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Impacto da crise no emprego é mais rápido do que se esperava

Construção civil foi um dos setores mais afetados; segundo sindicato, foram feitas mais de 100 homologações por dia nas últimas 2 semanas

Ana Paula Lacerda e Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 00h00

O impacto da crise econômica no emprego foi mais rápida do que o que a maioria dos analistas esperava. Segundo dados de sindicatos e empresas, a crise foi responsável por pelo menos 6,5 mil pessoas nos últimos 45 dias - o número, no entanto, pode ser muito maior, pois as homologações em sindicatos contabilizam apenas as demissões de funcionários com mais de um ano de casa."Chegamos a fazer mais de 100 homologações por dia nas duas últimas semanas de outubro", conta o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de São Paulo, Antônio de Souza Ramalho. "Porém, todos diziam que os cortes haviam sido mais fortes entre os funcionários com menos de um ano de trabalho. E esses não temos como medir."A construção civil foi um dos setores que mais demitiram por causa da crise, assim como a metalurgia (que inclui a cadeia automotiva) e os eletroeletrônicos. Até agora foram 2,3 mil, 2,7 mil e 900 demissões confirmadas, respectivamente. "Existe uma ordem", diz o presidente do instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann. "Os setores afetados foram aqueles que demandam que seus consumidores usem mais crédito. Dificilmente uma casa, um carro ou um eletrônico novo cabem com folga no orçamento de uma família."A Syntax, empresa montadora de PCs e notebooks, por exemplo, demitiu ao todo mais de 100 funcionários em outubro. Na fábrica da Bahia, ficaram só 25 empregados de um total de 100. O corte no escritório administrativo da companhia, em São Paulo, foi de 30 pessoas. Alguns departamentos, como o de pesquisa e marketing, foram extintos.Um dos funcionários demitidos conta que os diretores da companhia atribuíram à crise a redução de pessoal. "Disseram que era hora de enxugar custos, para a empresa se manter." Duas levas de demissões foram feitas entre setembro e outubro, com menos de um mês de intervalo entre elas.Um funcionário que permanece na empresa confirmou os cortes. Segundo eles, a medida ocorreu por dois motivos. O primeiro foi a retração nas vendas, que começou em agosto. Depois, em outubro, a disparada do dólar fez a situação da companhia piorar. Como ela apenas monta os computadores no País, todos os insumos utilizados na produção são importados. A alta da moeda americana praticamente travou a produção e as demissões foram uma questão de sobrevivência para a empresa.Pochmann, do Ipea, considerou "surpreendente" a velocidade com que os efeitos da crise chegaram ao emprego. "Esperava uma desaceleração para outubro, mas um resultado negativo foi inesperado", afirmou, sobre a pesquisa divulgada esta semana pela Fiesp.O nível de emprego na indústria paulista caiu 0,41% em outubro, ante setembro, o que significou o corte de 10 mil postos de trabalho. A maior parte dos cortes nas empresas brasileiras ocorreu no Estado de São Paulo, mas a região de Manaus (AM) também foi muito afetada. "Nosso normal era fazer cerca de mil homologações por mês", conta João Brandão, secretário de formação do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas. "Mas em setembro fizemos 1.439 e em outubro, 1.733." O setor mais afetado na região é o de eletroeletrônicos. Sony e Evadin já anunciaram mais de 500 demissões por causa de crise. "A Xerox demitiu 60 e está ameaçando fechar sua atuação na região", diz Brandão. "E as empresas fabricantes de motos e autopeças anunciaram férias coletivas. Se não receberem os mesmos incentivos que os automóveis, podem cortar gente em janeiro também", diz o secretário.A economista Fernanda Batolla, da Credit Suisse Hedging-Griffo, diz que "já esperava um arrefecimento por causa da alta do juros, mas, agora, o efeito se dará mais rapidamente. Fernanda observa que a população ocupada já sem grandes movimentações para cima ou para baixo há três meses. Nas contas da instituição, a taxa de desemprego sairá dos atuais 7,6% para 9% em 2009."O 13º salário e as férias, concentradas em dezembro e janeiro, vão mascarar um pouco os impactos da crise", diz Pochmann. "Em janeiro veremos o verdadeiro estrago." Ele prevê primeiro trimestre de 2009 com PIB zero. "Se isso acontecer no 4º trimestre será terrível. O governo terá de fazer ações precisas para garantir o emprego da população."

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