Imigrante pobre movimenta US$ 300 bi

Movimento anual supera em três vezes total da ajuda externa a países

Jason DeParle, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

O montante em dinheiro, que circula a conta-gotas pelas fronteiras, chega a US$ 200 ou US$ 300 a cada vez. É usado na compra de arroz, sêmola de milho e uniformes de escolas particulares, e também para manter o patrão à distância. Globalmente, o volume é enorme: os migrantes de países pobres enviam para casa cerca de US$ 300 bilhões por ano. Valor superior a três vezes o total da ajuda externa global, o que torna essas "remessas" a principal fonte de dinheiro fluindo do exterior para o mundo em desenvolvimento.Pesquisas mostram que 80% desse dinheiro, ou até mais, é gasto imediatamente em comida, roupas, habitação, educação, uma festa regada a cerveja e até a compra de novo aparelho de TV. Mas há dezenas de bilhões disponíveis para poupanças ou investimentos, em lugares onde o capital é escasso. Embora esse dinheiro enviado pelo imigrante seja usado para reduzir a pobreza familiar, os legisladores esperam aumentar o efeito dele sobre o crescimento econômico.As pessoas que vêm procurando rastrear essas remessas têm muita dificuldade na obtenção de dados básicos. É difícil dizer exatamente o montante de dinheiro em circulação e mais difícil ainda saber para onde ele vai exatamente. Somas grandes e pequenas de dinheiro viajam informalmente, por meio do correio ou aos cuidados de amigos. O Banco Mundial, o principal mantenedor desses dados (na forma de um meticuloso economista chamado Dilip Ratha) contabiliza apenas as transferências registradas pelos bancos centrais. E o total do ano passado chegou a US$ 208 bilhões. Autoridades do banco estimam que o total global é em torno de 50% maior, ou seja, US$ 300 bilhões ou mais.NOVO ESTUDONo mês passado, o Fundo para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), braço das Nações Unidas, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgaram um novo estudo com um conjunto de números obtidos em fontes adicionais, incluindo dados de pesquisas particulares e registros de empresas especializadas em transferências de fundos. (A pesquisa foi conduzida por Manuel Orozco, do grupo de pesquisa Diálogo Interamericano, com sede em Washington.) A estimativa, nesse novo estudo, é de um total global de US$ 301 bilhões, quase a mesma do Banco Mundial. Mas, quanto a países específicos, as duas organizações diferem amplamente.De acordo com o Banco Mundial, que utiliza dados dos bancos centrais, os países da região sul da África receberam cerca de US$ 1,4 bilhão em 2006. Com base no novo estudo da FAO, esse montante chegaria a US$ 4,5 bilhões.Para o Banco Mundial, no caso do Brasil as remessas chegaram a US$ 3,5 bilhões, enquanto o novo estudo diz que foram US$ 7,4 bilhões.Dependendo dos números utilizados, a Rússia recebeu ou US$ 3,3 bilhões, segundo o Banco Mundial, ou US$ 13,8 bilhões, de acordo com o novo estudo. Os dados do Banco Mundial são publicados anualmente, enquanto esse novo estudo, parte de um projeto mais amplo, não foi totalmente revisado. De qualquer maneira, as somas envolvidas são grandes e circulam por todo o mundo: o movimento migratório na verdade é global. Segundo o novo estudo, 60 países receberam US$ 1 bilhão, ou mais, no ano passado. Em 38 países, as remessas representaram 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Manuel Orozco calcula que cerca de um terço desse dinheiro, US$ 96 bilhões, vem dos Estados Unidos, enquanto grandes somas também são originadas na Europa e no Oriente Médio.Donald Terry, funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que co-patrocinou o estudo, há anos vem fazendo campanha para o montante dessas remessas ser divulgado. Ele defende também a redução dos custos de remessa de dinheiro e uma ajuda aos imigrantes para abrirem contas em banco, especialmente ao voltarem aos seus países, para poderem ter acesso a empréstimos hipotecários ou para empresas."Divulgar esses dados aumenta o nível de interesse político", diz Donald Terry. "O que é espantoso é como remessas importantes vão para quase todos os países desenvolvidos do mundo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.