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Impacto político do coronavírus e do petróleo

Brasil é um país dividido e até agora não apareceram lideranças capazes de enfrentar um processo dessa gravidade

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 18h05

Não há ainda um mínimo de clareza a respeito dos desdobramentos do duplo choque, do coronavírus e do petróleo. Mas já se esboçam impactos sobre as relações de poder, no exterior e por aqui.

O mais importante deles sugere enfraquecimento da força do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não só porque seu jogo unilateralista ficou disfuncional e passou a ser fortemente questionado diante da maior necessidade de coordenação global de políticas entre as grandes potências, mas, também, porque algumas áreas que o apoiam estão agora prostradas e mais propensas a mudar de lado.

O setor da economia dos Estados Unidos mais atingido pela derrubada dos preços do petróleo é o do óleo e gás de xisto, responsável pela produção de aproximadamente 10 milhões de barris ou equivalentes por dia, mais do que as exportações da Arábia Saudita até agora. Se os preços do barril persistirem à altura dos US$ 30, grande parte dos produtores desse segmento quebrará ou será obrigada a suspender a produção por tempo indeterminado, porque opera a custos bem mais altos. Isso implicaria perda de renda e enfraquecimento fiscal de importantes Estados do Sul do país e de municípios que vinham apoiando Trump. O vigor da economia, apontado como grande trunfo eleitoral do presidente, pode deixar de ser tão estratégico, como foi até agora.

A ação da Rússia, crucial na decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de derrubar os preços, parece ter sido, também, de represália ao governo Trump, pelas sanções por ele impostas a empresas europeias participantes do projeto de construção das instalações do gasoduto Nord Stream 2, desenhado para facilitar as exportações russas para a Europa, principalmente para a Alemanha. Ou seja, a Rússia, que dizem ter ajudado Trump nas eleições de 2016, agora parece estar no lado oposto.

E tem as relações com Pequim. Se pretendia voltar a acirrar a guerra comercial, Trump também ficou sem justificativa para isso, diante do impacto da queda do PIB da China sobre a economia mundial e sobre a dos Estados Unidos. Também nesse caso, a reconfiguração geopolítica não ajuda o presidente Trump.

Como lembrado acima, este é um momento em que é preciso coordenação global contra o alastramento do coronavírus, empreendimento que exige aprofundamento das relações de confiança entre os governantes globais. Mas a capacidade de inspirar confiança não é qualidade que pode ser apresentada por um governante que refuga a defesa dos valores globais e, em vez disso, trombeteia que os interesses americanos virão sempre em primeiro lugar. E essa peculiaridade deverá ter influência na condução da política durante e depois do coronavírus.

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Importante será também ver como se comportam as relações entre os membros da União Europeia. O sócio mais vulnerável agora é a Itália. Num momento em que a solidariedade do bloco vem sendo questionada, especialmente pelo Brexit, e em que dentro dele proliferam movimentos xenófobos e separatistas, será preciso ver até que ponto a integração entre os países-membros vai ser atendida. 

Aqui no Brasil algumas coisas novas já acontecem. Uma delas é o acirramento da ação dos congressistas contra o presidente Bolsonaro. A derrubada do veto no caso da concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), na semana passada, é indicação disso. Se o coronavírus se alastrar no Brasil, as atividades dos congressistas poderão ficar reduzidas e, nessas condições, a aprovação dos projetos de reforma poderia ficar prejudicada, fator que poderá, por si só, derrubar a confiança na condução da política econômica.

A decisão de evitar manifestações políticas de rua prejudica não só as forças que apoiam Bolsonaro, mas também as esquerdas mais radicais, que sempre apelaram para movimentos de massas. E, by the way, é também fator capaz de desmobilizar as manifestações da direita populista na Europa.

A hora é de unificação de forças aqui no Brasil, destinada a enfrentar problemas de enorme gravidade. Mas até agora não apareceram lideranças capazes de conduzir um processo dessa natureza. O clima interno ainda é de forte polarização, de rejeição ao diálogo e de definição de compromissos.

Os tempos estão a exigir uma economia de guerra, a ser conduzida num regime democrático. Isso exige sólida união interna e alta capacidade de superação de divergências. Mas, por enquanto, o Brasil ainda é um país dividido.

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