Nilton Fukuda | ESTADÃO CONTEÚDO
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Impacto do câmbio na inflação deve ser limitado, dizem analistas

Segundo economistas, maior efeito deve ser sentido nos preços dos combustíveis, atrelados ao mercado externo

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 20h59

A variação do dólar, que acumula uma alta de quase 7% este ano, deve ter impacto pequeno e localizado na inflação ao consumidor, segundo analistas. A avaliação é que a pressão que pode ser sentida mais rapidamente será nos preços dos combustíveis, pelo fato de a Petrobrás adotar uma política de reajustes baseada nas cotações do petróleo no mercado internacional – ou seja, em dólares.

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Outro foco de pressão pode aparecer no preço dos eletrônicos, que têm boa dose de componentes importados. Mas, por ora, economistas ouvidos pelo Estado concordam que essas pressões são insuficientes para provocar uma revisão das projeções para o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA). Isso porque o fraco ritmo de atividade não permite o repasse dos aumentos de preços para o consumidor. Segundo os analistas ouvidos pelo Banco Central no Boletim Focus, o mercado espera para este ano um IPCA de 3,49%. Já as previsões para a cotação do dólar ao final do ano estão em R$ 3,35.

“O impacto deve ocorrer sobre os combustíveis e no preço da energia elétrica, se as termoelétricas, que são movidas a diesel, forem acionadas”, observa o professor de Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, Heron do Carmo. Apesar de acreditar que o reflexo no IPCA será reduzido, Heron destaca que a percepção de aumento da inflação pode ser notada de forma mais intensa do que o apontado pelo IPCA. É que as despesas com combustíveis acabam sendo uma grande referência de inflação para o cidadão comum, diz.

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O economista Paulo Picchetti, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), observa que o padrão de transmissão da alta do câmbio para os preços ao consumidor mudou depois da recessão. Apesar de não dispor de números, ele afirma que, por conta da atividade fraca, o repasse é menor do que já foi no passado, e também é mais defasado.

Fabio Romão, economista da LCA Consultores, que acabou de revisar para baixo a previsão de IPCA para este ano, de 3,7% para 3,5%, concorda com Picchetti. Para ele, o fraco ritmo de atividade não deve chancelar reajustes de preços a ponto de ter impacto global no índice de inflação. “A demanda precisaria estar bem aquecida para que isso ocorresse.” A projeção de inflação da consultoria para este ano já considera um dólar de R$ 3,50, que, antes da disparada do câmbio, seria atingido em setembro. “Boa parte desse movimento foi antecipado.”

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Eletrônicos. Pichetti diz que é difícil projetar o impacto do repasse do câmbio para os preços e apontar em quais grupos estariam ocorrendo as pressões. Mas, em abril, ele notou no IPC-S que os preços dos produtos comercializáveis, que são os mais sensíveis ao câmbio, voltaram a subir 0,08%, depois de terem caído 0,13% em março. “É sempre difícil fazer a relação direta do efeito do dólar sobre os preços, mas também é muito difícil alguns setores resistirem.”

Nos Índices Gerais de Preços, os IGPs, o impacto da alta do câmbio poderá ser mais visível. Nesses indicadores apurados pela FGV, o dólar tem grande influência, uma vez que os preços no atacado, muitos deles matérias-primas cotadas no mercado internacional, respondem por 60% do indicador. “Os IGPs são mais sensíveis ao câmbio e o reflexo deve aparecer nos preços das matérias-primas agrícolas e industriais em 30 dias”, prevê André Braz, economista do Ibre/FGV.

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