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Energia eólica transforma interior do Nordeste

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 08h00

Um dos desdobramentos da chegada dos parques de geração de energia eólica ao Nordeste é a interferência positiva na economia local. Como as áreas com maior potencial de vento estão muitas vezes em regiões bastante carentes, como no interior do Piauí ou de Pernambuco, a efetivação na prática de um discurso de transformação social nunca foi tão necessária.

“Quando chegamos há seis anos à região da Serra do Inácio, na divisa do Piauí com Pernambuco, detectamos uma região carente, mas com muitas potencialidades. Desde então começamos a criar ações que pudessem deixar um legado social”, afirma Rômulo Marçal Vieira, diretor corporativo da Votorantim Energia. A empresa, hoje, administra 21 parques eólicos na região, sendo que dez ainda estão em construção. A partir da cidade de Araripina, em um raio de 200 quilômetros, existe um total de 1.800 empreendimentos de energia solar ou eólica em operação, construção ou licenciamento.

O conceito da economia circular, segundo Vieira, é uma realidade na cidade piauiense. A partir de projetos com comerciantes locais, que envolvem até nutricionistas para orientar os estabelecimentos, hoje há restaurantes que movimentam a economia local comprando hortaliças e carne dos próprios produtores da região. “A intenção foi fazer com que a economia girasse. A produtividade por cabrito, por exemplo, aumentou em 30%, em uma mesma área. No caso de um grupo de senhoras que exploram a mandioca, elas também começaram a produzir beiju e farinha”, explica o executivo da Votorantim.

Além da geração de renda a partir de cadeias de produção locais – Araripina tem 84 mil habitantes e está sendo considerada a sede das empresas de energia verde que operam na região –, existe uma preocupação com a educação formal, até para formar pessoas que possam trabalhar no setor energético, que vai dominar totalmente a paisagem nas próximas décadas.

“A educação é transformadora, por isso resolvemos criar em parceria com o Itaú Educação e Trabalho e o governo do Estado de Pernambuco um curso profissionalizante para inserir os jovens no mercado de energia limpa”, afirma Vieira.

O curso profissionalizante Sistemas de Energia Renovável iniciou as aulas em fevereiro, na Escola Técnica Estadual Pedro Muniz Falcão, com 90 alunos a partir de 14 anos.

“A região é uma das melhores, no mundo, para as produções eólica e solar, e está em franca expansão. Esses jovens poderão trabalhar não apenas na Votorantim Energia, mas em várias outras empresas da cadeia”, afirma o executivo da Votorantim Energia.

Década perdida

A participação das energias solar e eólica na matriz energética brasileira, hoje um pouco menos de 10%, pode chegar a 30% até 2030, segundo Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas e consultor do setor. Essa taxa, afirma o especialista, seria a ideal para que o Brasil dependesse menos das fontes hídricas, o que sempre gera muitas incertezas no setor de energia, como está ocorrendo agora.

“O setor privado está fazendo políticas sofisticadas com muita materialidade, mas o País ainda tem muitos desafios. A estratégia nacional poderia ser mais ambiciosa. O potencial que existe em termos de redução de emissões de gases do efeito estufa é grande. E não temos o problema da China, por exemplo, que precisa fazer uma transição custosa por causa da dependência do carvão”, afirma Gesner.

Além de controlar o desmatamento, principalmente no bioma amazônico, outro caminho de sucesso, segundo o especialista, é estimular as cadeias produtivas para gerar valor a partir da biodiversidade nacional, uma das mais ricas do mundo.

“Falta uma articulação de um projeto nacional. Desde 2012 temos uma tendência de crescimento de área desmatada. Além de sermos uma potência agro, também temos que obter caminhos para sermos uma potência ambiental. O potencial para isso é muito grande”, afirma Gesner Oliveira.

 

Diversificação e renda

O mergulho nos dados do setor eólico reforça a tese de que a chegada dos parques geradores de energia tem o potencial de transformar a economia local.

Estudo realizado para a GO Associados sob encomenda da Associação Brasileira de Energia Eólica, com números até 2019, antes portanto da pandemia, mostrou a sinergia positiva entre investimentos, geração de emprego e renda, além de fazer subir a arrecadação tributária.

Segundo a pesquisa, realizada com foco em todo o Brasil, os investimentos para expansão do setor eólico de R$ 66,95 bilhões realizados no período de 2011 a 2019 tiveram potencial de expandir a produção das Regiões Nordeste e Sul do País (valor agregado) na ordem de R$ 262 bilhões, gerando mais de 498 mil empregos por ano, em média, e R$ 45,2 bilhões em massa salarial. Além disso, foram arrecadados R$ 22,4 bilhões em tributos relacionados, sendo R$ 11,8 bilhões em ICMS e R$ 1,9 bilhão em IPI.

“Outro fator importante é a renda gerada a partir do arrendamento de terras [por parte das empresas] para a instalação dos equipamentos de geração”, afirma Gesner Oliveira, um dos autores da pesquisa. Segundo Gesner, a instalação dos parques eólicos tem uma relação positiva e significativa com os índices socioambientais dos municípios, medidos pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

“Por causa dos impactos dos investimentos e dos arrendamentos, os municípios estão registrando um desempenho maior em comparação com aqueles onde esses processos não estão presentes”, afirma o consultor.

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