Impacto será pequeno no crédito para o consumo

Repasse da alta de 0,75 será irrisório e alguns economistas dizem que talvez seja preciso encurtar também os prazos de financiamento

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

A alta de 0,75 ponto porcentual da taxa básica de juros, a Selic, de 8,75% para 9,50% ao ano, terá hoje impacto muito pequeno no custo dos financiamentos, aponta uma simulação feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Contabilidade e Administração (Anefac).

Em um financiamento de 60 meses para compra de um veículo, cujo preço à vista é de R$ 25 mil, o acréscimo na prestação mensal será de R$ 10,89 ou de R$ 653,40 em cinco anos. O efeito é semelhante num empréstimo pessoal de R$ 1 mil, concedido pelos bancos e parcelado em 12 vezes. O acréscimo na prestação provocado pela alta dos juros é de centavos (R$ 0,38), e R$ 4,56 ao longo de todo o período.

Ontem, de seis instituições financeiras consultadas pelo Estado (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Banco PanAmericano, Banco do Brasil e Caixa), cinco não quiseram se pronunciar se fariam ou não o repasse da alta da Selic para o consumidor e informaram que iriam analisar a questão nos próximos dias.

Somente a Caixa Econômica Federal informou, por sua assessoria de imprensa, que, por enquanto, não pretende alterar os juros. No ano passado, a Caixa reduziu os juros dos financiamentos nove vezes, informa a instituição, independentemente de a taxa de juros ter ficado estável em boa parte do período.

Em um momento de disputa acirrada entre os bancos para conquistar uma fatia maior do mercado de crédito, é pouco provável que as instituições financeiras repassem essa elevação de custos para o consumidor, acredita o vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, responsável pela simulação.

Ele argumenta que, como o cenário macroeconômico de longo prazo é favorável, com perspectivas de continuidade de aumento do emprego e da renda, é pouco provável que as instituições financeiras queiram tirar o pé do acelerador do crédito para atenuar as pressões inflacionárias, como o governo deseja.

Prazos. Outro impacto da elevação da taxa Selic sobre o crédito seria o encurtamento dos prazos, já que o custo do dinheiro ficou mais caro a partir de hoje. O Santander, por exemplo, que oferece parcelamento em até 48 meses no empréstimo pessoal, informou que não pretende reduzir o número de prestações. "Vamos evitar esse tipo de repasse aos prazos", disse o superintendente do segmento de Pessoas Físicas no Brasil, Rogério Estevão, na última segunda-feira, antes da decisão do Copom.

Diante da perspectiva de continuidade de crescimento do emprego e da renda e do grande apetite dos bancos pelo mercado de crédito, economistas discutem a eficácia da alta da taxa básica de juros para esfriar o consumo e trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% neste ano. "A alta dos juros sozinha não terá capacidade de reduzir a demanda. Serão necessários outros estímulos adicionais, como redução de prazos de financiamento e da renda", diz o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn.

Para o vice-presidente da Anefac, o aumento dos juros básicos terá mais efeito psicológico pela sinalização dada pelo BC, de que continuará elevando a Selic.

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