhe para contar que havia pago um "coiote" (atravessador de fronteiras) para levá-lo ao Norte, ele recusou. Yessica insistiu.

"Ela ficou sabendo que os presentes que enviava por correio todos os meses para o seu filho estavam sendo roubados - pares de tênis Nike e dinheiro estavam sendo interceptados por cartéis da droga em El Salvador, que demandam propinas mensais aos que recebem presentes e dinheiro de seus parentes que moram nos Estados Unidos. Ladrões entraram na casa de bambu, então Yessica mandou algumas centenas de dólares para reconstruir a estrutura em concreto. Entraram de novo, então enviou dinheiro outra vez para a família instalar uma porta com grade de metal. As gangues Mara e Calle 18 estavam espalhadas por todo El Salvador, recrutavam garotos de 11 a 12 anos e matavam até 400 pessoas por mês.

Se por um lado Yessica podia ajudar a impedir a gangue de invadir sua casa novamente, por outro não podia manter seu filho ilhado: não demorou muito para a avó relatar que Alex sumia durante algumas horas após a saída da escola, e voltava com machucados e arranhões - que ele atribuía ao futebol. 'Não estou perguntando, estou mandando você vir para cá', ordenou Yessica."

O "coiote" abandonou Alex pouco antes da fronteira. O garoto correu alguns quilômetros sozinho, no meio da noite, repetindo como um mantra o número de telefone de sua mãe em Los Angeles.

O fluxo de imigrantes da América Central em direção à fronteira sul dos Estados Unidos diminuiu drasticamente nos últimos meses, mas o temido monstro não desapareceu. Os países mais frágeis da América Central estão sendo tomados por gangues, cuja fonte de renda (drogas, milícias de segurança privada e cartéis criminosos) e habilidade em combater as forças armadas rivalizam com o próprio papel do governo. Falências do Estado como essas criam problemas regionais de crime, terrorismo e imigração, e é comum países vizinhos intercederem para restabelecer a ordem. Mas a potência dominante regional, os Estados Unidos, não tem qualquer interesse em intervenções como essa - episódios do passado foram em geral mais desestabilizadores que construtivos.

O papel dos Estados Unidos nesse cenário também é desestabilizante: seu mercado consumidor para drogas ilegais é uma grande fonte de renda para essas quadrilhas, bem como as remessas de dinheiro de imigrantes ilegais para seus parentes. Além disso, muitas gangues da América Central foram incubadas no hipertrofiado sistema prisional estadunidense. No longo prazo, os Estados Unidos Unidos talvez sejam capazes de ajudar governos centro-americanos a derrotar suas gangues, da mesma forma que auxiliou a Colômbia no combate das guerrilhas nos anos 1990, mas apenas se esses governos tiverem o poder político e a vontade para levar adiante uma missão como essa. No curto prazo, a única forma plausível dos Estados Unidos oferecerem ajuda a garotos como Alex é deixando-os entrar.

A maioria dos americanos conheceu ou viveu dentro da própria família histórias como a de Alex. Em algum momento, alguém em outro país caiu na miséria, foi surpreendido por uma guerra, tornou-se vítima de violência religiosa ou política, e decidiu ir embora, optando pelos Estados Unidos como destino para construir um futuro melhor para seus filhos. Minha família veio entre 1906 e 1911, o auge da imigração oriunda de países do Leste Europeu, depois do fracasso da Revolução Russa de 1905 em frear o colapso do Estado, a violência interétnica e o massacre antissemitas. Quando meu tataravô materno, comerciante de tecidos, deixou a cidade de Przemysl no sul da Polônia (então Império Austro-húngaro) e foi para Nova York, podia apenas custear a vinda de duas de suas filhas. Juntou dinheiro nos Estados Unidos e voltou à Polônia para buscar as outras duas, mas ficou preso em Przemysl com a eclosão da Primeira Guerra Mundial; a Revolução Russa continuava. Por volta de 1919, em meio à guerra Guerra Polaco-soviética, foi assassinado por saqueadores enquanto tentava conseguir dinheiro para levar o resto da família para os Estados Unidos.

A principal diferença entre Yessica e meu tataravô é que em 1906 os Estados Unidos estavam abertos à imigração. Essa época já se foi: fronteiras abertas no mundo de hoje atrairiam fluxos inimagináveis de imigrantes. Mas há uma tensão fundamental aqui, que Obama ressaltou em julho, quando inicialmente anunciou sua intenção de tomar medidas executivas relacionadas ao tema. De acordo com Major Garrett, do National Journal, que parafraseou Obama a partir de fontes que estavam presentes no pronunciamento, o presidente rejeitou a ideia de que não era possível impedir a imigração ilegal:

"Às vezes, há justiças inerentes no local onde nascemos, e nenhum presidente pode resolver isso. Mas presidentes devem avisar que não se pode aparecer na fronteira, pedir asilo ou status de refugiado, e esperar que a demanda seja atendida. Se fosse assim, qualquer um poderia entrar, e nosso sistema não funciona assim", afirmou Obama.

Países ricos precisam limitar a imigração. Ao mesmo tempo, é  moralmente injustificável o fato de algumas crianças nascerem em governos prósperos, estáveis e acolhedores, enquanto outras nascem em Estados disfuncionais e sujeitas a violências étnicas e religiosas, ou ainda a quadrilhas criminosas. A maioria dos americanos com histórias de imigração em seus antepassados são sensíveis a essa injustiça básica. A imigração sempre terá restrições, mas as regras serão determinadas pela luta política entre empatia e prudência. Os advogados de imigrantes fazem um bom trabalho ao explicitar histórias que fazem a balança pender para a empatia. Talvez você leia a história de Alex e não se importe se ele chegou ou não ao apartamento dos seus pais em Los Angeles. Mas duvido que isso aconteça. Caso você esteja se perguntando, sim, ele conseguiu.

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Da Economist.com, traduzido por Livia Almendary, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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