Impactos do cenário econômico na agricultura

O agronegócio continuará crescendo nos próximos períodos. Entretanto, o cenário a ser enfrentado será um pouco mais difícil. Destaco a seguir os pontos que me parecem mais importantes:

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS , O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h16

1 - Os EUA vão liderar a recuperação econômica mundial, voltando a crescer sem inflação. Com isso, o dólar continuará a se valorizar frente às moedas emergentes, os juros voltarão a subir e o país vai liderar a atração do fluxo de capitais. Não é fora de propósito a taxa do papel do Tesouro de dez anos atingir 3% até o final do ano.

Para nosso país, a implicação é evidente: continuará a tendência de desvalorização do real e de elevação do custo do crédito para o Brasil. Esse último fator deverá ser reforçado pela provável redução na nossa classificação de risco nos próximos meses. Ressalto que o Brasil continuará com o grau de investimento, apenas no piso mínimo.

2 - A revolução colocada pelo gás de rocha (shale gas) vai implicar na autossuficiência energética dos EUA até 2020. Com isso, existirá uma tendência à queda de preços do petróleo, assim que o risco político do Oriente Médio se reduzir.

Implicações mais importantes desse fato para o agronegócio: o custo de transporte internacional deve cair, bem como o de fertilizantes nitrogenados. Entretanto, o custo do transporte interno seguirá dependendo do controle de preços do diesel. Neste ano, como se sabe, os fretes explodiram pela combinação da elevação nos preços do diesel, pela Lei do Caminhoneiro e pela calamidade do sistema logístico nacional. Dada a desvalorização do real, o transporte local não irá se reduzir.

3 - O rebalanceamento da economia chinesa implica numa redução do crescimento do país, para a faixa de 6,5% - 7,5%. Nessas condições, a demanda de petróleo e alimentos deve se manter positiva, embora o super ciclo de commodities não exista mais. Além disso, o coeficiente de importações de alimentos da China deve continuar a crescer lentamente, especialmente por crescentes importações de milho e, logo mais adiante, de carnes.

4 - O cartel do potássio se rompeu. A empresa russa Uralkali rompeu com a Belaruskali e decidiu vender o produto mais barato. As duas companhias representavam juntas algo como 45% da oferta global. Os preços desse nutriente devem cair logo, passando de US$ 400 para algo como US$ 300.

5 - A economia brasileira deverá crescer em torno de 2% até 2015. Ainda assim, a inflação seguirá na faixa de 6%, o que está levando o Banco Central a aumentar a Selic até 9.5%. Como consequência, o custo do financiamento para a expansão das empresas vai crescer, tanto por causas externas como por internas. É indispensável que as empresas do agronegócio sejam cautelosas quanto à estrutura de capital adequada para financiar sua expansão.

6 - A piora do balanço de pagamentos seguirá inexorável. Com isso, temos duas razões para a desvalorização do real: a recuperação americana e o nosso déficit em conta corrente. O dólar dificilmente virá abaixo de R$ 2,30 neste ano, podendo atingir R$ 2,40 e R$ 2,50 proximamente.

7 - As taxas reais de salário deixarão de crescer como no passado recente, fruto da baixa expansão do PIB, da inflação e da perda do valor do real. A pressão da mão de obra será menor.

8 - O BNDES não terá mais a folga orçamentária desses últimos anos. Como consequência, seu crédito ficará mais difícil. Não é demais repetir que as empresas terão de ter muito mais cuidado na equação financeira de suporte ao seu crescimento.

9 - A folga do orçamento público acabou. Depois da eleição, a expansão dos gastos públicos terá de ser muito mais limitada, o que afetará o agronegócio, de diversas maneiras.

10 - A ineficiência do gasto público continuará alta. Poucas são as esperanças de melhora na infraestrutura a curto prazo, inclusive no que tange às concessões.

11 - A safra 2012/13 mostrou os limites de crescimento da produção agrícola no que depende da logística. As regiões mais distantes terão reais dificuldades para expandir a área cultivada e a produção, especialmente da safrinha. O Paraná terá elevado o seu prêmio de proximidade dos portos.

12 - Nas culturas de café, açúcar e laranja, a desvalorização do real provoca alguma queda nas cotações internacionais, o chamado efeito do país grande. Isto reduz em parte o benefício da desvalorização.

13 - Nos outros produtos, a desvalorização será apropriada pelos produtores, melhorando as margens, ainda que parte dos custos sofra aumento. É claro que safras muito abundantes derrubam preços, como é caso do milho neste momento. O inverso seguirá ocorrendo em caso de a oferta curta no mundo continuar a elevar preços, como o que está ocorrendo com o leite.

14 - A explosão no custo de transportes e o congestionamento dos portos machucaram de forma importante os mecanismos de compra antecipada da safra pelos processadores (soja verde, "barter"). Não é possível fazer hedge de custo de transporte e de atraso no embarque de navios. O financiamento do setor (curto e longo prazo) será afetado.

As perspectivas do agronegócio brasileiro continuam muito boas. O mercado global vai continuar crescendo, a desvalorização do real beneficia o setor (cem por cento da receita é beneficiada e apenas parte da despesa é referida ao dólar) e o segmento é o único relevante da economia brasileira que tem na melhora técnica e na elevação da produtividade uma realidade diária. Entretanto, estamos atravessando um período de turbulências que exige certa cautela. Devemos também lembrar que em momentos como estes, estratégias e modelos de negócios devem ser muitas vezes alterados ou ajustados, o que definirá os vencedores de amanhã.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS É ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS  

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