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Impasse circular e endógeno

Debates em torno de questões do tipo “ovo ou galinha” são frequentes entre economistas. Um dos mais recentes deles, entre nós, é o que toma a profunda recessão em que se encontra a economia brasileira como causa ou como efeito do ajuste fiscal ao qual o governo se diz empenhado em levar adiante desde o início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. É o ajuste fiscal que explica a recessão, como quer uma parcela dos ditos desenvolvimentistas, ou a recessão é anterior ao ajuste e resulta de erros na condução da política econômica anterior, como martela boa parte dos assim chamados neoliberais?

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2015 | 05h00

A disputa é relevante e está inserida, com as devidas tropicalizações, no ambiente em que se dão os embates em torno do êxito ou do fracasso das políticas de austeridade, aplicadas com maior rigor na Europa meridional, a partir da eclosão da grande crise global de 2008. O problema é que, no Brasil de hoje, esse debate roda no vazio, uma vez que programas de ajuste fiscal propostos pelo governo têm sido boicotados no Congresso, exigindo contínuas revisões de metas e acentuando a percepção de falta de credibilidade na sua execução.

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Perspectivas são preocupantes, mas há uma pauta mínima passível de convergência
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Do abraço de afogados entre o governo e o Congresso resultou um impasse circular e endógeno. Endógeno porque a crise política, ao ajudar a deteriorar o ambiente econômico, contribui para acentuar a própria crise política. Circular, na medida em que a crise econômica dificulta a obtenção de consensos no Congresso, com vistas à sua superação e assim colabora para aprofundar a crise política.

São mais do que conhecidos – e aceitos – os diagnósticos que atribuem às consequências econômicas desse impasse político a falta de confiança numa recuperação suficientemente rápida da economia. Ao conceito difuso e abstrato pode-se agregar constatações concretas da vida cotidiana das empresas para explicar o ambiente de negócios desestimulante. Como mostra com indiscutível clareza estudo do Centro de Estudos do Instituto Ibmec (Cemec), coordenado por seu diretor, o economista e professor da Faculdade de Economia da USP, Carlos Antonio Rocca, o investimento privado, matriz da reversão do atual estado recessivo ainda se encontra interditado.

O desânimo com os investimentos, segundo os dados atualizados até o primeiro semestre, não provém apenas da inexistência de perspectivas de recuperação da demanda, no médio prazo, ou de choques adversos em setores de grande peso econômico, como o de petróleo/gás e da construção pesada, atingidos por escândalos de corrupção. Decorre também do fato de que as empresas estão mais endividadas e os lucros retidos, base das reinversões em melhoria ou aumento da produção, mais comprimidos. Além disso, o custo dos financiamentos, desde 2011, tem ficado crescentemente acima da taxa de retorno do capital investido. A distância entre um e outro se acentuou em 2014 e aumentou um pouco mais no primeiro semestre deste ano.

Reflexo da paralisia da política fiscal, a política monetária entrou em estado de imobilidade. No vácuo deixado pelo ajuste fiscal incerto e incompleto, a política monetária viu-se diante de uma anomalia: mexer nos juros – tanto faz se para cima, numa direção ainda mais contracionista, ou para baixo, em arriscada manobra expansionista – aumenta, no curto prazo, o risco de impulsionar a inflação e de reforçar a trajetória recessiva.

Apesar das perspectivas preocupantes, não se pode perder a esperança numa solução negociada. Primeiro, mesmo com efeitos colaterais indesejáveis, já se pode observar sinais de alívio a partir dos ajustes naturais provocados pela recessão e pela desvalorização cambial. Depois, diante das muitas propostas divulgadas mais recentemente, há conteúdo suficiente para a formação de uma pauta mínima, entre medidas conjunturais e ações estruturais, passível de convergência, para reabrir espaços ao crescimento.

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